Astronautas não conseguem sentir cheiro no espaço aberto. O vácuo não oferece moléculas suficientes para transportar um odor até o nariz. Ainda assim, tripulantes da Estação Espacial Internacional (ISS) relatam um fenômeno curioso: depois de caminhadas espaciais, os trajes e equipamentos podem apresentar um odor associado a metal, soldagem, pólvora ou material queimado.O cheiro não é percebido durante a atividade extraveicular. Ele aparece quando o astronauta retorna à estação, onde há ar, e abre o capacete. A NASA reúne relatos de diferentes tripulantes, mas também deixa claro que a origem exata do odor continua desconhecida. Portanto, existe um fenômeno relatado por astronautas, mas não uma molécula específica já identificada como responsável pelo cheiro.O cheiro aparece quando o astronauta retorna à ISS, onde há ar para transportar as moléculas até o nariz. Imagem: Nasa/Johnson Space CenterO que pode acontecer com o traje no espaçoUma das explicações envolve o oxigênio atômico. Na órbita baixa da Terra, a radiação ultravioleta do Sol quebra moléculas de oxigênio, formando átomos individuais altamente reativos. Eles podem interagir com materiais expostos ao ambiente espacial, incluindo superfícies externas de equipamentos.O ex-astronauta da NASA e cientista Tom Jones associou essa química ao odor percebido depois de caminhadas espaciais. Ele levantou a possibilidade de que o oxigênio atômico aderido ao traje participe de reações quando o astronauta retorna ao ambiente pressurizado, favorecendo a formação de ozônio. O ozônio é uma molécula formada por três átomos de oxigênio e possui um odor característico.Essa explicação, porém, é uma hipótese, e não uma identificação química definitiva. Jones descreveu a relação com o ozônio como uma possibilidade para explicar sua experiência. A NASA também apresenta essa interpretação como uma das explicações possíveis, sem afirmar que ela seja a causa comprovada do cheiro.Os próprios relatos mostram que não existe uma descrição única. Greg Chamitoff falou em um cheiro metálico forte. Don Pettit comparou o odor a vapores de soldagem. Outros astronautas fizeram associações diferentes, incluindo pólvora, ozônio e carne tostada. As comparações variam, embora exista um padrão recorrente de cheiro metálico ou relacionado a materiais queimados.Mesmo sem ar para transportar odores, a química do ambiente espacial pode deixar marcas nos trajes. Imagem: NASAHidrocarbonetos são outra possibilidadeOutra hipótese envolve os hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, conhecidos como PAHs. São moléculas formadas por átomos de carbono e hidrogênio. Na Terra, aparecem em processos como combustão e estão associados à fumaça e à fuligem.Leia mais:NASA admite que trajes lunares seriam um perigo para astronautas em Marte“Já sinto falta”, diz astronauta que acabou de voltar do espaçoBrasileiros traçam rota inédita para a Lua que pode tornar a viagem mais barataA NASA cita o astrofísico e químico Louis Allamandola ao discutir a possibilidade de que PAHs contribuam para a impressão olfativa associada ao ambiente espacial. A explicação ajuda a entender por que algumas descrições feitas por astronautas lembram fumaça, fuligem ou materiais queimados.É importante, porém, separar essa hipótese das pesquisas que estudam PAHs no espaço. Um artigo publicado em 2005 no Journal of the American Chemical Society analisou estratégias para detectar essas moléculas no meio interestelar. O trabalho não estudou o odor dos trajes da ISS e não demonstrou que PAHs sejam responsáveis pelo cheiro percebido pelos astronautas.Por isso, não há uma conclusão científica de que o “cheiro do espaço” seja causado por PAHs. Eles aparecem como uma possibilidade discutida por especialistas, assim como o ozônio e reações químicas envolvendo materiais expostos ao ambiente espacial.A própria NASA chegou a trabalhar com a empresa de fragrâncias Omega Ingredients para recriar o odor descrito pelos astronautas durante treinamentos. A intenção era reproduzir a experiência sensorial, não comprovar qual substância específica causava o cheiro.No fim, o chamado cheiro do espaço é uma experiência indireta. O vácuo não chega ao nariz carregando moléculas odoríferas. O que os astronautas cheiram está relacionado ao que retorna com eles para dentro da estação, depois de ficar exposto ao ambiente espacial. É justamente essa diferença que torna o fenômeno tão curioso: o espaço pode não ter um cheiro que possamos sentir diretamente, mas sua química pode deixar uma assinatura perceptível nos objetos que voltam dele.O post O espaço tem cheiro? Astronautas relatam um odor metálico apareceu primeiro em Olhar Digital.