A disputa em torno dos data centers virou, de repente, um dos temas centrais das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.Um novo anúncio de campanha no Texas começa com alguém perguntando a um chatbot: “Por que minha conta de luz está aumentando?”. Já em Ohio, outra propaganda culpa um senador republicano pela proliferação dos data centers, classificando-os como “uma fraude total”. Em distritos decisivos para a Câmara dos Representantes em Michigan, Wisconsin e Pensilvânia, candidatos democratas também passaram a exibir anúncios criticando os enormes centros de servidores que sustentam o boom da inteligência artificial.Os data centers se tornaram uma inesperada linha de divisão na disputa mais ampla em torno da revolução da IA, que está remodelando a economia global e ameaçando transformar o mercado de trabalho. Agora, políticos correm para explorar a reação negativa ao setor, ou para se proteger dela. Estrategistas dos dois partidos afirmam que o tema avançou com rapidez incomum e já influencia disputas para a Câmara, o Senado e governos estaduais.“Trata-se de um movimento genuíno, que vem de baixo para cima”, disse Anna Greenberg, veterana pesquisadora de opinião ligada ao Partido Democrata. Segundo ela, embora a percepção sobre os data centers esteja fortemente ligada à proximidade dos moradores com essas instalações, eles também vêm se tornando símbolos dos excessos do Vale do Silício.“Os data centers são uma manifestação física”, afirmou. “Bilionários estão construindo essas instalações, e isso alimenta todo o ceticismo já existente em relação às grandes empresas de tecnologia. Eles simbolizam muitas das preocupações que as pessoas têm com a inteligência artificial.”Há sinais de que o debate está embaralhando as divisões partidárias tradicionais.Leia tambémEUA avaliam nova rodada de tarifas sobre semicondutores, diz reportagemNova proposta tarifária poderia incidir sobre uma gama mais ampla de produtos tecnológicosEUA retomam pressão por agrément e fala em ocupar embaixada ‘o mais rápido possível’Demora na concessão do agrément levou aos EUA revogarem visto de embaixadora do Brasil em WashingtonAté agora, os democratas têm liderado os ataques aos data centers, explorando o descontentamento dos eleitores com o aumento das tarifas de energia, o consumo de água e a desconfiança em relação às empresas de tecnologia. O objetivo é responsabilizar os republicanos por apoiarem projetos do setor.Nas últimas semanas, porém, um número crescente de candidatos republicanos também passou a se distanciar dos data centers. Eles vêm adotando um tom mais crítico, apesar do apoio explícito do presidente Donald Trump à indústria de IA e das preocupações de líderes republicanos de que restrições aos projetos possam desacelerar a economia americana e reduzir a competitividade do país frente à China.Alguns republicanos passaram até mesmo a usar a expressão “data center” de forma pejorativa e tentam se apresentar como os verdadeiros opositores aos incentivos fiscais corporativos e à construção desenfreada dessas instalações. Na semana passada, Mike Rogers, candidato republicano ao Senado no estratégico Estado de Michigan, defendeu uma moratória de um ano na construção de novos data centers.Na quarta-feira, um memorando do Comitê Nacional Republicano para o Senado alertou que a política envolvendo data centers estaria prejudicando a campanha do senador Jon Husted, de Ohio. Seu adversário, o ex-senador democrata Sherrod Brown, já investiu milhões de dólares em anúncios que retratam Husted como “o rosto dos data centers em Ohio”.“Mais do que qualquer outro tema nesta disputa, os data centers são a âncora que está puxando Husted para baixo”, afirma o documento.O memorando, divulgado inicialmente pelo Axios, equivaleu a um apelo para que a indústria financiasse uma campanha publicitária em defesa do setor, sob o risco de uma derrota servir de alerta para políticos de outros Estados.Para Zac McCrary, pesquisador ligado aos democratas, a oposição aos data centers oferece ao partido uma rara oportunidade de avançar em áreas rurais e pequenas cidades resistentes aos empreendimentos.“Isso realmente sacode as coalizões partidárias em regiões onde os republicanos costumam dominar”, disse. “É uma das poucas questões atualmente que não se encaixa automaticamente nas divisões entre direita e esquerda.”A intensidade da reação surpreendeu parte do setor de tecnologia.“Isso é um barril de pólvora”, escreveu na rede X o investidor de venture capital Chamath Palihapitiya, comentando o alerta republicano. Segundo ele, a indústria de IA “fracassou miseravelmente no básico quando se trata de explicar seu valor para a sociedade”.Pesquisadores e estrategistas dos dois partidos afirmam que os eleitores passaram a associar os data centers ao aumento das contas de energia, ao elevado consumo de água, à ocupação de áreas agrícolas e às preocupações mais amplas com a expansão da inteligência artificial e das big techs.“Eles não fizeram um trabalho bom o suficiente para explicar nada disso”, disse Ryan James Girdusky, estrategista republicano e apresentador de podcast.No Texas, o candidato democrata ao Senado James Talarico e a candidata ao governo estadual Gina Hinojosa realizaram recentemente eventos voltados ao tema, acusando seus adversários republicanos de receberem doações do setor enquanto apoiam sua expansão.“Os texanos estão irritados”, afirmou Hinojosa. “É difícil transmitir a sensação de invasão causada por data centers sem regras e sem leis que protejam o Texas. Eles estão surgindo por toda parte.”Foi ela quem lançou a propaganda em que um chatbot é questionado sobre a alta da conta de luz. A resposta atribui a culpa ao governador republicano Greg Abbott e aos data centers.Mesmo antes dessa campanha, Abbott já vinha mudando de postura. Há menos de um ano, comemorava o investimento de US$ 40 bilhões do Google, afirmando que o Texas havia se tornado “o epicentro do desenvolvimento da inteligência artificial”. Neste verão, porém, anunciou novas exigências para o consumo de água e energia pelos data centers, defendeu o fim de alguns incentivos fiscais e determinou auditorias prévias para novos projetos.“O crescimento dos data centers não pode ocorrer às custas do sustento dos texanos”, afirmou Catherine Frazier, porta-voz do governador.Em Michigan, o ativista progressista William Lawrence venceu a prévia democrata para uma disputa à Câmara com uma plataforma fortemente contrária aos data centers e, em seguida, lançou uma propaganda atacando o republicano Tom Barrett pelo tema.Barrett reagiu com um anúncio próprio, no qual afirma ter enfrentado seu próprio partido ao votar contra incentivos fiscais para data centers.Lawrence considera a resposta insuficiente. Defensor de uma moratória, ele afirma que a oposição às instalações é hoje a questão de maior intensidade política em seu distrito.“Isso está unindo eleitores que votaram três vezes em Trump, antivacina, ambientalistas, independentes, pessoas que nunca votam, moradores das cidades e das áreas rurais”, afirmou. “Todos estão se aproximando porque nenhum de nós confia que as big techs farão o que é melhor para nossas comunidades.”c.2026 The New York Times CompanyThe post Eleições nos EUA ganham novo campo de batalha: os data centers appeared first on InfoMoney.