Eu estava em um restaurante japonês tradicional, jantando com outro executivo de tecnologia, quando a conversa chegou naquele assunto que, de vez em quando, aparece para quem já tem alguns bons anos de estrada: até quando vamos continuar fazendo isso?Nossas carreiras foram diferentes, mas, de uma forma ou de outra, passamos por muita coisa parecida. Quem tem alguns bons anos de tecnologia sabe do que estou falando.A conversa foi passando por carreira, aposentadoria, o que ainda queremos fazer e o que definitivamente não queremos mais fazer.Até que surgiu a frase:“Tá difícil de morrer” – no sentido de “tá difícil parar”.Eu ri.Mas a frase ficou comigo.Às vezes acho que todo profissional de tecnologia precisa ser um pouco budista. Não necessariamente para alcançar a iluminação, mas para aprender a conviver com o sofrimento.Porque ele vem.O prazo impossível vem. O sistema cai. A mensagem fora de hora dizendo “deu problema” chega. E aquele problema que ninguém sabe de onde surgiu também aparece.E, de alguma forma, a gente aprende a conviver com tudo isso.Pior: às vezes até se diverte.Tem alguma coisa estranha nessa profissão. A gente reclama, sofre, xinga, resolve, ri depois e, no dia seguinte, começa tudo de novo.Quem trabalha com tecnologia sabe que essa carreira não é exatamente uma sequência de decisões racionais.Quem nunca fez uma alteração em produção no meio do expediente e pensou: “vai dar certo”?Quem nunca rodou um DELETE e, um segundo depois, percebeu que faltava o WHERE?Quem nunca resolveu um problema, foi perguntado sobre o que tinha acontecido e respondeu com a maior naturalidade:“Estranho. Não fiz nada.”Faz parte.Sempre digo para quem trabalha comigo: se você quer uma profissão em que ninguém te pressione, em que você seja lembrado principalmente quando tudo dá certo e em que um “muito obrigado” venha com frequência, talvez tecnologia não seja a melhor escolha.Aqui normalmente acontece o contrário.Quando tudo funciona, parece que era obrigação.Quando para, todo mundo sabe seu nome.Talvez seja por isso que, depois de tantos anos, a gente desenvolva uma relação diferente com a pressão.Não é que ela deixe de existir. Você só começa a perceber quais pressões realmente importam e quais são apenas barulho.E acho que com a carreira acontece a mesma coisa.Com o tempo, comecei a ouvir — e até a me pegar pensando algumas vezes — uma frase que me incomoda cada vez mais:“Não tenho mais idade para isso.”Mas idade para quê?Para aprender algo novo? Para mudar de direção? Para entrar em uma tecnologia que você ainda não domina?Se depois de tudo o que essa profissão já nos obrigou a aprender, desaprender e reaprender, agora a idade virou o problema, talvez estejamos olhando para o lugar errado.E aí entra a inteligência artificial.Talvez justamente agora, quando tanta gente olha para a IA e pensa “será que ainda tenho idade para aprender isso?”, a pergunta devesse ser outra: e se nunca houve um momento tão bom para continuar aprendendo?Hoje eu consigo testar uma ferramenta nova, escrever código, pesquisar, analisar e transformar uma ideia em algo concreto muito mais rápido.Mas eu não começo do zero.Levo comigo os acertos, os erros e aquela experiência que demora anos para aparecer: saber quando uma solução tecnicamente perfeita pode ser péssima para o negócio — e, principalmente, quando é melhor não fazer.Um estudo recente da OCDE aponta justamente nessa direção: a IA pode complementar competências acumuladas ao longo da carreira, em vez de simplesmente torná-las obsoletas.E é isso que me interessa.Eu não quero competir com alguém de 25 anos para descobrir quem aprende uma ferramenta nova primeiro.Quero descobrir o que acontece quando coloco essa mesma ferramenta em cima de tudo aquilo que levei décadas para aprender.Talvez a grande oportunidade da IA para quem já tem estrada seja exatamente essa: continuar aprendendo sem precisar começar do zero.E talvez, no fim, “não tenho mais idade para isso” seja apenas uma forma elegante de dizer: “não quero mais aprender isso.”Aí a conversa muda completamente.Hoje eu tenho a mesma energia que tinha aos 30 anos.A diferença é que tenho mais experiência e escolho muito melhor onde quero colocá-la.Foi aí que voltei para aquela conversa no restaurante japonês.Até quando vamos continuar fazendo isso?Talvez a pergunta esteja errada.Eu não quero voltar a ter 30 anos.Eu já tenho a energia dos 30.Só que agora ela vem acompanhada de repertório, experiência e ferramentas que naquela época eu nem imaginava que existiriam.E o mundo, convenhamos, não está ficando com menos problemas para resolver.Eu só fiquei melhor em escolher os meus.E você?Está mesmo sem idade para isso — ou só ainda não encontrou um desafio que valha a sua energia?Tá difícil de morrer. Tá difícil parar.O post Tá difícil parar… apareceu primeiro em Olhar Digital.