Como dar um ‘sim seguro’? Empresas querem transformar o risco em motor de crescimento

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Não é novidade que a incerteza geopolítica, a volatilidade económica e a rápida evolução tecnológica estão a marcar a atividade das empresas, que procuram uma nova forma de lidar com o risco. Em vez de travar decisões e excluir oportunidades, a gestão de risco começa a ser encarada como uma capacidade estratégica para crescer com maior segurança.Esta é uma das principais conclusões do Risk Management Survey 2026, da Coface, realizado junto de 1.250 decisores das áreas de risco e finanças. Apesar da mudança em curso, 62% das organizações ainda sentem tensão entre a ambição comercial e a disciplina de risco. Equipas de risco passam de ‘guardiãs’ a parceiras do crescimentoDurante muito tempo, a missão das equipas de risco esteve concentrada na prevenção de perdas e na identificação de ameaças. O estudo mostra, porém, que esta perspetiva está a mudar: 44% dos decisores esperam que estas equipas se tornem parceiras estratégicas do crescimento nos próximos três a cinco anos.O objetivo passa por encontrar um ‘sim seguro’: uma decisão que permita aproveitar uma oportunidade sem ignorar as ameaças associadas. O risco deixa, assim, de funcionar apenas como mecanismo de controlo e passa a contribuir para a estratégia, a expansão e a tomada de decisões comerciais.O relatório identifica um grupo de organizações mais avançadas, designadas Open Advantage Leaders, que já aplica este modelo. Entre estas empresas, 70% envolvem as equipas de risco na fase inicial das decisões de crescimento, comparativamente com 58% da amostra total.Estas organizações também apresentam uma cultura de debate aberto mais desenvolvida: 38% promovem este tipo de discussão, contra 23% no conjunto das empresas. Além disso, 29% consideram o risco uma vantagem competitiva, uma percentagem que desce para 19% na amostra global. O maior travão continua dentro das empresasApesar da vontade de mudar, os principais obstáculos continuam frequentemente no interior das próprias organizações. Metade dos inquiridos considera que dizer ‘não’ é mais seguro do que procurar um ‘sim estruturado’, enquanto 59% afirmam que o contributo das equipas de risco nem sempre é bem recebido.O envolvimento destas áreas também continua a acontecer demasiado tarde: apenas 24% das organizações incluem sempre o risco numa fase inicial dos processos de decisão.A liderança surge como outro elemento determinante. Só 50% dos participantes acreditam que os responsáveis apoiam as equipas quando um risco devidamente gerido não produz o resultado esperado. Esta falta de segurança pode reforçar a aversão ao risco e aumentar o custo da indecisão. Dados fragmentados atrasam decisõesA transformação da gestão de risco depende também da capacidade de reunir e interpretar informação. Cerca de 52% das empresas têm dados de risco fragmentados entre diferentes mercados, o que dificulta análises consistentes e decisões rápidas.Entre as principais limitações ao crescimento, 68% dos decisores identificam a lentidão dos processos de decisão, 54% apontam a aversão interna ao risco e 47% referem a falta de dados em tempo real.Neste contexto, a tecnologia assume um papel crescente. Cerca de 59% das organizações querem obter informação preditiva, 54% procuram avaliações de risco baseadas em inteligência artificial e metade já utiliza indicadores de alerta precoce.A adoção destas ferramentas não elimina a necessidade de julgamento humano. Pelo contrário, aumenta a importância de decisões sustentadas por dados, de uma interpretação adequada do contexto e de uma liderança capaz de equilibrar proteção e oportunidade. Empresas querem parceiros que as ajudem a dizer ‘sim’As expectativas relativamente aos parceiros externos também estão a mudar. Segundo o estudo, 77% das empresas querem informação preditiva que permita tomar decisões proativas e 71% procuram maior confiança para aceitar novas oportunidades.Por sua vez, 65% valorizam mecanismos de proteção que lhes permitam assumir decisões comerciais mais ambiciosas. Mais do que transferir ou limitar riscos, as organizações procuram parceiros capazes de converter incerteza em informação útil e operacional. Portugal pode beneficiar deste novo paradigmaPortugal apresenta um perfil alinhado com a menor exposição ao risco que caracteriza o sul da Europa, beneficiando de estruturas empresariais menos vulneráveis à volatilidade tecnológica e de crédito observada noutros mercados.A evolução registada em Espanha, onde as equipas de risco são cada vez mais vistas como parceiras estratégicas, também começa a ser observada no mercado português. As empresas nacionais procuram maior previsibilidade, valorizam a antecipação e integram progressivamente a análise de risco numa fase mais precoce das decisões.O estudo identifica três prioridades para Portugal: melhorar a qualidade e a consistência dos dados, acelerar a utilização de inteligência artificial e de indicadores de alerta precoce e reforçar as equipas de risco como facilitadoras do crescimento.Esta transformação poderá ser particularmente relevante para setores exportadores e pequenas e médias empresas com ambição internacional, que necessitam de avaliar novos mercados, clientes e oportunidades sem perder capacidade de resposta. Para concretizar esse potencial, será igualmente necessária uma liderança preparada para contextos sem manual.O conteúdo Como dar um ‘sim seguro’? Empresas querem transformar o risco em motor de crescimento aparece primeiro em Revista Líder.