Com uma frota agrícola que se aproxima de 3 mil aeronaves, o Brasil ocupa uma posição estratégica para fabricantes americanos de aviões voltados à aplicação aérea no campo. Em um mercado impulsionado pela dimensão das propriedades rurais e pela busca por produtividade, empresas como Thrush e Air Tractor veem espaço para ampliar negócios no país, ao mesmo tempo em que acompanham a chegada de drones, aeronaves autônomas e novas tecnologias de propulsão.Para Jim Cable, CEO da Thrush do Brasil, o tamanho da produção agrícola brasileira faz do país um mercado prioritário para a companhia. “O Brasil é o maior produtor agrícola em diversas áreas e, por isso, é um mercado absolutamente importante para praticamente todas as empresas do setor agrícola”, disse à CNN Brasil.Segundo Cable, a estratégia da empresa passa não apenas pela venda de aeronaves, mas também pela ampliação da estrutura de serviços e suporte à frota. A presença da companhia no Brasil é antiga, com operações concentradas principalmente no Centro-Oeste e em regiões ao norte do país, onde estão propriedades agrícolas de maior extensão. Leia Mais Alltech acelera expansão no Brasil e fortalece operação de Crop Science Seara supera R$ 4 bilhões em investimentos na SuperAgro em dez anos EUA e Brasil investem em modernização de aeroportos antecipando demanda “O Brasil está se aproximando de uma frota de 3 mil aeronaves agrícolas. A questão é como estamos investindo no país em termos de serviços e de suporte a essa frota”, diz o executivo. Ele acrescenta que a empresa conta com prestadores de serviços responsáveis por manutenção e outras atividades necessárias para manter as aeronaves em operação.A expansão das propriedades e o aumento da produtividade também têm alterado o perfil da demanda. A avaliação da Thrush é de que os produtores brasileiros estão procurando aeronaves cada vez maiores, movimento que se encaixa na estratégia da fabricante.“À medida que as propriedades aumentam de tamanho e a produtividade cresce, as aeronaves maiores passam a ser mais procuradas”, afirma Cable. Para ele, os modelos da companhia conseguem combinar capacidade operacional com padrões de pulverização que agregam valor ao produtor.A disputa por espaço no campo, porém, não envolve apenas aeronaves convencionais. O avanço dos drones e de outras soluções não tripuladas já faz parte das discussões do setor. A Thrush acompanha essa transformação, mas considera que as características da agricultura brasileira ainda favorecem aviões de maior porte.“A tecnologia está mudando, e vemos essa transformação acontecendo. No entanto, devido à extensão e ao tamanho das propriedades agrícolas brasileiras, a produtividade continua sendo absolutamente prioritária”, destacou Cable.Segundo o executivo, uma aeronave agrícola convencional da empresa pode cobrir entre 350 e 400 hectares por hora, capacidade que, na avaliação da Thrush, ainda não é alcançada por drones e outras aeronaves não tripuladas de menor porte. A fabricante, contudo, afirma que acompanha o desenvolvimento dessas tecnologias para incorporá-las conforme as necessidades dos clientes evoluam.A mesma postura de acompanhar a inovação, mas esperar pela maturação das tecnologias, é adotada pela Air Tractor. Scott Pingsterhaus, vice-presidente de Estratégia e Desenvolvimento Corporativo da empresa, afirma que a fabricante monitora custos, avanços tecnológicos, manutenção e disponibilidade operacional das aeronaves no mercado brasileiro.“As necessidades dos agricultores brasileiros continuam evoluindo, e a Air Tractor trabalha para atender a essas demandas”, afirma à CNN Brasil. Segundo ele, a empresa analisa diferentes caminhos para reduzir custos e melhorar a manutenção e a disponibilidade dos aviões.A Air Tractor também prepara uma nova aeronave para o mercado. A AT-1002 está em processo de certificação e terá capacidade para 1.000 galões. De acordo com Pingsterhaus, o modelo será disponibilizado no Brasil após a conclusão da certificação e sua chegada ao mercado.A Air Tractor continua investindo em aeronaves agrícolas. O executivo destaca ainda o peso do mercado brasileiro para a companhia. “Em termos de participação de mercado, o Brasil representa nosso maior mercado global. Vendemos mais aeronaves para o Brasil do que para qualquer outro país”, destacou.Além dos novos modelos, a fabricante americana acompanha a evolução dos sistemas de propulsão. Entre as alternativas avaliadas estão biocombustíveis, outros combustíveis alternativos e eletrificação. A empresa também mantém trabalhos com a Pratt & Whitney para avaliar a aplicação dessas tecnologias em suas aeronaves.“Queremos esperar até que essas tecnologias estejam totalmente prontas para o mercado e possam ser utilizadas em um ambiente tão exigente e robusto quanto o da aviação agrícola”, afirmou Pingsterhaus.A ideia, segundo ele, é incorporar as soluções ao mercado brasileiro quando estiverem maduras.A discussão sobre o futuro da aviação agrícola, no entanto, vai além da tecnologia embarcada nos aviões. Para Hoana Santos, presidente do Sindag (Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola), drones e aeronaves autônomas devem ser analisados como ferramentas complementares, levando em conta a finalidade de cada operação.“A questão aqui não é saber quem vai tomar o espaço de quem, e sim qual ferramenta é adequada para cada tipo de trabalho”, ressaltou à CNN Brasil. Para ela, a expansão dessas tecnologias também exige profissionais preparados e uma regulamentação capaz de considerar as características de cada equipamento.A avaliação da presidente do Sindag ocorreu durante o Congresso da Aviação Agrícola do Brasil, evento que reúne fabricantes de aeronaves, fornecedores, pilotos, mecânicos, engenheiros agrônomos, técnicos agrícolas e gestores de empresas do setor. Neste ano, o encontro contou com mais de 200 expositores e uma programação que incluiu debates sobre reforma tributária, inteligência artificial, regulamentação e novas tecnologias, além de demonstrações aéreas.Santos afirma que a dimensão da atividade aumenta a responsabilidade do setor. Segundo ela, a aviação agrícola responde pela aplicação em cerca de 100 milhões de hectares por safra, o que exige qualificação e investimentos contínuos em segurança e eficiência.Durante o evento, o Sindag apresentou a chamada Agenda 2037, com discussões sobre como deverá ser o setor na próxima década, incluindo formação profissional, segurança jurídica, representatividade e comunicação com a sociedade.“É um ponto de encontro, mas ao mesmo tempo é um momento entre fornecedores, fabricantes de aeronaves, pesquisadores, professores, engenheiros, empresários, que estão ali para debater e trazer a sua visão, onde a gente se conecta para construir junto uma aviação agrícola cada vez mais segura, cada vez mais sustentável”, concluiu.O congresso também marcou a preparação para os 80 anos da aviação agrícola no Brasil, que serão celebrados em 2027. Com isso, o Sindag realizará uma edição especial do Congresso da Aviação Agrícola do Brasil em Orlândia, no interior de São Paulo, na base da empresa Tangará Aero Agrícola. A proposta, segundo Santos, é unir a celebração das oito décadas da atividade no país à discussão sobre os próximos anos do setor.Como o produtor financia a safra no Brasil?