Ninguém fechou a estrada, ninguém ergueu uma fronteira, ninguém anunciou que as famílias portuguesas deixariam de ali passar férias e, no entanto, para uma parte cada vez maior da classe média, o sul do país tornou-se uma espécie de território estrangeiro sem ter mudado de soberania, permanece português no mapa, mas começa a deixar de o ser no orçamento. A distância entre Lisboa e o Algarve continua a medir-se em quilómetros, a verdadeira distância, porém, mede-se agora em euros. Durante décadas, o Algarve não foi propriamente um luxo. Foi um hábito, um ritual, quase uma extensão sazonal da vida familiar portuguesa. Havia quem alugasse um apartamento modesto, quem ficasse numa pensão, quem recorresse à casa de parentes, quem atravessasse o país inteiro num automóvel sobrecarregado de malas, geleiras, pranchas e crianças impacientes. Não era necessário ser rico para ter direito ao verão. E talvez seja precisamente essa banalidade que hoje nos custa compreender, aquilo que era normal tornou-se excecional sem que tivéssemos sequer discutido quando aceitámos a mudança, como se uma tradição de décadas pudesse deslizar silenciosamente da categoria do quotidiano para a do privilégio e nós, demasiado ocupados a adaptar-nos, não tivéssemos reparado que estávamos também a abdicar de qualquer coisa.Dir-se-á que os preços obedecem ao mercado, e é verdade. O problema é que o mercado turístico português deixou há muito de se orientar pelo salário português. Um quarto no Algarve não é hoje valorizado segundo aquilo que uma família de Coimbra, Braga ou Setúbal pode pagar, mas segundo aquilo que alguém vindo de Londres, Frankfurt, Nova Iorque ou Paris está disposto a desembolsar. Nada há de misterioso nisso. O mercado não tem pátria, memória ou nostalgia, tem procura. Não pergunta onde nasceu o cliente, apenas quanto pode pagar. O equívoco começa quando uma sociedade decide que essa lógica, sendo economicamente racional, deve tornar-se moralmente suficiente. Uma nação, ao contrário de um mercado, deveria saber que há coisas cujo valor não cabe inteiramente no preço. Uma casa é também um lugar de pertença, uma cidade é mais do que um ativo imobiliário, uma praia não é apenas uma unidade de exploração turística. Um território pode enriquecer e, simultaneamente, empobrecer a experiência de quem nele vive, pode bater recordes de dormidas, de receitas e de investimento enquanto os seus próprios habitantes descobrem que já não conseguem pagar uma semana no lugar onde passaram a infância. As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo, e talvez seja essa acontradição que mais relutamos em enfrentar, a de um país capaz de se tornar extraordinariamente desejável para quem chega e progressivamente menos acessível para quem sempre aqui esteve.Para mim, o Algarve nunca foi apenas um destino. As minhas raízes paternas estão ali. O meu pai dizia, com um orgulho quase cerimonial: “Eu não sou um algarvio qualquer, sou da freguesia da Praia da Luz.” Não havia vaidade naquela frase. Havia identidade. Para ele, a Praia da Luz não era geografia, era pertença. E foi também ali que eu e os meus irmãos construímos algumas das memórias mais felizes da nossa infância, num tempo em que os dias pareciam não acabar, o relógio pouco importava e a felicidade tinha aquela extraordinária característica de não precisar de saber que era felicidade. Durante muito tempo, imaginei que os meus filhos herdariam essas memórias da mesma forma que se herda uma história familiar, não as mesmas memórias, evidentemente, porque nenhuma infância se repete, mas o mesmo cenário, a mesma possibilidade de regresso, aquele sentimento simples de que existem lugares onde não somos turistas. E é talvez aqui que a economia se torna pessoal, os bisnetos do meu pai, daquele homem que tanto se orgulhava de pertencer à Praia da Luz, poderão vir a conhecer a sua terra como quem conhece um destino de luxo. A herança ficará, mas o acesso talvez não. Há algo de profundamente irónico em transmitir a pertença a um lugar sem conseguir transmitir a possibilidade de nele permanecer, como se a memória pudesse atravessar gerações intacta enquanto o direito material de regressar se vai desfazendo pelo caminho.E então acontece o episódio quase humorístico, se não fosse triste: abrimos o computador e procuramos férias em Espanha, Dubai, Turquia… Comparamos hotéis, fazemos contas e descobrimos que, por vezes, atravessar a fronteira nos permite obter uma relação qualidade-preço mais compatível com um salário português. Não porque Espanha, Dubai ou Turquia tenham descoberto a fórmula secreta do turismo barato, mas porque chegámos a um ponto em que, para muitas famílias, sair do país pode ser financeiramente mais razoável do que passar férias dentro dele. Acabamos, assim, portrocar Camões por Cervantes, Ousha bint Khalifa ou Orhan Pamuk, durante uma semana, não por preferência literária, mas porque a calculadora familiar é pouco sensível ao patriotismo. Também a