A Squadra está tentando virar a página após o que classificou como o “maior erro de investimento” de sua história, com Hapvida (HAPV3). Depois de reduzir drasticamente a posição na operadora de saúde, a gestora de R$ 16 bilhões passou a enxergar oportunidades em ações que sofreram fortes quedas e estão cercadas por dúvidas — entre elas, Nubank (ROXO34) e Mercado Livre (MELI34).O Nubank, inclusive, protagonizou uma virada inédita na história da casa: uma posição short se transformou em uma aposta comprada.A Squadra já admirava o banco digital quando decidiu apostar na queda das ações após o IPO, no fim de 2021. O problema não era a qualidade do negócio, mas o preço elevado e as projeções consideradas “excessivamente otimistas”. Agora, com a fintech mais madura, rentável e negociando a uma avaliação considerada atraente, a Squadra mudou de lado.“Em bull markets, o mercado paga um prêmio pelo sonho; em bear markets, exige desconto sobre o negócio atual ao ficar obsessivo diante de riscos que já assume como reais e causadores de danos estruturais. Desenvolvimentos positivos e opcionalidades ficam escondidos atrás da sombra das preocupações”, escreve a gestora na carta.Ao lado de Meli e Nubank, as outras principais apostas da casa são Equatorial (EQTL3) e Energisa (ENGI11).A reformulação da carteira acontece após um período de desempenho abaixo do esperado. No primeiro semestre de 2026, os fundos Long-Biased e Long-Only da Squadra recuaram 5,1% e 6,2%, respectivamente, enquanto o Ibovespa avançou 6,8%.A própria gestora afirma atravessar um “vale de performance”, agravado pelo investimento em Hapvida (HAPV3), classificado como o maior erro de sua história.Com a deterioração dos resultados e a forte queda das ações da operadora de saúde, a posição foi reduzida a apenas 1% dos fundos. Embora ainda enxergue potencial de valorização em uma eventual venda de ativos e simplificação do grupo, a Squadra admite que o endividamento elevado e a piora operacional tornam a travessia difícil.Nubank: de short a uma das principais apostasA desconfiança do mercado com o Nubank está concentrada, principalmente, nos efeitos da deterioração do ciclo de crédito. Segundo a Squadra, esse temor levou as ações a registrarem uma queda expressiva no primeiro semestre e a negociarem perto de dez vezes o lucro da operação brasileira, múltiplo considerado descontado.As incertezas relacionadas à inteligência artificial também pesaram sobre os papéis. A fintech chegou a ser associada a índices e grupos de empresas classificadas como “perdedoras ou potenciais perdedoras de IA”.A gestora reconhece que a dimensão das mudanças tecnológicas pode levar os investidores a encurtarem o horizonte e exigirem múltiplos menores. No entanto, avalia que o mercado está dando mais atenção aos riscos do que aos benefícios que a tecnologia já começa a trazer justamente para uma das áreas que mais despertam preocupação: a concessão de crédito.Segundo a Squadra, a sofisticação dos modelos do Nubank tem permitido ampliar a carteira sem uma deterioração equivalente na qualidade dos ativos. Mesmo diante do aumento da inadimplência, a fintech segue apresentando desempenho superior à média do mercado.A inteligência artificial também pode ajudar o banco a avançar sobre clientes de renda média e alta, público tradicionalmente atendido por instituições com estruturas mais caras e maior contato humano.Um dos projetos nessa frente é o chamado “AI Private Banker”, uma espécie de gerente virtual capaz de oferecer atendimento e recomendações mais personalizados.A aposta também passa pela expansão internacional. Para a Squadra, o desempenho no México representa uma primeira demonstração de que o modelo do banco digital consegue ser exportado. Depois de dificuldades e adaptações nos primeiros anos, a companhia construiu uma franquia relevante de depósitos e passou a ampliar a carteira de crédito com uma relação considerada atrativa entre risco e retorno.Já a entrada nos Estados Unidos, recebida com ceticismo por parte do mercado, é vista como uma opção de crescimento que praticamente não está embutida no preço da ação.O Nubank deve começar pelo cartão de crédito voltado ao público de massa e, posteriormente, tentar repetir a trajetória brasileira, acrescentando depósitos e outros produtos até se tornar o principal banco de seus clientes.Mercado Livre: o risco que pode esconder uma oportunidadeNo caso do Mercado Livre, a principal preocupação do mercado está na queda da rentabilidade. Em junho de 2025, a companhia reduziu de R$ 79 para R$ 19 o valor mínimo das compras elegíveis ao frete grátis no Brasil e ampliou os investimentos em outras