Os Jogos Mundiais de Robôs Humanoides começaram na China no sábado (22) e vão até quarta-feira (26). São as Olimpíadas do setor, no qual o país asiático investe pesado há uma década.As empresas de robótica e tecnologia aproveitam o evento para exibir seus produtos. E elas têm dois desafios grandes para superar na edição de 2026. Um deles é mostrar que seus robôs conseguem fazer gestos finos com precisão. O outro é provar que eles podem ser úteis e produtivos no mundo real.Como ‘Olimpíadas dos Robôs’ foram de ‘feira de ciências’ para vitrines estratégicas na ChinaAo longo dos últimos dez anos, a China transformou competições de robôs em vitrines estratégicas para empresas. Entre 2014 e 2015, o presidente do país asiático, Xi Jinping, declarou a robótica como a “joia da coroa” da manufatura chinesa.De lá para cá, o foco desses eventos de robótica migrou de demonstrações acadêmicas para tarefas práticas executáveis em ambientes de trabalho. Isso reflete a pressão no setor para as empresas mostrarem que seus protótipos podem gerar produtividade real e confiável.O Olhar Digital conversou sobre os Jogos Mundiais de Robôs Humanoides e o desenvolvimento da robótica na China na última década com Anderson Moreira, professor do curso de Engenharia de Controle e Automação e coordenador da equipe de robótica do Instituto Mauá de Tecnologia. Motivadas pelo sucesso da Unitree, marcas chinesas de robôs avaliam abrir capital em breve – Imagem: QQMinh88/ShutterstockOlhar Digital: Na última década, a China transformou competições de robótica, antes restritas a eventos acadêmicos, em vitrines comerciais amparadas por subsídios estatais e cobertura midiática. Como isso acelera o desenvolvimento do setor e impacta na competitividade da robótica humanoide mundo afora?Anderson: Essas competições deixaram de funcionar apenas como demonstrações tecnológicas e passaram a atuar como grandes laboratórios públicos de engenharia. Quando colocamos dezenas de fabricantes executando as mesmas tarefas, sob condições comparáveis, aparecem rapidamente os limites de cada solução: autonomia, consumo de energia, aquecimento, estabilidade, precisão, capacidade de manipulação e recuperação diante de falhas. O resultado é um ciclo muito rápido entre testar, identificar problemas, redesenhar componentes e testar novamente. Nos Jogos Mundiais de Robôs Humanoides de 2026, por exemplo, além das provas esportivas há desafios de montagem industrial, movimentação de materiais, conexão de cabos, recarga de veículos elétricos e manipulação fina, e mais de 40% das provas exigem operação totalmente autônoma.Mas talvez a maior vantagem chinesa esteja em conectar essas competições a um ecossistema industrial extremamente amplo. Em 2024, a China instalou aproximadamente 295 mil robôs industriais, 54% de todas as novas instalações realizadas no mundo. Além disso, pela primeira vez, fabricantes chineses responderam pela maioria das vendas de robôs industriais dentro do próprio país. Essa escala cria fornecedores de motores, redutores, sensores, baterias, controladores e sistemas de potência que também podem atender aos fabricantes de humanoides.Uma competição demonstra capacidade tecnológica, não maturidade industrial.Anderson Moreira, professor do curso de Engenharia de Controle e Automação e coordenador da equipe de robótica do Instituto Mauá de Tecnologia, em entrevista ao Olhar Digital.Há também uma política industrial explícita. O Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação da China estabeleceu como objetivo colocar humanoides em produção em escala e desenvolver um ecossistema internacionalmente competitivo até 2027. Em 2025, a Reuters identificou mais de US$ 20 bilhões destinados ao setor por diferentes programas governamentais, além de fundos regionais, incentivos e compras públicas. A mesma apuração apontou que a cadeia chinesa já tinha capacidade de fornecer até cerca de 90% dos componentes necessários a um humanoide e que, somente em 2024, 31 empresas chinesas apresentaram 36 modelos diferentes.Isso pressiona diretamente a competitividade mundial porque reduz simultaneamente três coisas: tempo de desenvolvimento, custo dos componentes e distância entre protótipo e produção. Estados Unidos, Europa, Japão e Coreia podem continuar liderando determinadas tecnologias, mas passam a competir com um ecossistema chinês capaz de experimentar muitas arquiteturas em paralelo e industrializar rapidamente aquelas que funcionam melhor.Até 2014, robôs eram atrações de “feiras de ciências” na China; hoje, atraem muitos holofotes – Imagem: Olhar Digital via ChatGPTÉ importante, porém, fazer uma ressalva: uma competição demonstra capacidade tecnológica, não maturidade industrial. Um robô completar uma prova uma vez é muito diferente de executar a mesma tarefa milhares de vezes, durante meses, com segurança, baixo índice de falhas e custo menor que a alternativa humana ou uma automação convencional. A verdadeira disputa da próxima fase da robótica humanoide será justamente essa: transformar desempenho de demonstração em produtividade confiável.Olhar Digital: Embora os robôs já