Os juros elevados estão dificultando a renovação das frotas de ônibus no Brasil e em outros mercados onde a Marcopolo (POMO4) atua, mesmo com os operadores ainda interessados em comprar veículos novos. O problema, segundo André Armaganijan, CEO da companhia, é que muitos clientes já consumiram seus limites de crédito em ciclos anteriores de renovação e agora têm pouco espaço financeiro para novos investimentos.“A gente enxerga que o mercado quer renovar, porque a frota, no Brasil e em vários mercados do mundo, a idade média envelheceu. Existe o interesse pela renovação. Só que, muitas vezes, você não tem espaço no contexto financeiro para fazê-la”, afirmou o executivo em entrevista ao Money Minds, programa do Money Times no YouTube.Assista abaixo à entrevista na íntegra:A situação é particularmente relevante porque a idade média das frotas de ônibus aumentou. Segundo Armaganijan, alguns anos atrás a média estava em torno de oito anos; hoje, chega a aproximadamente 11 anos, dependendo do segmento. Com veículos mais antigos, aumenta também a necessidade de manutenção e, consequentemente, o custo de operação para as empresas de transporte.Entraves para os operadoresO movimento observado pela Marcopolo foi semelhante em diferentes países. No primeiro momento do ciclo, os operadores aproveitaram a necessidade de renovação e contrataram financiamento para comprar novos ônibus. Depois, com a permanência dos juros elevados, o crédito disponível foi sendo consumido.A Argentina é um exemplo citado pelo CEO. O país teve um ciclo importante de renovação de ônibus rodoviários, especialmente de veículos de dois pisos, e a operação da Marcopolo apresentou desempenho relevante em 2025. Agora, porém, os clientes que fizeram aquelas compras estão com seus limites de crédito comprometidos.No Brasil, o mecanismo é semelhante. Para empresas que compram dezenas ou até centenas de ônibus de uma vez, a taxa de financiamento tem impacto significativo na decisão de compra.“Hoje, o ônibus tem um valor extremamente expressivo. Nós temos muitos clientes que compram dez, 20, 50, 100 ônibus… Então, ele tem um impacto muito grande”, disse Armaganijan.Uma eventual queda da Selic ajudaria a destravar esse mercado, mas o executivo evita estimar qual seria o impacto de uma redução específica dos juros sobre as vendas.Potenciais soluçõesA própria Marcopolo também passou a procurar soluções financeiras para seus clientes. A companhia criou um banco próprio e vem trabalhando em parceria com instituições financeiras para ampliar as alternativas de financiamento aos operadores. A ideia é atacar um dos principais gargalos do momento: o ônibus tem um valor elevado e muitos operadores precisam comprar vários veículos de uma só vez, o que torna o custo do crédito determinante para a decisão de renovar a frota.O programa Move também entra nessa estratégia. Na avaliação de Armaganijan, a iniciativa funciona como uma “ponte” em um momento em que os operadores já consumiram boa parte de seus limites de crédito. O programa oferece financiamento com taxa subsidiada e, embora não seja suficiente para promover uma renovação completa das frotas, deve gerar algum impacto positivo nas vendas da Marcopolo no terceiro trimestre.O programa federal de R$ 21 bilhões foi dividido entre diferentes categorias de veículos, com uma parcela destinada aos ônibus. Na avaliação do executivo, o programa não é suficiente para promover uma renovação completa das frotas, mas ajuda a reduzir o custo financeiro em um momento de juros elevados.Armaganijan descreve o Move como uma “ponte” para tornar o financiamento mais competitivo e permitir que operadores que desejam renovar consigam voltar ao mercado.Reduzir o custo do operadorA estratégia da companhia não se limita ao financiamento. Com os operadores pressionados pelo custo de capital, a Marcopolo também está tentando tornar os próprios ônibus mais baratos de operar, segundo o executivo.Isso envolve facilitar a manutenção, reduzir o tempo em que os veículos ficam parados e usar tecnologia para identificar preventivamente problemas que poderiam interromper a operação.A lógica é que, diante de um ônibus mais caro e de crédito mais restrito, o operador precisa conseguir recuperar o investimento por meio de menor custo operacional.No segmento urbano, a pressão é ainda maior. Além dos juros, os operadores enfrentam aumento do diesel e de outros custos, e a Marcopolo avalia que, em algumas regiões, “a conta não fecha”.Novas regras para o setorPara Armaganijan, a implementação do novo marco legal do transporte público também pode ajudar. O novo marco legal busca criar regras mais claras para o funcionamento e o financiamento do transporte público coletivo no país. A Lei 15.432, de 2026, foi sancionada pelo presidente em junho e deve entrar em vigor em um ano, com novas regras para o financiamento, a contratação e a gestão do transporte público coletivo urbano.Na visão da Marcopolo, uma regulamentação que dê maior previsibilidade às receitas dos operadores pode ajudar a destravar investimentos e a renovação das frotas, hoje pressionadas pelo crédito caro e pelo aumento dos custos de operação.