Estados Unidos e Canadá começam a semana diante de uma nova fase de uma disputa comercial que envolve uma das maiores relações econômicas bilaterais do mundo. Depois do fracasso das negociações em Washington, entraram em vigor as novas tarifas americanas de 50% sobre aproximadamente US$ 20 bilhões em produtos canadenses. E o próximo movimento já tem data marcada: em 8 de setembro, o governo do primeiro-ministro canadense Mark Carney promete responder com tarifas sobre produtos americanos em valor equivalente.Carney definiu a resposta como uma retaliação “dólar por dólar”. Mas, para entender o tamanho dessa disputa, é preciso olhar para os números de toda a relação comercial entre os dois países.Segundo dados oficiais do governo americano, em 2025 Estados Unidos e Canadá movimentaram aproximadamente US$ 715,5 bilhões somente no comércio de mercadorias. Os Estados Unidos exportaram US$ 333,6 bilhões em produtos para o Canadá e importaram US$ 381,9 bilhões em mercadorias canadenses. Isso deixou os americanos com um déficit comercial em bens de US$ 48,3 bilhões com o Canadá.Quando entram na conta os serviços, são outros US$ 156,8 bilhões em transações. Nesse segmento, a situação se inverte: os Estados Unidos exportaram US$ 92,3 bilhões em serviços para o Canadá e importaram US$ 64,5 bilhões, deixando os americanos com um superávit de US$ 27,7 bilhões. Somados bens e serviços, os dois países movimentaram mais de US$ 872 bilhões em 2025.Os números também mostram como a guerra tarifária já começou a modificar uma relação construída durante décadas. Segundo a agência oficial de estatísticas do Canadá, em 2024 os Estados Unidos recebiam 75,9% de todas as exportações canadenses de mercadorias. Em 2025, essa participação caiu para 71,7%.As importações também mudaram. A parcela das compras canadenses de mercadorias provenientes dos Estados Unidos caiu de 62,3% para 58,8% no mesmo período. As exportações canadenses para os Estados Unidos recuaram 5,8% em 2025, enquanto as importações vindas do mercado americano caíram 2,9%.O superávit canadense no comércio de mercadorias com os Estados Unidos também diminuiu, passando de 101,3 bilhões de dólares canadenses em 2024 para 81,6 bilhões em 2025. Agora, uma parcela adicional desse gigantesco fluxo comercial entra diretamente na linha de fogo.As novas tarifas americanas de 50% atingem aproximadamente US$ 20 bilhões em exportações canadenses, incluindo produtos de setores como laticínios, aço, eletrônicos e vestuário. Ottawa promete atingir aproximadamente o mesmo valor em produtos americanos a partir de 8 de setembro.O governo canadense já indicou que a retaliação alcançará setores como aço, laticínios, eletrodomésticos, equipamentos agrícolas, papel e celulose e eletrônicos. A lista definitiva dos produtos que serão atingidos é agora uma das decisões mais aguardadas.Mas existe outro número importante para entender o que poderia ter acontecido. Antes do colapso das negociações, americanos e canadenses discutiam uma redução significativa das tarifas que já atingem setores estratégicos das duas economias.No setor automobilístico, Washington discutia reduzir de 25% para 15% a tarifa sobre veículos fabricados no Canadá, enquanto Ottawa queria chegar a 10%. Para aço e alumínio, a proposta negociada previa reduzir a tarifa americana de 50% para 25%, com uma cota anual de aproximadamente 4 milhões de toneladas métricas. Acima desse limite, permaneceria a tarifa de 50%.Esse acordo não aconteceu. Em vez da redução das tarifas, os dois países caminham agora para uma nova rodada de retaliação. E, por enquanto, não existe uma nova reunião formal anunciada para retomar as negociações.Donald Trump respondeu ao anúncio canadense nas redes sociais com um “NO MORE!!!” — “BASTA!!!”. Carney, por sua vez, afirma que o Canadá não aceitará um acordo que comprometa os interesses econômicos e a soberania do país.Nos bastidores, porém, a pressão aumenta. Empresas americanas e canadenses enfrentam um problema particular: décadas de livre comércio fizeram com que as cadeias produtivas dos dois países se tornassem profundamente integradas.Isso é especialmente evidente na indústria automobilística. Peças e componentes podem atravessar a fronteira entre Estados Unidos e Canadá várias vezes antes de um veículo chegar ao consumidor. Por isso, tarifas maiores podem significar aumento de custos não apenas para empresas canadenses, mas também para fabricantes e consumidores americanos.Existe ainda uma negociação maior pela frente: o futuro do USMCA, acordo comercial que reúne Estados Unidos, Canadá e México. O tratado continua em vigor, mas os três países estão entrando em um processo decisivo de revisão. A atual disputa pode acabar influenciando diretamente as novas regras comerciais da América do Norte.Três números ajudam a resumir o tamanho do que está em jogo: mais de US$ 872 bilhões em comércio anual de bens e serviços, US$ 20 bilhões em exportações canadenses atingidas pela nova tarifa americana de 50% e, a partir de 8 de setembro, uma retaliação canadense prometida no mesmo valor.A grande questão agora é saber se essas duas semanas serão usadas para reabrir algum canal de negociação ou se 8 de setembro marcará o início de uma nova rodada da guerra comercial entre os dois maiores parceiros da América do Norte.Antes de tudo desandar, o cenário poderia ser bastante diferente. O acordo em discussão poderia reduzir de 25% para 15% as tarifas americanas sobre automóveis canadenses e de 50% para 25% as tarifas sobre aço e alumínio, dentro da cota negociada. Com o fracasso das conversas, não apenas essas reduções ficaram pelo caminho como uma nova tarifa de 50% entrou em vigor e o Canadá prepara sua própria resposta. É essa diferença entre o que estava sendo negociado e o que efetivamente passou a valer que mostra o tamanho da deterioração das relações comerciais entre Washington e Ottawa.