iniciativas.Segundo os cálculos da Squadra, essas decisões levaram o resultado operacional do e-commerce brasileiro para o campo negativo e provocaram revisões nas projeções de lucro.Mas a gestora interpreta a mudança no frete como uma estratégia ofensiva contra a Shopee no mercado de produtos baratos. Antes da medida, a plataforma asiática adicionava aproximadamente o dobro do volume de vendas (GMV) do Mercado Livre nos itens abaixo de R$ 80.Desde então, o Meli inverteu essa dinâmica e passou a crescer perto de 60% nessa categoria. No conjunto da operação brasileira, o avanço das vendas acelerou para 39% no segundo trimestre de 2026.A Squadra também destaca que o ganho de escala vem reduzindo os custos. Entre o primeiro trimestre de 2025, período anterior à nova política de frete, e o mesmo trimestre deste ano, o custo por pedido caiu 17% no Brasil. Essa redução pode tornar rentáveis produtos de baixo valor que anteriormente não apresentavam viabilidade econômica.A expectativa é que a companhia repita, em alguma medida, o movimento iniciado em 2017, quando ampliou o frete grátis para responder ao avanço da Amazon na América Latina. Na ocasião, os lucros desapareceram inicialmente, mas voltaram à medida que as vendas cresceram e a operação ganhou escala.Outra fonte de desconfiança é o avanço do chamado comércio agêntico. Em um cenário mais pessimista, os consumidores poderiam delegar suas compras a assistentes de inteligência artificial, reduzindo os acessos diretos ao Mercado Livre e o espaço para anúncios dentro da plataforma.A Squadra chegou a ouvir no mercado a previsão de que a receita de publicidade do Meli poderia “ir a zero”. Embora considere o risco legítimo, a gestora avalia que o mercado está ignorando a possibilidade de a inteligência artificial fortalecer os marketplaces dominantes.Preços baixos, entregas rápidas e variedade de produtos continuariam importantes mesmo em compras realizadas por agentes virtuais — e dependem de vantagens difíceis de replicar, como escala logística, efeitos de rede e dados proprietários de transações.Os primeiros efeitos da tecnologia também são considerados positivos. O Mercado Livre reconstruiu seu sistema de buscas com modelos de linguagem, enquanto a receita de publicidade cresce mais de 60%, impulsionada por ferramentas de inteligência artificial aplicadas à configuração, segmentação e mensuração das campanhas.Além disso, a Squadra enxerga valor crescente nos serviços financeiros do Mercado Livre, especialmente na Argentina e no México, onde a posição competitiva é considerada mais forte e o mercado de crédito permanece pouco explorado.No último ano, a companhia direcionou cerca de cinco pontos percentuais de margem operacional para acelerar o crescimento e ampliar suas vantagens competitivas.Ajustando esses investimentos que passam diretamente pelo resultado, a Squadra calcula que as ações negociam a aproximadamente 18 vezes seu potencial de lucro — avaliação considerada atraente diante do crescimento da receita acima de 40%, dos ganhos de escala e das oportunidades de expansão.O novo mapa de apostas da SquadraAlém de Mercado Livre e Nubank, Equatorial e Energisa completam o grupo das principais posições compradas da Squadra. A gestora alcançou a maior exposição de sua história ao segmento de distribuição de energia, atraída pelo descompasso entre a evolução dos negócios e o desempenho das ações.Na avaliação da casa, as duas companhias combinam vantagens competitivas duradouras, gestão eficiente e capacidade de reinvestir recursos por muitos anos com retornos superiores ao custo de capital. As concessões também garantem fluxos de caixa relativamente previsíveis e menos dependentes do ciclo econômico.Os juros elevados, porém, aumentaram as taxas de desconto aplicadas aos ativos e comprimiram os múltiplos das empresas. Assim, enquanto Equatorial e Energisa continuaram elevando os resultados e o valor intrínseco, as ações não acompanharam esse movimento.Para a Squadra, esse descolamento criou uma das assimetrias mais favoráveis da carteira. A gestora detalha especialmente a tese de Energisa, cujas distribuidoras combinam eficiência operacional com exposição a regiões beneficiadas pelo avanço da fronteira agrícola.Desde 2016, o volume de energia distribuído pela companhia cresceu aproximadamente o dobro do registrado no restante do país.A Squadra estima que as ações da Energisa ofereçam retorno implícito real próximo de 16% ao ano e potencial de valorização superior a 50%. Caso os juros brasileiros recuem para níveis mais sustentáveis, o valor justo calculado pela gestora poderia se aproximar do dobro da cotação atual.