Quando todos têm uma boa ideia, ninguém tem uma ideia diferente: o paradoxo da inteligência artificial

Wait 5 sec.

Permanecemos algum tempo diante de uma página que não responde, de um problema que não cede, de uma tela que devolve o nosso próprio rosto e nos obriga a suportar aquela forma particularmente humana de ignorância que antecede uma descoberta. Criar foi, durante muito tempo, uma actividade inseparável dessa espécie de desamparo: estar sozinho com uma ideia até que ela deixasse de ser apenas nossa e começasse, por qualquer mecanismo que a psicologia ainda tenta compreender, a adquirir uma forma própria.A inteligência artificial veio perturbar essa solidão, porque ocupa o espaço onde antes se acumulavam a hesitação, o erro, a demora e a procura. Hoje, uma pessoa pode entrar numa conversa com um modelo de linguagem e, antes de ter sequer formulado completamente aquilo que pretende, receber dezenas de possibilidades, associações, metáforas, argumentos, nomes, estruturas, hipóteses, soluções; pode pedir outra versão, uma versão mais ousada, outra mais conservadora, uma que pareça escrita por um economista, outra por um poeta, outra por alguém que aparentemente não dorme há três dias, e continuar a fazer isto até que a página em branco deixe de ser branca.Há, evidentemente, uma enorme vantagem nisso.vMas há uma pergunta que só começa verdadeiramente a interessar quando deixamos de olhar para uma pessoa e passamos a olhar para um grupo: o que acontece à criatividade de todos quando cada um de nós dispõe da mesma máquina para criar?A criatividade no fio da navalhaÉ uma pergunta particularmente pertinente agora porque uma investigação publicada no final de julho por Mengchen Dong e Hiromu Yakura encontrou um resultado que parece contrariar uma das premissas mais intuitivas da actual corrida à inteligência artificial: a ferramenta pode melhorar a percepção que temos das nossas próprias ideias e, simultaneamente, reduzir a diversidade das ideias produzidas por um colectivo.O estudo, intitulado Human diversity fuels collective creativity that large language models cannot simulate or sustain, merece atenção precisamente porque não pergunta apenas se uma pessoa escreve melhor com IA, mas o que acontece àquilo que acontece entre pessoas quando a máquina entra no processo criativo.O indivíduo fica melhor. A sala, nem por issoOs investigadores reuniram escritores nativos e não nativos de inglês e colocaram-nos perante diferentes condições de criação: alguns produziram ideias sem assistência, outros receberam ideias geradas por IA e outros utilizaram a tecnologia para aperfeiçoar ideias que tinham surgido deles próprios. A diferença entre os dois últimos grupos é aparentemente pequena, mas é nela que o estudo encontra a sua principal fissura: quando a inteligência artificial entrava no momento inaugural da criação, ajudando a gerar as ideias, a avaliação individual dos resultados melhorava, mas a diversidade coletiva diminuía; quando a máquina era utilizada depois, para desenvolver ou refinar uma ideia que já tinha nascido de uma pessoa, a diversidade do conjunto era muito melhor preservada.Isto introduz uma espécie de perversidade no próprio conceito de produtividade. Imagine-se uma empresa com dez pessoas numa sala. Cada uma delas recebe uma ferramenta extraordinariamente competente para produzir ideias. Cada trabalhador torna-se mais rápido, mais prolífico, talvez mais seguro da qualidade daquilo que apresenta. A empresa poderia olhar para esses resultados e concluir, com alguma satisfação, que a tecnologia funcionou: dez pessoas produziram dez conjuntos de ideias melhores do que produziriam anteriormente. Contudo, a criatividade de uma organização vive de dois eixos: da qualidade de cada conjunto, mas também da distância entre eles.Se as dez pessoas começarem a chegar a soluções cada vez mais semelhantes, a empresa pode estar a ganhar competência individual enquanto perde uma das propriedades que tornam uma equipa intelectualmente interessante: a capacidade de olhar para o mesmo problema a partir de lugares mentais diferentes.É uma diferença quase microscópica quando observamos uma pessoa e gigantesca quando observamos uma organização.O luxo de pensar de maneira diferenteHá uma tendência para imaginar a diversidade como uma questão de representação, e com boas razões para isso; mas existe uma dimensão menos evidente, e talvez mais preponderante para aquilo que uma empresa pretende fazer quando fala de inovação, que é a diversidade das próprias associações mentais, a capacidade de duas pessoas com experiências diferentes receberem exactamente a mesma informação e devolverem coisas que não se parecem umas com as outras.Uma delas cresceu numa aldeia. Outra numa metrópole. Uma estudou engenharia. Outra literatura. Uma fala inglês desde criança. Outra aprendeu a língua já adulta e transporta para ela as estruturas, imagens e cadências de uma língua diferente. Uma trabalhou vinte anos dentro daquela indústria. Outra chegou ontem e ainda não aprendeu suficientemente bem as regras para saber que determinadas perguntas não se fazem. É aí que pode estar uma parte considerável da criatividade colectiva.O estudo de Dong e Yakura encontrou diferenças relevantes entre participantes nativos e não nativos de inglês: os segundos contribuíram para pools de ideias colectivamente mais diversos e essa vantagem associada à diversidade linguística desapareceu quando a IA era utilizada para gerar as ideias, enquanto estabilizava quando a tecnologia era aplicada para refinar ideias humanas pré-existentes.