O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15) registrou deflação de 0,40% em agosto, resultado mais favorável que a queda de 0,32% esperada pelo mercado. Com o resultado divulgado nesta quarta-feira (26), a inflação acumulada em 12 meses desacelerou de 4,52% para 4,24%, retornando ao intervalo de tolerância da meta, cujo teto é de 4,50%.Foi a primeira deflação mensal do IPCA-15 desde agosto de 2025, quando o índice recuou 0,14%, segundo destacou Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos.A queda dos preços foi relativamente disseminada. Cinco dos oito grupos pesquisados apresentaram deflação, com destaque para Habitação, Transportes e Alimentação e bebidas.Habitação recuou 1,41% e retirou 0,22 ponto percentual do índice, principalmente por causa da queda de 6,25% da energia elétrica residencial, sob efeito do bônus de Itaipu creditado nas contas de luz.O Bradesco observou, contudo, que a tarifa de energia caiu menos do que o esperado. Isso pode indicar que parte do alívio relacionado ao bônus ainda será captada na leitura de setembro.Passagens, combustíveis e alimentos ajudam na deflaçãoA principal surpresa em relação às projeções veio das passagens aéreas, que despencaram 13,30% em agosto. A queda ajudou o grupo Transportes a registrar deflação de 1%, também favorecido pelo recuo de 1,43% dos combustíveis.Alimentação e bebidas caiu 0,57%, enquanto a alimentação no domicílio recuou 0,97%. A inflação da alimentação fora de casa também perdeu força, passando de 0,55% em julho para 0,42% em agosto.Vestuário (-0,20%) e Comunicação (-0,02%) completaram a lista de grupos com queda de preços.Parte do comportamento favorável também pode ser explicada pela sazonalidade. Segundo Kawauti, agosto costuma combinar menor pressão dos alimentos, normalização dos preços de serviços depois das férias de julho e liquidações de vestuário.Composição benigna Além da deflação do índice cheio, economistas destacaram sinais positivos nas medidas que buscam captar a tendência da inflação.A média dos núcleos avançou 0,23%, abaixo dos 0,26% esperados, e desacelerou de 4,4% para 4,3% no acumulado de 12 meses. De acordo com o Inter, a média móvel de três meses ficou em 0,26%, menor nível desde novembro de 2025.O índice de difusão, que mostra a proporção de itens com alta de preços, ficou em 52%. Para André Valério, economista sênior do Inter, isso indica que o processo inflacionário permanece “relativamente contido”.A inflação de serviços também desacelerou de 5,95% para 5,50% em 12 meses, depois de alcançar 6,25% em junho.“O cenário benigno para a inflação vai além da sazonalidade e incorpora também menor pressão de demanda”, afirma Kawauti.Ainda assim, a composição exige alguma cautela. A forte queda das passagens aéreas foi determinante para o resultado do grupo. Sem esse item, os serviços teriam avançado 0,41% em agosto.Os serviços subjacentes, que excluem componentes mais voláteis e são mais sensíveis ao mercado de trabalho e à demanda, subiram 0,50%, acima dos 0,43% projetados.Para Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset, a leitura dos núcleos foi mista. Embora a média tenha vindo abaixo do esperado e os bens industriais tenham avançado apenas 0,08%, os serviços subjacentes mostraram maior persistência.“O IPCA-15 de agosto apresentou uma composição predominantemente benigna, mas, em contrapartida, os serviços subjacentes aceleraram acima do projetado”, afirma.IPCA-15 mais fraco abre espaço para novos cortes da SelicO resultado reforça a expectativa de que o Comitê de Política Monetária (Copom) volte a reduzir a Selic em 0,25 ponto percentual em setembro. A taxa de juros está atualmente em 14% ao ano.“O resultado reforça a probabilidade de continuidade do corte de juros em setembro, com possibilidade de flexibilização adicional nas reuniões seguintes”, diz a economista-chefe da Lifetime.O Inter adota uma visão mais otimista sobre o ciclo. A casa espera cortes de 0,25 ponto percentual em todas as reuniões restantes de 2026, o que levaria a Selic a 13,25% no encerramento do ano.Para Valério, a desinflação mais ampla e a atividade econômica enfraquecida reduzem o risco de que choques pontuais de oferta se espalhem pelos demais preços.A Mirae, no entanto, avalia que a reação da curva de juros deve ser limitada. Isso porque o mercado já incorporou, em grande parte, a expectativa de mais um corte de 0,25 ponto percentual.A gestora também espera que o resultado provoque revisões para baixo nas projeções do IPCA de agosto e, potencialmente, nas estimativas para 2026 reunidas no Boletim Focus.El Niño pode devolver pressão aos alimentosApesar do resultado mais fraco em agosto, a inflação deverá voltar a acelerar na margem nos próximos meses.Um dos motivos é a reversão do bônus de Itaipu. O Inter estima que esse movimento poderá acrescentar cerca de 0,20 ponto percentual à leitura de setembro.O outro risco vem do El Niño. As pressões sobre as commodities agrícolas já começaram a aparecer e deverão chegar gradualmente aos preços pagos pelos consumidores.Segundo o Inter, o impacto do fenômeno climático deve atingir seu pico entre o quarto trimestre de 2026 e o primeiro trimestre de 2027, interrompendo a sequência recente de deflação dos alimentos.O Bradesco também incorporou esse risco às projeções e acrescentou 2 pontos percentuais à estimativa para a inflação de alimentos em 2027. O banco espera que o IPCA encerre 2026 em 5%.“Ao final do ano, o impacto do El Niño sobre o preço dos alimentos deve levar a inflação para próximo do teto da meta”, afirma o Bradesco.