O apelo do ex-ministro da Defesa Mykhailo Fedorov por eleições presidenciais em tempo de guerra atinge diretamente as vulnerabilidades de Volodymyr Zelensky.É o maior desafio interno já enfrentado pelo presidente ucraniano. Mas, na prática, provavelmente não resultará em nada.A queda em sua popularidade, as mudanças de posição em decisões-chave de pessoal e o envolvimento em alegações de corrupção têm cobrado seu preço nas pesquisas de opinião. Uma investigação sobre altos funcionários do gabinete de Zelensky foi anunciada nesta quarta-feira (19). Além disso, um presidente em tempo de guerra por seis anos ininterruptos precisa tomar muitas decisões impopulares.Agora, o jovem rosto de um reformador — Fedorov, o gênio da tecnologia, ex-ministro da Defesa que foi demitido por tentar combater os métodos arcaicos e corruptos da velha guarda — exige algo puro e democrático: uma votação.“A democracia não pode ser refém da Rússia. Estamos lutando precisamente porque queremos continuar sendo um Estado europeu livre”, disse ele, em um notável discurso de nove minutos proferido momentos após a confirmação de um novo ministro da Defesa — não ele, de volta ao cargo que desejava. Mas, como muitas coisas em tempo de guerra, a questão não é tão simples assim. Leia Mais Exportações de grãos da Rússia e Ucrânia pelo Mar Negro praticamente param Ucrânia nomeia novo ministro da Defesa em meio a turbulência política Ex-ministro da Defesa da Ucrânia pede eleições durante a guerra Uma votação é, na verdade, praticamente impossível. A maioria dos especialistas eleitorais concorda que, mesmo em tempos de paz, a Ucrânia precisaria de seis meses para implementar reformas legislativas e instalar a tecnologia necessária para realizar um pleito que atendesse aos padrões europeus.Mas não há cessar-fogo nem fim dos combates à vista. Realizar uma votação incompleta, ou que alimente qualquer narrativa de ilegitimidade do vencedor, seria um presente extraordinário para Moscou.Ignorando o próprio processo eleitoral encenado pela Rússia, o Kremlin tem insistido repetidamente na ideia de que a proibição, pela lei marcial, de eleições ucranianas em tempo de guerra significa que Zelensky é ilegítimo.Uma votação também poderia paralisar completamente Kiev: o lado perdedor poderia retardar as reformas legislativas e minar a presidência a cada passo. Isso significaria uma derrota vinda de dentro.Fedorov construiu sua reputação como um inovador genial. Habilidades semelhantes poderiam transformar o processo eleitoral e tornar a votação remota viável em tempo de guerra? Possivelmente. Mas mesmo uma votação digital que pudesse, de alguma forma, incluir todas as tropas na linha de frente em serviço — e vale lembrar que há milhares de ucranianos desaparecidos em combate, com situação não resolvida — exigiria um mecanismo que certamente excluiria os milhões de pensionistas ucranianos que vivem sem acesso à internet.O que dizer aos ucranianos que vivem em áreas ocupadas, ou aos milhões que vivem no exterior como refugiados? Como seria possível realizar eleições rigorosas em dezenas de consulados pela Europa e além? Um soldado na linha de frente, preso em uma trincheira com comunicações precárias, teria tempo suficiente para estudar as opções e registrar seu voto? Ou ele deveria estar ocupado defendendo sua pátria?Seria uma bagunça completa. Qualquer eleição realizada em tempo de guerra provavelmente seria um presente para a Rússia e sua praticada guerra de desinformação e perturbação em torno de eleições. A Europa ficaria com um resultado eleitoral que seria ou um endosso apressado e fraudulento de Zelensky, ou uma passagem de bastão malfeita e incompleta para outro.Os prováveis vencedores, de acordo com as pesquisas, são o ex-chefe militar Valery Zalyuzhni ou o próprio Fedorov. Ambos provavelmente manteriam a Ucrânia seguindo em uma direção semelhante. Mas ambos purgariam o grupo de assessores ao redor de Zelensky, que muitos dos críticos do presidente ucraniano acreditam ser responsáveis por decisões equivocadas e por um cheiro de corrupção. (Um lembrete rápido: a corrupção é uma companheira infeliz de toda guerra travada).Ucrânia