apresentem grande avanço em mobilidade em testes de corrida, a engenharia de mãos robóticas para gestos finos e precisão é um dos maiores desafios da indústria, senão o maior. Quais são as principais barreiras técnicas para fazer essas máquinas saírem dos palcos de demonstração para atuarem com eficiência em fábricas ou residências?Anderson: A mão é realmente um dos sistemas mais difíceis de reproduzir em um humanoide porque reúne, em um espaço muito pequeno, mecânica, atuação, sensoriamento e controle extremamente sofisticados. Dependendo do modelo biomecânico utilizado, a mão humana possui aproximadamente 20 ou mais graus de liberdade, e muitos deles precisam trabalhar simultaneamente. Em mãos robóticas avançadas isso significa acomodar vários motores, transmissões ou tendões, sensores e eletrônica em dimensões próximas às de uma mão humana, mantendo ao mesmo tempo força, velocidade, precisão, baixo peso e resistência mecânica. Pesquisas recentes (por exemplo: esta e esta) mostram justamente esse compromisso: aumentar o número de articulações e atuadores aumenta a destreza, mas também aumenta muito a complexidade mecânica e de controle.O segundo grande problema é o tato. Para pegar uma garrafa, conectar um cabo ou manipular um objeto frágil, enxergar não é suficiente. O robô precisa perceber onde houve contato, em que direção a força está sendo aplicada e se o objeto começou a escorregar. Nós fazemos essas correções praticamente sem perceber. Nos robôs, isso exige sensores táteis distribuídos pela mão e algoritmos capazes de transformar uma enorme quantidade de informação em comandos para os dedos em tempo real. Um trabalho publicado na Nature Machine Intelligence, por exemplo, conseguiu cobrir 70% da superfície palmar de uma mão experimental com sensoriamento de alta resolução e mostrou melhora significativa de robustez quando o controle utilizava informação tátil. O fato de isso ainda ser destaque científico mostra como estamos longe de ter essa capacidade de forma barata, robusta e industrializada.Robôs humanoides vão obedecer comandos de voz e texto em linguagem natural, segundo CEO – Imagem: FabrikaSimf/ShutterstockHá ainda um terceiro desafio, que é o controle do contato. Caminhar envolve uma dinâmica difícil, mas relativamente repetitiva. A mão encontra situações quase infinitas: um objeto pode ser rígido ou deformável, seco ou escorregadio, estar alguns milímetros fora da posição prevista ou mudar de orientação durante a manipulação. Apertar demais pode quebrar o objeto; apertar de menos pode deixá-lo escapar. Isso exige integrar visão, tato, posição dos dedos e controle de força continuamente. Trabalhos recentes em mãos antropomórficas mostram que sistemas baseados apenas em visão têm dificuldade justamente nas tarefas com contato intenso, porque não conseguem regular adequadamente essas forças.O quarto gargalo está na própria inteligência do robô. Modelos de IA podem aprender uma tarefa específica com milhares de exemplos, mas ainda é difícil garantir que a habilidade funcione quando muda o objeto, a iluminação, o atrito ou a posição. Diferentemente dos grandes modelos de linguagem (LLMs, na sigla em inglês), que podem ser treinados com enormes volumes de textos e imagens disponíveis na internet, os dados necessários para treinar robôs precisam ser produzidos por interações físicas. É preciso alguém ou algum sistema executar, registrar e repetir tarefas reais. Por isso a China, inclusive, criou centros específicos de coleta de dados nos quais centenas de operadores treinam robôs durante muitas horas por dia.Uma casa é, do ponto de vista da robótica, muito mais imprevisível do que uma fábrica.Anderson Moreira, professor do curso de Engenharia de Controle e Automação e coordenador da equipe de robótica do Instituto Mauá de Tecnologia, em entrevista ao Olhar Digital.E finalmente existem os requisitos menos espetaculares, mas decisivos comercialmente: durabilidade, autonomia energética, manutenção, segurança e custo. Em uma fábrica não basta o robô conectar um cabo em uma demonstração; ele precisa repetir isso durante um turno inteiro, reconhecer quando alguma coisa saiu errado e recuperar-se sozinho. Para trabalhar próximo de pessoas entram ainda requisitos rigorosos de segurança e certificação. A norma internacional ISO 10218, por exemplo, teve sua revisão publicada em 2025 justamente tratando dos requisitos de segurança de robôs industriais e de sua integração em sistemas produtivos.Por isso acredito que veremos a adoção crescer primeiro em tarefas industriais relativamente estruturadas – movimentação de materiais, abastecimento de linhas, logística e inspeção – e só depois avançar para manipulações muito finas e ambientes domésticos. Uma casa é, do ponto de vista da robótica, muito mais imprevisível do que uma fábrica. O salto que ainda falta não é simplesmente fazer um robô realizar uma tarefa difícil; é fazê-lo realizar milhares de tarefas diferentes, com objetos diferentes, repetidamente, de maneira segura e confiável.O post A estratégia da China por trás das ‘Olimpíadas dos Robôs’ apareceu primeiro em Olhar Digital.