identidade nacional, ao que parece, tem de caberno orçamento. Talvez seja por isso que a palavra fronteira mereça uma reflexão mais ampla. Falamos de fronteiras quando falamos de imigração, de Ceuta, de soberania, de quem entra e de quem sai, e devemos fazê-lo, mas existem fronteiras que não aparecem nos mapas nem são guardadas por polícias. Há fronteiras feitas de rendas, de preços por metro quadrado, de salários estagnados, de hotéis inacessíveis, de cidades convertidas em produtos de investimento.Não impedem fisicamente ninguém de entrar, limitam-se a tornar impossível ficar. Existe, por isso, uma forma silenciosa de deslocação que raramente ocupa os debates televisivos, acontece quando alguém já não consegue viver no bairro onde nasceu, quando um jovem precisa de emigrar porque o trabalho no seu país não lhe permite construir uma vida, quando uma família deixa de passar férias onde os avós passaram porque o preço deixou de ter qualquer relação com os seus rendimentos. Ninguém atravessa clandestinamente uma fronteira, ninguém foge de uma guerra, e é evidente que não estamos perante fenómenos comparáveis, mas existe uma pergunta legítima sobre pertença: o que significa ser dono político de um país quando se começa a perder o direito económico de o habitar?É curioso, aliás, como alguns discursos sobre identidade nacional se tornam particularmente eloquentes perante o estrangeiro pobre e admiravelmente silenciosos perante o estrangeiro rico. Há inquietação quando chega quem procura trabalho, mas considerável serenidade quando chega capital capaz de tornar a habitação incomportável para quem cá vive, indignamo-nos com certas formas de transformação cultural, mas chamamos inevitabilidade económica à substituição de bairros residenciais por alojamento temporário, de comércio local por consumo turístico, de habitantes por clientes. Não se trata de culpar turistas, estrangeiros ou investidores. Seria intelectualmente preguiçoso.Trata-se de perguntar por que razão só reconhecemos determinadas ameaças à identidade quando nos é conveniente reconhecê-las. O turismo trouxe prosperidade ao Algarve e a Portugal, e negá-lo seria absurdo. Criou emprego, empresas, receitas, infraestruturas, reconhecimento internacional. Portugal deve continuar aberto ao mundo e o Algarve deve continuar a ser desejado por quem nos visita. Mas o sucesso de um território não pode medir-se apenas pela quantidade de estrangeiros que consegue atrair, deve medir-se também pela capacidade de nele continuarem aqueles que já lá estavam. Um país não pode considerar-se plenamente bem-sucedido quando se torna excelente para visitar e demasiado caro para viver. Talvez o erro esteja, no fundo, naquilo que decidimos chamar desenvolvimento. Crescer não pode significar apenas aumentar o valor económico de um território. Se o crescimento encarece a habitação, afasta famílias, expulsa residentes e transforma experiências comuns em privilégios, então talvez devamos perguntar quem está realmente a beneficiar desse crescimento. Uma sociedade não existe para servir a economia, a economia existe para permitir que uma sociedade viva melhor. Parece uma evidência, mas passámos tanto tempo a venerar indicadores que talvez tenhamos esquecido a ordem dos fatores.No fim, a questão nunca foi quanto custa uma semana no Algarve. Essa resposta encontra-se facilmente num site de reservas. A pergunta importante é quanto custa a um país perder a continuidade das suas próprias memórias, quanto custa quando os filhos deixam de conseguir viver aquilo que os pais consideravam normal, quanto custa transformar moradores em espectadores, herdeiros em visitantes, cidadãos em consumidores ocasionais da própria terra. Continuo a ouvir o meu pai dizer: “Eu não sou um algarvio qualquer, sou da freguesia da Praia da Luz.” E talvez essa frase diga hoje mais do que dizia então, porque um homem pode transmitir aos bisnetos o orgulho da terra onde nasceu, contar-lhes o nome das ruas, das praias, dos lugares onde foi feliz, mostrar-lhes fotografias amareladas de verões antigos, pode explicar lhes de onde vieram e por que razão aquele pedaço de costa pertence à história da família, o que talvez já não consiga transmitir-lhes é a possibilidade simples de pertencer àquele lugar da mesma forma. E é aí que começa uma forma particularmente cruel de pobreza, não quando deixamos de ter memórias, mas quando deixamos de poder regressar a elas. Um país não começa a perder-se apenas quando lhe tiram território, começa também a perder-se quando o seu povo continua a ter o direito formal de entrar, mas deixa de possuir as condições materiais para ficar. Talvez seja essa a fronteira de que devêssemos falar mais, não a que aparece nos mapas, nem a que se vigia com polícias e passaportes, mas a fronteira invisível que,pouco a pouco, vai separando os portugueses de Portugal.O conteúdo Quando é que deixámos de conseguir passar férias no nosso próprio país? aparece primeiro em Revista Líder.