revela escassez de interceptadores Patriot como ponto fraco à CNN | CNN NOVO DIADescontentamento crescenteEntão, o que o apelo de Fedorov representa? Há agora uma nova corrente na política ucraniana que é jovem, tem experiência de poder e reforma, e busca lembrar constantemente à Ucrânia que seu presidente se afastou de seu mandato eleitoral original. É uma posição fácil de adotar, pois é respaldada por fatos e alimenta o descontentamento crescente com a guerra. À medida que a mobilização forçada cresce para preencher as fileiras em declínio da Ucrânia, também crescerá a raiva em relação à presidência e aos militares.O apelo de Fedorov também enfatiza uma questão central que ninguém consegue responder. Se uma eleição não pode acontecer em tempo de guerra, então quando essa guerra termina? Um inverno terrível se aproxima, no qual a supremacia de Moscou em mísseis balísticos parece destinada a explorar ainda mais a falta de interceptores Patriot da Ucrânia. A Rússia avança lentamente em direção ao seu objetivo territorial de tomar o Donbas — ainda que tornando o restante do território mantido pela Ucrânia inabitável por meio de horríveis ataques de drones contra todos os sinais de vida civil e militar.A crise do inverno que se aproxima vai alimentar o processo de paz sem brilho e míope que o governo Trump está tentando reacender. Ela aumentará as pressões sobre Zelensky para que conceda território — qualquer coisa para fazer os combates cessarem. Ele foi claro, mais recentemente em uma entrevista comigo, de que garantias de segurança são o que a Ucrânia busca — saber que qualquer cessar-fogo será permanente.Ele descartou a concessão de território. Ele tem plena consciência de que o inverno à frente será difícil, tanto nos céus quanto nas linhas de frente.Quando o assunto foi seu futuro pessoal, ele pareceu atônito quando sugeri que as intrigas políticas de Kiev — as acusações de corrupção em torno de seu antigo círculo íntimo e as artimanhas da política em tempos de guerra — poderiam acorrentá-lo ao cargo após o fim da guerra, ainda que apenas para impedir que críticos do período de guerra perseguissem sua equipe.Ele pareceu horrorizado e deu uma risada, como se eu tivesse perdido o juízo, e falou apenas em ver seus filhos e a praia assim que a guerra acabasse. Ele não parecia um homem que anseia pelo poder indefinidamente. Pelo contrário.Mas não existe um mecanismo adequado para que Zelensky seja substituído por um sucessor genuíno e popular, a menos que ele renuncie e deixe o presidente do parlamento assumir (uma ideia muito ruim, em termos de mandato popular). O efeito final do apelo de Fedorov aos melhores instintos de todos é que Zelensky sai enfraquecido, as questões sobre sua legitimidade eleitoral são amplificadas e o clamor pelo fim da guerra é reforçado.Moscou vai se aproveitar da polêmica, e certamente Trump vai — naqueles momentos em que o pêndulo oscila e a Ucrânia de repente vira a vilã — chamar Zelensky de “ditador” novamente. (Ele não é).O apelo de Fedorov parte de um lugar de boas intenções — não deixar que a guerra destrua os valores democráticos da Ucrânia. Mas ignora o quanto a Ucrânia ainda tinha a percorrer em direção às normas europeias antes da guerra, e os obstáculos que o conflito impõe a esses processos essenciais sob o bombardeio noturno russo. Guerras não podem ser travadas apenas com base em ideologia — uma verdade que talvez tenha levado à saída do inflamado ex-ministro da Defesa, após meses de confrontos e recusa em lidar com o alto escalão do exército, conforme Zelensky descreve.A Ucrânia acrescentou agora à sua imensa lista de desafios — uma crise de mão de obra, de interceptores, uma possível onda russa de tropas por meio de mobilização e um inverno sombrio — a discussão sobre se o seu presidente em tempo de guerra ainda é legítimo. Fedorov tem razão ao dizer que os ideais não devem morrer na guerra, pois do contrário, por que lutar? Mas, inversamente, os ucranianos não devem morrer na guerra porque seus líderes são enfraquecidos na busca de valores inatingíveis por si sós.Por que Donetsk é ponto de discórdia para encerrar guerra na Ucrânia?