É uma conclusão que devia interessar particularmente às empresas que passaram os últimos anos a construir equipas internacionais, multiculturais e distribuídas, porque sugere que a diversidade não produz valor simplesmente por colocar pessoas diferentes na mesma fotografia de grupo. É fundamental apostar naquilo que torna essas pessoas diferentes e  conseguir essa sobrevivência no processo através do qual a organização pensa. Uma equipa pode ser multicultural no organograma e monocromática na imaginação.A máquina não sabe o que perdemosExiste ainda uma segunda experiência particularmente importante no estudo: os investigadores tentaram construir, através de modelos de linguagem, grupos artificiais que reproduzissem a diversidade humana dos participantes, recorrendo a personas baseadas nos seus percursos reais, a diferentes famílias de modelos, a prompts nas línguas nativas e a níveis elevados de aleatoriedade.Mesmo assim, os grupos simulados ficaram abaixo dos grupos humanos em diversidade colectiva; segundo os resultados apresentados pelos autores, a simulação mais diversa chegou apenas a 75,3% da diversidade observada num grupo humano real, enquanto aumentar ainda mais a diversidade dos outputs dos modelos conduzia a uma perda de coerência.É aqui que a investigação ganha uma dimensão quase estética, pois máquina consegue produzir variação, mas parece não conseguir replicar da mesma maneira a estranha combinação humana entre diferença e coerência: pessoas suficientemente distintas para produzir ideias inesperadas, mas suficientemente estruturadas pela experiência, pela memória e pela linguagem para que essas ideias continuem a fazer sentido.Aumentar a aleatoriedade de um modelo não é o mesmo que torná-lo humano. Uma máquina pode tornar-se mais imprevisível. Não significa que se torne mais imaginativa. O pequeno problema de termos todos a mesma vantagemAnna Mikeda chamou a este fenómeno Individual Gain, Collective Loss, num trabalho publicado nos Proceedings of the AAAI Spring Symposium Series, em maio de 2026, onde propõe que a utilização rotineira de IA pode redistribuir o esforço metacognitivo dos trabalhadores: determinadas capacidades são reforçadas, enquanto outras, como a avaliação da originalidade ou a integração reflexiva daquilo que se produz, podem receber menos atenção.A formulação é particularmente feliz porque descreve uma situação que não exige nenhum vilão. Ninguém precisa de tomar uma má decisão. Cada pessoa pode estar simplesmente a fazer aquilo que parece sensato. Se uma ferramenta melhora o meu trabalho, eu utilizo-a. Se me poupa duas horas, utilizo-a. Se me permite chegar à reunião com uma apresentação melhor ou se me oferece dez ideias quando eu só teria produzido três, utilizo-a.A vicissitude aparece quando todas as pessoas fazem exactamente o mesmo. Já é uma espécie de tragédia dos comuns aplicada à imaginação: aquilo que aumenta a vantagem de cada indivíduo pode, quando multiplicado por milhares de indivíduos, diminuir a variedade do conjunto. O que uma reunião ainda pode fazer por nósAssim, olhar para algumas das coisas que o trabalho contemporâneo aprendeu a desprezar pode ser crucial. Por exemplo, a conversa sem agenda, a discordância que demora demasiado, a pessoa que interrompe uma apresentação para dizer que não percebeu nada, o colega que apresenta uma ideia ainda mal formada, a reunião que termina sem conclusão, o projecto que passa uma semana a ser discutido antes de alguém conseguir dizer exactamente para que serve. A eficiência tende a considerar estas coisas desperdício, embora a criatividade nem sempre.Há ideias que precisam de tempo para amadurecer e outras que precisam de ser contrariadas antes de perceberem aquilo que são. Algumas só aparecem porque alguém disse qualquer coisa de errado pois obriga outra pessoa a corrigir, e existem outras que nascem da irritação provocada por uma opinião que parecia tão absurda que ninguém conseguiu ficar calado.Uma equipa verdadeiramente criativa não é uma assembleia de pessoas permanentemente inspiradas e as incompatibilidades é que originam uma espécie de sociedade. A primeira ideia deve continuar a ser nossaO mais interessante no estudo não é, por isso, a ideia de que devemos afastar a inteligência artificial da criatividade, porque os próprios resultados sugerem uma utilização muito mais promissora: a máquina parece ser menos problemática quando entra depois da primeira ideia humana do que quando é chamada a produzi-la.É uma distinção que pode parecer meramente operacional, mas talvez contenha uma filosofia de trabalho inteira. Primeiro pensar. Depois perguntar. Primeiro trazer alguma coisa da nossa própria experiência, mesmo que seja rudimentar, incompleta ou difícil de explicar. Depois utilizar a máquina para abrir essa ideia, testar-lhe as fronteiras, encontrar contradições, descobrir aplicações, encontrar aquilo que ainda não tínhamos visto.O futuro das organizações poderá depender menos da quantidade de inteligência artificial que conseguem introduzir nos processos do que da capacidade de preservar a heterogeneidade humana depois dessa introdução.O verdadeiro activo, além de trabalhadores que sabem utilizar modelos de linguagem artificial, passa por conservar entre eles diferenças suficientes para que uma pergunta não produza automaticamente a mesma família de respostas.A criatividade colectiva precisa de pessoas que tenham vidas diferentes antes de terem empregos semelhantes. Precisa de sotaques, de obsessões, referências inesperadas, experiências incompatíveis, de pessoas que não compreenderam imediatamente o briefing e, por isso mesmo, descobriram qualquer coisa que o briefing não contemplava.No fim, o que fica depois de todos os modelos, todos os prompts e ferramentas, é a pergunta se a inteligência artificial consegue melhorar aquilo que cada um de nós pensa, conseguiremos nós impedir que ela diminua a distância entre aquilo que pensamos uns dos outros?O conteúdo Quando todos têm uma boa ideia, ninguém tem uma ideia diferente: o paradoxo da inteligência artificial aparece primeiro em Revista Líder.