O problema surge quando deixam de ser exceção e passam a fazer parte da rotina. A exposição prolongada ao stress profissional, sem tempo suficiente para descanso e recuperação, pode ter consequências na saúde física e psicológica.Para Cátia Silva, psicóloga especializada em depressão, ansiedade, burnout, luto e PHDA, não está em causa responder ocasionalmente a uma mensagem fora do horário ou prolongar um dia de trabalho perante uma situação excecional. A questão está na frequência e, sobretudo, na expectativa de disponibilidade permanente.«Vestir a camisola não pode significar abdicar sistematicamente da hora de almoço, responder a mensagens às 22h, trabalhar durante as férias ou sentir que sair a horas demonstra falta de compromisso», explica. Quando esta disponibilidade se prolonga, acrescenta, o trabalhador tem cada vez menos oportunidades para recuperar do stress associado ao trabalho.Os primeiros sinais podem ser discretos: maior cansaço, dificuldade em desligar do trabalho, alterações no sono ou irritabilidade. Com o tempo, podem surgir dificuldades de concentração, ansiedade, perda de motivação, exaustão física e emocional e um maior distanciamento em relação à atividade profissional.Quando o stress deixa de ser pontualÉ neste ponto que a prevenção ganha importância. A Organização Mundial da Saúde reconhece o burnout como um fenómeno relacionado com o contexto profissional e associado ao stress crónico no trabalho que não foi gerido com sucesso.O burnout não aparece, por isso, de um dia para o outro. Antes de chegar à exaustão, podem existir sinais de alerta que devem ser reconhecidos pelo próprio trabalhador, mas também pela organização.«Não faz sentido uma empresa promover ações sobre saúde mental e, ao mesmo tempo, esperar respostas fora do horário de trabalho. Não faz sentido falar sobre prevenção do burnout quando almoçar em frente ao computador é visto como dedicação», afirma Cátia Silva.A contradição pode estender-se ao discurso sobre equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Se uma empresa defende esse equilíbrio, mas um trabalhador sente necessidade de justificar constantemente porque sai a horas, a mensagem transmitida é outra.A responsabilidade pela prevenção não pode, assim, ser colocada exclusivamente sobre quem trabalha. Pedir ao trabalhador que estabeleça limites é importante, mas esses limites tornam-se difíceis de manter quando a própria cultura organizacional recompensa a disponibilidade permanente.O papel das empresasDo lado do trabalhador, algumas medidas podem ajudar: proteger os períodos de pausa, estabelecer limites aos contactos fora do horário, respeitar os períodos de descanso e férias e reconhecer os primeiros sinais de exaustão.Mas a prevenção exige também mudanças na organização do trabalho. Definir expectativas claras sobre disponibilidade, respeitar horários, evitar a normalização do trabalho durante as pausas e criar condições reais para a recuperação são medidas que dependem das empresas.A saúde mental no trabalho não se protege apenas através de sessões, campanhas ou iniciativas pontuais. Também se constrói na forma como se distribui o trabalho, como se lideram as equipas e, sobretudo, naquilo que uma organização considera ser um comportamento profissional aceitável.Porque quando a dedicação passa a exigir disponibilidade permanente, o problema está essencialmente também na cultura que o ensinou a sentir que precisa de dizer «sim».O conteúdo Não basta falar de saúde mental quando a cultura continua a premiar a exaustão aparece primeiro em Revista Líder.