Não é só perda de peso: estudo mostra novo papel da gordura na obesidade

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Desde os anos 1960, quando a lipase hormônio-sensível foi descrita como a principal enzima responsável por mobilizar gordura armazenada nas células adiposas do organismo, acreditava-se que o mau funcionamento da LHS levaria ao acúmulo de gordura corporal.Ou seja, na falta de energia, hormônios como a adrenalina ativariam a proteína para quebrar triglicerídeos e liberar ácidos graxos para outros órgãos. A lógica parecia infalível: tudo indicava que pessoas nascidas sem LHS acumulariam gordura e desenvolveriam obesidade. Leia mais Como prevenir o câncer? Kalil e convidados debatem o tema SUS adota novo exame para detectar câncer de intestino antes dos sintomas Médico de "Quilos Mortais Brasil" sobre canetas emagrecedoras: "Ferramenta" Só que, na prática, isso não acontecia. Estudos conduzidos no início dos anos 2000 em camundongos knockout (com a enzima LHS “desligada”) e pacientes com mutação mostraram que a ausência de LHS não causa obesidade, mas lipodistrofia — uma incapacidade dos adipócitos para armazenar gordura adequadamente.O mais paradoxal, no entanto, é que pacientes com essa condição frequentemente apresentam as mesmas complicações metabólicas da obesidade — resistência à insulina, diabetes tipo 2, esteatose hepática, dislipidemia — porque a gordura que deveria estar no tecido adiposo vai para outros órgãos, como fígado e músculo.Sessenta anos depois da descoberta da enzima, uma equipe de pesquisadores da França, liderada pela professora Dominique Langin, do Institut des Maladies Métaboliques et Cardiovasculaires, decidiu investigar por que a ausência de LHS causa perda, e não ganho, de gordura.Descobrindo a função oculta da LHSHSL em dois locais do adipócito: no citoplasma, quebrando gordura (Pac-Man); no núcleo, regulando a saúde da célula (emoji feliz) • I2MC, 2025/DivulgaçãoPublicado na revista Cell Metabolism em outubro de 2025, o estudo investigou onde a LHS atua dentro das células e fez uma descoberta que muda sua descrição clássica: até então, a proteína era vista apenas como uma enzima que atua no citoplasma, associada às gotículas lipídicas onde promove a quebra de gordura.Mas os experimentos mostraram outra realidade: além de liberar gordura para o corpo, a enzima também migra para o núcleo dos adipócitos. Lá, ela interage com reguladores da expressão gênica — como componentes do RNA polimerase II — que determinam quais genes são ativados, controlando na prática o funcionamento da célula.No núcleo da célula de gordura, a LHS atua como um regulador duplo. De um lado, ela reduz a atividade das mitocôndrias, limitando o gasto de energia pela própria célula. Do outro, ela acelera a formação da matriz extracelular, a estrutura que dá suporte e mantém a saúde do tecido adiposo.Outra descoberta importante do estudo é que essa função nuclear não depende da atividade enzimática clássica da proteína. Mesmo as versões incapazes de quebrar a gordura armazenada continuaram alterando a expressão de genes.Segundo os pesquisadores, para chegar ao núcleo celular, a enzima “pega uma carona” com a molécula SMAD3. Nos modelos de obesidade induzida por dieta — como camundongos em laboratório — esse transporte é exagerado. Com LHS demais no núcleo, o adipócito para de queimar energia e endurece, sofrendo de fibrose.Implicações para o tratamento da obesidadeFuturos tratamentos poderão atuar diretamente na saúde das células de gordura — e não apenas na redução do peso corporal • FreepikPara a medicina, esse achado sugere que o grande problema da obesidade não é apenas o acúmulo de peso. Na verdade, o aumento de LHS no núcleo explica por que o tecido adiposo adoece: ele sofre fibrose, falha mitocondrial e vazamento da gordura para fígado e músculos — alterações associadas à resistência à insulina e ao diabetes tipo 2.Isso explica também um mistério médico antigo: pacientes que nascem com uma mutação genética que os impede de produzir a LHS não se tornam obesos. Pelo contrário, perdem a gordura saudável (lipodistrofia) e acabam desenvolvendo diabetes grave e problemas cardíacos. Ou seja, a LHS não só esvazia o estoque de gordura, mas é fundamental para manter a célula funcionando.Em tempos de Ozempic — que foca na redução do apetite e perda de peso — a descoberta da Universidade de Toulouse sugere que, no futuro, o tratamento da obesidade poderá migrar, da queima de gordura para restaurar a inteligência das células adiposas, desenvolvendo medicamentos que corrijam o trânsito da LHS diretamente no núcleo, independentemente do peso corporal.Segundo os dados mais recentes da Organização Mundial de Saúde (OMS), há cerca de 2,92 bilhões de pessoas afetadas pelo sobrepeso no mundo. Com esse cenário, entender como as células de gordura adoecem, e não apenas como o corpo engorda, pode ser a diferença entre tratar sintomas e atacar a causa.