A evolução da computação quântica cria novos desafios para a segurança digital. Informações protegidas hoje podem ser capturadas e armazenadas por criminosos para serem decifradas futuramente.Essa estratégia é conhecida como “harvest now, decrypt later”, ou “colha agora, decifre depois”. Na prática, dados roubados hoje podem ser usados anos mais tarde, quando houver tecnologia capaz de quebrar a proteção aplicada atualmente.A lógica é simples. Um invasor intercepta ou rouba informações protegidas por criptografia, armazena esse material e espera até que a tecnologia permita acessar o conteúdo. O ataque, portanto, não precisa produzir efeitos imediatos para representar um risco.Com a computação quântica avançando, dados protegidos hoje podem ser capturados e armazenados por criminosos para uma decifração futura – Crédito: Quardia/iStockO futuro da criptografia já está em jogo Uma informação que parece segura atualmente pode se tornar acessível daqui a anos. O perigo é maior quando os dados mantêm valor durante longos períodos. Informações financeiras, pesquisas científicas, projetos industriais, propriedade intelectual e documentos governamentais, por exemplo, podem continuar sendo estratégicos mesmo muito tempo depois de terem sido capturados.O mesmo vale para dados pessoais sensíveis, que podem permanecer relevantes por anos. Uma vez armazenadas, essas informações podem ser alvo de novas tentativas de acesso no futuro, especialmente se surgirem ferramentas capazes de quebrar a proteção usada atualmente.A preocupação está relacionada ao potencial dos computadores quânticos. Essas máquinas utilizam princípios da física quântica para realizar determinados cálculos de maneira diferente dos computadores convencionais e, futuramente, poderão ameaçar métodos de criptografia utilizados atualmente.Caso atinjam capacidade suficiente, computadores quânticos poderão comprometer sistemas usados para proteger comunicações e informações digitais. Por isso, especialistas defendem que a preparação precisa começar antes de essas máquinas representarem uma ameaça concreta.É nesse contexto que ganhou força a chamada criptografia pós-quântica. O objetivo é desenvolver métodos capazes de proteger informações contra ataques realizados tanto com computadores tradicionais quanto contra futuras máquinas quânticas.A mudança precisa ocorrer antes que esses equipamentos atinjam capacidade suficiente para ameaçar os sistemas atuais. A ideia é evitar uma corrida contra o tempo para substituir mecanismos de proteção depois que a ameaça já estiver estabelecida.Dados interceptados hoje podem permanecer armazenados por anos, à espera de máquinas capazes de decifrar os sistemas atuais de proteção – Crédito: one photo / ShutterstockBrasil começa a se preparar para os riscos da era quântica Prevista no edital do leilão do 5G, a implantação da Rede Privativa de Comunicação da Administração Pública Federal é uma das atribuições da Entidade Administradora da Faixa (EAF). O projeto inclui uma malha própria de fibra óptica para o governo, preparada para transmitir grandes volumes de dados com maior desempenho, disponibilidade e confiabilidade.Desde a concepção, o projeto também incorporou criptografia pós-quântica, escolhida devido ao alto nível de segurança necessário para o tráfego de informações sensíveis. A tecnologia funciona como uma camada adicional de proteção, já considerando a possibilidade de que futuros computadores quânticos consigam quebrar métodos de criptografia usados atualmente.“A Rede Privativa tem cuidados muito rigorosos desde a sua concepção. Ela foi desenhada com os melhores critérios de segurança, já que estamos falando de dados muito sensíveis. São soluções já pensadas para o avanço da tecnologia no futuro”, explica Otavio Scardelato Junior, gerente da EAF.O risco do “colha agora, decifre depois” também muda a maneira de pensar sobre um ataque cibernético. Em entrevista ao Olhar Digital, Anderson Santos, pesquisador e especialista em Criptografia Pós-Quântica do Venturus, destacou que o Brasil precisa acompanhar a transição internacional para novos padrões de segurança.“O Brasil é um dos países que mais sofre ataques cibernéticos do mundo, sendo o principal alvo na América Latina. Sendo assim, precisamos acompanhar outros países e blocos que estão fazendo essa migração”, afirmou.Com a Rede Privativa e o uso de criptografia pós-quântica na infraestrutura do governo, o Brasil busca se antecipar a futuras ameaças quânticas e proteger suas informações sensíveis. – Crédito: Saulo Ferreira Angelo/ShutterstockLeia mais:O golpe que mais cresce no Brasil está no seu celular; entendaConheça a ‘cidade falsa’ criada pelo FBI usada contra ciberataquesOracle alerta clientes após ataque cibernético expor dados de mais de 100 empresasSetores críticos estão entre os mais vulneráveis Segundo o especialista, deixar essa mudança para depois pode aumentar a exposição de áreas consideradas estratégicas. “Do contrário, setores críticos da nossa infraestrutura estarão suscetíveis a ataques”, explicou. Ele também destacou que empresas com atuação internacional já enfrentam exigências relacionadas à segurança digital.A ameaça também alcança setores críticos, como financeiro, energia e saúde. “Setores diretamente relacionados às infraestruturas críticas, como financeiro, energia e saúde, precisam de uma atenção maior”, revelou Santos, ressaltando que uma ameaça concretizada poderia atingir milhões de pessoas.O problema, portanto, não envolve apenas a possibilidade de alguém acessar um dado imediatamente após roubá-lo. A informação pode ser guardada por anos, enquanto seu valor permanece intacto ou até aumenta. Quando uma tecnologia capaz de quebrar a proteção estiver disponível, aquele material poderá voltar a ser alvo.Para o especialista, antecipar essa mudança pode trazer benefícios além da proteção contra ataques. “Antecipar-se a esse cenário significa estar à frente dos concorrentes e também pronto para uma nova era da cibersegurança”.A transição exige planejamento porque sistemas digitais não podem simplesmente trocar seus mecanismos de segurança de um dia para o outro. Empresas e órgãos públicos precisam identificar quais informações são mais sensíveis, quanto tempo elas permanecem valiosas e como protegê-las.A principal preocupação, portanto, não é apenas o que um criminoso pode fazer com um dado roubado hoje. É também o que poderá fazer com ele daqui a anos. Proteger as informações atuais significa considerar desde já quem poderá tentar acessá-las no futuro.O post Criminosos podem roubar seus dados hoje e esperar anos para decifrá-los; entenda o golpe “paciente” que ameaça a segurança digital apareceu primeiro em Olhar Digital.