Inflação nos EUA acelera e divide apostas sobre alta de juros em setembro

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A inflação dos Estados Unidos voltou a dar sinais de resistência em julho e aumentou a incerteza sobre os próximos passos do Federal Reserve. O índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês) subiu 0,2% no mês e acelerou para 3,7% em 12 meses, acima dos 3,6% esperados pelo mercado.O núcleo do indicador, que exclui os preços mais voláteis de alimentos e energia, também avançou 0,2% na comparação mensal. Em 12 meses, a alta foi de 3,3%, levemente superior à projeção de 3,2%.Embora as leituras mensais tenham ficado praticamente em linha com o consenso, a inflação continua distante da meta de 2% perseguida pelo Fed. O resultado dividiu as avaliações sobre a reunião de setembro. Enquanto parte dos analistas entende que os números não justificam uma alta imediata dos juros, outra parcela vê a possibilidade de aperto monetário novamente sobre a mesa.“O resultado mostra que a inflação pelo PCE segue rodando bem acima da meta de 2% do Fed, com o núcleo mantendo ritmo elevado na comparação anual”, afirma Vitor Kayo, economista sênior da Nomad.Para ele, a ausência de uma surpresa mais forte não deve alterar substancialmente as apostas do mercado, que ainda apontam para a manutenção dos juros na reunião de setembro. Uma eventual alta, nesse cenário, ficaria para outubro ou dezembro.Serviços e consumo mantêm alerta ligadoNa avaliação de William Castro, economista-chefe da Avenue, o principal sinal negativo veio do índice cheio, que superou as projeções após alguns meses de resultados em linha ou abaixo das expectativas.A inflação de serviços também chamou a atenção, com alta de 0,3% no mês. Diferentemente das oscilações de energia e alimentos, esse componente costuma estar mais associado à dinâmica doméstica da economia e tende a ser mais persistente.“Esse componente tem menos relação com conflitos geopolíticos ou oscilações nos preços dos alimentos e está mais associado a uma inflação persistente e ‘pegajosa’”, diz Castro.Além dos preços, os gastos e a renda dos consumidores cresceram ligeiramente acima do esperado. A combinação mostra que a economia americana permanece resiliente, mas também indica que a demanda pode dificultar uma desaceleração mais rápida da inflação.Segundo Castro, os dados ajudaram a elevar os rendimentos dos títulos do Tesouro americano. A taxa do papel com vencimento em dois anos chegou a 4,22%, enquanto os títulos de dez e 30 anos também avançaram.Para o economista, uma atividade econômica ainda forte, combinada com uma inflação mais resistente, “pode recolocar na mesa a possibilidade de alta dos juros em setembro”.Tarifas, energia e inteligência artificialAddison Maier, gerente de portfólio da Janus Henderson, aponta energia, tarifas comerciais e investimentos em infraestrutura de inteligência artificial como os três principais motores da inflação americana neste ano.Os preços de energia continuam voláteis, enquanto a pressão sobre os bens começa a mostrar algum alívio à medida que os efeitos das tarifas adotadas no ano passado entram na base de comparação.A expansão da infraestrutura de IA, por outro lado, ainda não apresenta sinais de desaceleração. Uma eventual perda de ritmo nesses investimentos poderia ter consequências relevantes para a inflação, o crescimento econômico e a trajetória dos juros.Mesmo com esses riscos, Maier considera que os resultados de junho e julho enfraqueceram o argumento para uma alta dos juros na reunião de 16 de setembro.Outro fator que pode ajudar na desinflação é a fragilidade do mercado imobiliário americano. Segundo o gestor, a desaceleração do setor tende a exercer pressão baixista sobre os preços nos próximos meses.As atenções agora se voltam para o próximo PCE, que será divulgado em 30 de setembro com os dados de agosto. Na mesma ocasião, o Bureau of Economic Analysis (BEA) apresentará revisões metodológicas referentes aos últimos cinco anos.De acordo com Maier, as alterações podem reduzir entre 0,20 e 0,30 ponto percentual das taxas de inflação acumuladas em 12 meses, mudando parcialmente a fotografia recente dos preços nos Estados Unidos.