A geração condenada ao calor (por Mariana Caminha)

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Cada vez mais escuto meu filho Santiago, de 12 anos, falar sobre mudanças climáticas. Ele comenta sobre ondas de calor, tempestades, incêndios e outros eventos extremos com uma familiaridade que, na minha infância, seria impensável. Para a geração dele, o clima deixou de ser apenas o assunto que ajuda a começar uma conversa. Tornou-se motivo de preocupação, tema escolar e parte do vocabulário cotidiano.O que ele ainda não sabe é que sua geração já é a maior vítima de uma crise que não criou.Um novo estudo publicado esta semana na revista Science Advances ajuda a dimensionar essa injustiça. Ao combinar dados demográficos com modelos climáticos, pesquisadores calcularam quantos dias de calor e umidade perigosos podem ser atribuídos às mudanças climáticas provocadas pela atividade humana, e quais grupos etários estão mais expostos.Os resultados são alarmantes: 583 milhões de crianças com menos de 10 anos já enfrentam pelo menos 20 dias adicionais de estresse térmico por ano por causa do aquecimento global. Isso equivale a 44% de todas as crianças nessa faixa etária no planeta.O estudo define como dia de estresse térmico aquele em que uma combinação de temperatura e umidade ultrapassa o limite de 28°C no chamado IBUTG (Índice de Bulbo Úmido Termômetro de Globo). Não se trata, portanto, simplesmente de olhar para o termômetro. Quando o ar está muito úmido, o suor evapora com dificuldade e o corpo perde uma de suas principais formas de se resfriar. O calor sentido pode ser muito mais perigoso do que a temperatura isolada sugere.Para uma criança pequena, esse risco é ainda maior. Seu organismo tem menor capacidade de produzir suor e uma proporção diferente entre a superfície corporal e o peso. Crianças também passam mais tempo ao ar livre, podem não perceber que precisam beber água e dependem de adultos para sair de ambientes excessivamente quentes. Por isso, os próprios autores alertam que os números encontrados provavelmente são conservadores.O calor extremo pode agravar asma e doenças respiratórias, prejudicar os rins, aumentar o risco de insolação e afetar a saúde mental. Também compromete a concentração e a aprendizagem. Antes mesmo do nascimento, a exposição da mãe a temperaturas excessivas está associada a parto prematuro, baixo peso e maior risco de morte fetal.Assim como acontece com quase tudo relacionado às mudanças climáticas, o mapa dessa ameaça não é uniforme. O peso maior recai sobre crianças que vivem nas regiões tropicais, especialmente no sul da Ásia e no oeste da África. São áreas mais expostas ao calor úmido e que também concentram populações mais jovens. Muitas dessas crianças vivem em casas sem ventilação adequada, estudam em escolas sem qualquer sistema de resfriamento e têm acesso limitado a água potável e atendimento médico.É onde a emergência climática se encontra com a desigualdade.Nos países de renda baixa e média, o calor não ameaça apenas diretamente o corpo. Ele reduz colheitas, piora a qualidade da água, aumenta a insegurança alimentar e favorece doenças transmitidas por mosquitos ou pela água contaminada. Pode interromper aulas, retirar renda das famílias e comprometer o desenvolvimento físico e cognitivo. Uma criança não precisa sofrer uma insolação para ter a vida profundamente alterada pelo aumento da temperatura.O estudo também revela uma dolorosa assimetria geográfica e histórica. As crianças mais expostas vivem, em grande parte, em países que contribuíram muito pouco para o volume de gases de efeito estufa acumulado na atmosfera. Elas não participaram das decisões que nos trouxeram até aqui, não lucraram com a exploração intensiva dos combustíveis fósseis e ainda não têm poder político para mudar o rumo das políticas públicas.Mesmo assim, já pagam a conta.Quando meu filho fala sobre eventos extremos, percebo que ele está aprendendo cedo demais palavras que sua geração não deveria precisar conhecer tão bem. “Onda de calor”, “emergência climática”, “temperatura recorde”. Expressões que, para muitos adultos, ainda parecem abstratas descrevem o mundo concreto no qual nossos filhos terão de viver.Costumamos dizer que o planeta será deixado para as próximas gerações. A frase, porém, já está ultrapassada. Nós não lhes entregaremos a Terra apenas no futuro. Estamos definindo agora quantos dias de suas infâncias serão quentes demais para brincar, estudar, dormir ou simplesmente respirar com segurança.A geração que menos fez para aquecer o planeta é a que terá de crescer dentro dele. A medida mais cruel da injustiça climática.