A eleição presidencial de outubro oferece aos eleitores brasileiros mais uma escolha acirrada entre esquerda e direita, mas investidores veem poucas diferenças na frente fiscal entre os dois principais candidatos, com a dívida do País provavelmente continuando a aumentar independentemente do ganhador.O senador Flávio Bolsonaro (PL) tem criticado duramente a política econômica do governo atual em sua tentativa de derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que aparece com uma vantagem apertada nas pesquisas.Analistas já precificam uma vitória de Lula seguida por um pequeno ajuste que apenas desaceleraria o ritmo de crescimento da dívida. No entanto, os mercados demonstram ceticismo de que qualquer um dos candidatos consiga iniciar de forma crível uma mudança significativa na trajetória do endividamento público.Estabilizar a dívida brasileira até 2031 exigiria um esforço fiscal de pelo menos 2,5 pontos percentuais do Produto Interno Bruto (PIB), ou cerca de R$ 350 bilhões, segundo Roberto Secemski, economista-chefe para o Brasil do Barclays, em Nova York.Mas qualquer aperto fiscal é excepcionalmente difícil devido à rigidez orçamentária do Brasil e ao Congresso fragmentado. Os eleitores também vão escolher todos os 513 deputados federais e 54 dos 81 senadores, tornando o resultado legislativo parte fundamental da capacidade do presidente de implementar medidas.“Parece improvável que qualquer um dos candidatos consiga promover um esforço fiscal completo” dessa magnitude, disse Secemski, acrescentando que as primeiras medidas adotadas pelo vencedor serão um importante indicativo, pois precisam ser suficientemente robustas para convencer os investidores de que novas ações virão em seguida.Dados do Banco Central mostram que o déficit nominal brasileiro teve média de 8,6% do PIB entre 2023 e 2025 e aumentou para 9,99% do PIB nos 12 meses encerrados em junho.A dívida bruta do governo atingiu 81,9% do PIB, alta de 3,3 pontos percentuais no primeiro semestre. Pesquisa do Banco Central mostra que economistas de mercado esperam déficits primários até 2029, mesmo com o governo prevendo superávits em suas metas, que excluem uma série de despesas, como parte dos gastos com precatórios.O Orçamento de 2026 classifica 92% dos gastos primários como obrigatórios, deixando despesas discricionárias equivalentes a aproximadamente 2% do PIB. Um ajuste duradouro teria de atingir aposentadorias, folha de pagamento, benefícios sociais e mecanismos de indexação de gastos.“Praticamente não existem medidas fáceis no esforço fiscal que precisa ser realizado daqui para frente”, afirmou Secemski.A TS Lombard argumenta que Lula buscará reformas nos gastos após a eleição, embora as despesas obrigatórias deixem cada vez menos espaço para outros cortes. Ainda assim, em seu cenário de reformas, a dívida atingiria um pico de 94,7% do PIB em 2034.A consultoria projeta um ajuste mais rápido sob Flávio Bolsonaro, incluindo uma regra de gastos vinculada à dívida pública, mas ainda vê a dívida alcançando um pico de 90% do PIB em 2032.A TS Lombard também observou que Flávio abandonou propostas anteriores para flexibilizar a indexação automática dos gastos públicos após enfrentar resistência política.“Talvez ele tenha uma vontade maior”, disse Marcelo Kalim, presidente do banco digital C6, ao ser questionado se Flávio promoveria um ajuste mais amplo. “Mas acho que só (saberemos) quando assumir a caneta.”Real forteO Real, que acumula valorização de 5,8% frente ao dólar neste ano e está quase 20% mais forte desde o fim de 2024, mostra por que investidores podem continuar aplicando no Brasil mesmo esperando avanços limitados na área fiscal.Uma taxa básica de juros de 14%, diante de uma inflação anual de 4,44%, combinada com um dólar mais fraco, contas externas sólidas e termos de troca favoráveis, continua sustentando a moeda brasileira.As medianas das projeções mais recentes na pesquisa semanal Focus, realizada pelo Banco Central, apontam a Selic em 13,75% no fim deste ano e em 12% em 2027, preservando boa parte do diferencial de juros que alimenta operações de “carry trade”.O Morgan Stanley afirmou que o “carry” excepcionalmente elevado do Real pode absorver mais pressão eleitoral do que em ciclos anteriores, transferindo parte do ajuste de preços para os juros domésticos.Esse suporte, no entanto, diminuiu. Investidores estrangeiros retiraram US$ 4,2 bilhões de carteiras brasileiras de ações e renda fixa entre março e junho, depois de terem aportado US$ 18,8 bilhões em janeiro e fevereiro, segundo estimativas do Instituto de Finanças Internacionais (IIF).Richard Hall, gestor de portfólio para mercados emergentes da T. Rowe Price, afirmou que fundos hedge e investidores locais também reduziram suas exposições, deixando menos espaço para uma liquidação repentina das posições do que existia alguns meses atrás.Os juros elevados têm impactado fortemente a economia, com aumento de recuperações judiciais de empresas e do endividamento das famílias. Ainda assim, o próximo presidente poderá ter influência limitada sobre o desempenho do real.Hall afirmou que, embora o “carry” proporcione uma proteção ao Brasil, um choque externo combinado com a pressão sobre famílias endividadas e empresas mais fragilizadas poderia desencadear uma desaceleração econômica mais acentuada, desvalorização cambial e juros ainda mais altos.Pramol Dhawan, chefe de gestão de portfólios de mercados emergentes da PIMCO, disse que essas restrições econômicas terão mais importância do que a ideologia do vencedor.Sem o restabelecimento da credibilidade fiscal, afirmou, o Brasil não terá condições para uma queda sustentável dos juros, aprofundando a pressão sobre o crescimento econômico e sobre a dívida pública.“A única questão”, acrescentou, “é se esse ajuste acontecerá de forma proativa ou se acabará sendo imposto pelas forças do mercado.”