Essa mania de democracia (por Pedro Costa)

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Vivemos uma situação curiosa: “em nome da democracia” a mídia insiste em tratar como democrática a candidatura de Flávio Bolsonaro, quando é notório que se trata de um evidente golpista e traidor do Brasil, isto sem falar de suas prováveis atividades criminosas.Falemos primeiro que, como convém a um candidato a Presidente da República — que deve desejar que não haja dúvidas sobre seu comportamento ilibado, sua idoneidade —, ele deve usar transparência em relação ao que fez e não fez, dar todos os detalhes, inclusive os protegidos pelo sigilo pessoal, sobre alguns atos, e fazer isso sem mandar às favas os escrúpulos de consciência, como o Passarinho, ou calar uma reserva mental, como o Lott. Revele:a) A relação com os milicianos/assassinos que homenageou e cujos familiares empregou em seu gabinete;b) Tudo sobre as rachadinhas, cujas investigações conseguiu anular usando a prerrogativa de função que pretende acabar, mas que foram reveladas como fato por seu operador e ex-chefe de gabinete, abrindo as contas e revelando, ou mandando revelar, as transferências de dar e haver;c) Os negócios de compra e venda de imóveis, inclusive em dinheiro vivo, detalhando quanto pagou, quanto declarou, quanto recebeu quando vendeu, quanto elidiu de impostos e/ou de declaração de bens;d)  Quando e quanto pediu e recebeu — direta ou indiretamente — de Daniel Vorcaro, no Brasil e no exterior, demonstrado a destinação final destes valores. A desculpa de que já foi feita a prestação de contas não serve, por parcial e sigilosa.e)  Seus contratos com a “produtora” Karina de tal e o deputado/sócio Mário Frias, detalhando para que e quanto cada um deles recebeu e a finalidade do pagamento, inclusive a destinação de parte deles ao hipotético mais caro filme do cinema brasileiro e ao PCC;f)  Suas relações com membros do Comando Vermelho, como Rodrigo Bacelar e TH Joias;g) Se houve ou há transferência de recursos para seu irmão, o fugitivo da Justiça Eduardo Bananinha, e a razão de prevaricar no dever de entregá-lo à Polícia Federal para que seja executada sua pena;h) Como obteve os recursos para pagar a casa em que mora e trabalha em Brasília (aceitemos que em respeito à relação advogado-cliente ele não revele os processos em que trabalhou);i) Que não tem interesse na casa da Ilha Comprida, pressionando o miracle-worker Willer Tomaz a devolvê-la ao jogador Richarlison;j) Qual o seu real patrimônio, abrindo mão para o Estado de qualquer valor que não tenha mencionado e que se revele estar em sua posse ou sobre o qual tenha direito direto ou indireto.É essencial, também, que exponha claramente suas propostas, não valendo dizer uma coisa e o seu contrário. Assim, que explique como, sem dar um golpe de Estado, pretende que seu pai suba com ele a rampa do Planalto e lhe coloque a faixa presidencial. Encontre uma maneira de convencer que, quando declarou que seria necessário superar, pela força, decisão do Supremo Tribunal Federal que declarasse inconstitucional indulto ou anistia para livrá-lo do cumprimento de sua pena o fez em estado de confusão mental, por causa química ou patológica, e que reprova completamente qualquer gesto contrário à Lei.Deve aproveitar a mesma causa de confusão mental para pleitear ausência de dolo quando traiu o País propondo que força armada estrangeira o bombardeie. É preciso também esclarecer como poderia conciliar os deveres que tem o Presidente da República com os compromissos que assumiu com o Marco Rúbio[1] e os United States of Trump.Isso feito, o Brasil e os brasileiros devem pedir que ou se recolha a uma instituição de saúde — para tratar sua dependência ou sua doença — ou, melhor, se apresente espontaneamente à Polícia Federal para responder pelos crimes confessos.É evidente que os preclaros “jornalistas” e os órgãos em que trabalham ficarão com imensa pena do moço e proclamarão a céu e terra que suas confissões são falsas, obtidas sob coação, e que, em todo caso, devem ser absolvidas como um pecadilhos potenciais. Afinal, o sigilo da fonte foi feito para defender bandidos como ele, e, embora sem formação universitária — evidente lapso de seu currículo móvel — há muito é blogueiro e imune; todos sabem que, ao contrário dos outros sigilos (como o do segredo de Justiça, de correspondência e comunicação, bancário, da segurança do Estado, das votações que os “jornalistas” estão acostumados a violar) e garantias constitucionais, esse direito é insuperável.Ele deve ter a mesma proteção dos sujeitos que, esta semana, eliminaram um rapaz por “de cor” e em posse de uma bicicleta, coisas, como se sabe, incompatíveis, que lhe tiram a inviolabilidade do direito à vida. Se idiotas como eu ficam horrorizados, chocados, de estômago embrulhado, basta que lembremos que o candidato propôs, no Projeto de Lei nº 4640/2019, a extensão do excludente de ilicitude, criando o “suicídio por policial”, extensível, lato sensu, a todo “cidadão de bem” que vê um absurdo como este das pessoas não saberem o seu lugar.É evidente também que os ministros André Mendonça e Kássio Nunes Marques determinarão que isso é uso proibido de deepfake por parte do Lulinha e manterão sua legitimidade democrática de concorrer ao direito de dar golpe de Estado, coisa que, como disseram no caso do estrupício que é seu “papai” (sniff, sniff), não merece condenação, nem da Justiça, nem muito menos da gloriosa mídia — essa mesma que apagou sua colaboração com o golpe de 2023 (em alguns casos, com vários outros golpes). Coisa que receberá o apoio moral e religioso do também ministro Jorge Messias, que assinou sem ler parecer contra a resolução pró-estupro do Conselho Federal de Medicina.Como dizia a Thatcher, “there is no alternative” (em vernáculo, “ponha-se no seu lugar, povinho de pagãos vagabundos”). Pedro Costa é arquiteto e escritor.[1] É preciso reconhecer que o Secretário de Estado é pessoa poderosíssima, tanto que o Trump declarou que usou a si mesmo como isca (secreta) para que o avião em que Rubio viajava da Turquia para casa não fosse vítima dos malvados iranianos e que, desde que assumiu, já ocupou Cuba — que está muito longe de Miami, imensos 150 km — e prendeu os Castro várias vezes, embora mantenha o fato escondido, por discrição.