Regressar ao trabalho depois das férias exige habitualmente um período de adaptação. Recuperam-se rotinas, acumulam-se reuniões e multiplicam-se as tarefas que ficaram pendentes. No entanto, o desconforto associado a esta transição nem sempre se explica apenas pelo fim do descanso.Quando a exaustão, a ansiedade ou a falta de motivação permanecem para além dos primeiros dias, podem revelar um problema mais profundo: um contexto profissional marcado por pressão excessiva, desequilíbrio e poucas oportunidades de recuperação.É neste cenário que surge o conceito de work blues, utilizado para descrever a sensação de cansaço, desmotivação ou ansiedade que pode acompanhar o regresso à rotina profissional. Não se trata de um diagnóstico clínico, mas de um sinal que pode ajudar profissionais e organizações a refletirem sobre as condições de trabalho existentes ao longo do ano. Progressão e salários motivam mudanças profissionaisOs resultados mostram um mercado de trabalho marcado pela mobilidade e por uma maior exigência dos profissionais. No último ano, 44% dos trabalhadores qualificados mudaram de emprego ou realizaram uma alteração relevante na carreira.A progressão profissional foi o motivo mais indicado, referido por 36% dos inquiridos. Seguiram-se a procura de melhores condições salariais, com 29%, a insatisfação com o contexto profissional anterior, com 22%, e a vontade de encontrar projetos mais desafiantes, mencionada por 18%.Os números sugerem que a retenção deixou de depender exclusivamente da remuneração. A ausência de perspetivas de crescimento, o desgaste provocado pelo ambiente de trabalho e a falta de desafios também pesam na decisão de procurar uma nova oportunidade. Quando as férias não chegam para recuperarPara a Hays, o problema não está necessariamente no facto de as férias terminarem, mas no contraste entre um período de descanso e o regresso a um ambiente profissional exigente.«O bem-estar não se constrói apenas durante os períodos de descanso, mas sobretudo no dia a dia. A forma como o trabalho é organizado, a relação com a liderança, a carga de trabalho, a autonomia e a possibilidade de conciliar a vida profissional e pessoal têm um impacto direto na experiência dos colaboradores», afirma Carlos Maia, Regional Director da Hays Portugal.Quando estes elementos não estão equilibrados, acrescenta, alguns dias de férias podem não ser suficientes para compensar o desgaste acumulado. O regresso funciona, assim, como um momento de contraste que torna mais visíveis problemas anteriormente normalizados.A dificuldade de adaptação pode ser passageira. Mas a persistência dos sintomas deve levar o profissional a procurar identificar as suas causas: a carga de trabalho aumentou? Existe autonomia para organizar as tarefas? As expectativas são realistas? Há confiança na liderança? É possível desligar verdadeiramente fora do horário laboral? Equilíbrio e relações de confiança ajudam a reter talentoEntre os profissionais que decidiram permanecer nas organizações, 33% identificam o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional como um dos fatores que contribuíram para essa decisão.Uma boa relação com colegas e chefias é igualmente mencionada por 33%, enquanto 32% destaca o gosto pela função desempenhada. Estes resultados mostram que a experiência profissional é construída através de diferentes dimensões: remuneração, progressão, qualidade das relações, autonomia e possibilidade de conciliar o trabalho com a vida pessoal.Criar um equilíbrio sustentável, promover relações de confiança entre líderes e equipas e estabelecer expectativas realistas pode ajudar a preservar o interesse dos profissionais e a reduzir o desgaste ao longo do tempo. Satisfação com o emprego está a diminuirA preocupação com o bem-estar torna-se mais relevante num contexto marcado por menor confiança no futuro. Apenas 26% dos profissionais se mostra bastante ou muito otimista relativamente ao contexto económico global e às oportunidades de emprego nos próximos anos.Apesar de 63% afirmar estar satisfeito com o emprego atual, este é o resultado mais baixo dos últimos anos. Em 2024, a satisfação situava-se nos 65% e, em 2023, chegava aos 69%.O regresso das férias pode, por isso, funcionar como um barómetro da experiência profissional. Em vez de desvalorizar a desmotivação como uma consequência inevitável do fim do verão, as organizações podem utilizar este período para ouvir as equipas, rever cargas de trabalho e perceber se existem condições para uma recuperação regular.As férias permitem interromper temporariamente o desgaste, mas não corrigem problemas estruturais. Quando o mal-estar regressa juntamente com o primeiro dia de trabalho, a resposta pode não estar em esperar pelo próximo período de descanso, mas em repensar a forma como o trabalho é organizado durante todo o ano.O conteúdo ‘Work blues’ no regresso ao trabalho? Podem ser problemas que as férias são incapazes de resolver aparece primeiro em Revista Líder.