O anúncio de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve sancionar nos próximos dias o Profert (Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes) foi recebido como um avanço pela indústria, mas executivos do setor afirmam que a medida precisará ser acompanhada de ações de curto prazo para enfrentar a crise de crédito e viabilizar investimentos na produção nacional.As afirmações foram feitas nesta terça-feira (25), durante o Congresso Brasileiro de Fertilizantes, da ANDA (Associação Nacional para Difusão de Adubos), em São Paulo.O country manager da Mosaic Brasil, Eduardo Monteiro, afirmou que o Profert cria uma perspectiva positiva para a indústria no médio e longo prazo, mas disse que a cadeia enfrenta dificuldades imediatas de financiamento.“Tendo o Profert, ótimo, vai nos ajudar no médio e longo prazo, mas a agricultura e o setor precisam de remédio e incentivo agora”, disse. Leia Mais Entre crises e incentivos, o teste real do Profert Senado aprova projeto que incentiva produção nacional de fertilizantes Profert será votado nos próximos dias no Senado, diz senador O Profert, anunciado por Geraldo Alckmin durante o congresso e já aprovado pelo Congresso Nacional, prevê mecanismos para estimular a indústria nacional de fertilizantes, incluindo metas graduais de mistura de produto nacional e linhas de financiamento para modernização, expansão e reativação de fábricas. A expectativa do governo é que a sanção presidencial ocorra nos próximos dias.Segundo Monteiro, a principal demanda é a liberação urgente de crédito para produtores e empresas do setor. “O setor enfrenta a maior crise de crédito em 20 anos. A retração do crédito leva o Brasil a produzir menos, gerando menos riqueza e menos divisas.”Ele também defendeu apoio para a aquisição de enxofre, insumo utilizado na produção de fertilizantes, e afirmou que o fechamento de unidades industriais no país preocupa a cadeia.Ao comentar o papel do governo, Monteiro afirmou que o setor já enfrenta aumento de custos decorrente de mudanças tributárias. “Só não atrapalhar, já ajuda”, disse.Produção nacional e riscoNo mesmo painel, o presidente da Yara Brasil, Marcelo Altieri, defendeu que ampliar a produção doméstica depende de um ambiente que permita novos investimentos.Segundo Altieri, produzir fertilizantes no Brasil significa competir com mercados que possuem custos de produção menores. Por isso, afirmou que o país precisa avançar em marcos regulatórios e incentivos para tornar esses investimentos economicamente viáveis.Altieri disse que a indústria de fertilizantes se tornou mais resiliente após reorganizar suas cadeias de suprimento nos últimos anos em resposta às crises geopolíticas, como a guerra da Rússia e Ucrânia. “Na Yara tivemos que mudar totalmente nossa cadeia para seguir operando”, disse.Segundo ele, conflitos internacionais passaram a fazer parte da estrutura de custos de agricultores, empresas e consumidores, levando o setor a diversificar fornecedores, fortalecer o planejamento logístico e ampliar a gestão de riscos.Dependência externa continuará, dizem executivosOs dois executivos defenderam reduzir a vulnerabilidade do Brasil às oscilações externas, mas afirmaram que isso não significa buscar independência total da produção internacional.Monteiro disse que segurança de suprimento não implica produzir todos os fertilizantes dentro do país e avaliou que os bioinsumos podem contribuir para diminuir parte da dependência externa e da exposição geopolítica.Já Altieri afirmou que nenhuma potência agrícola é autossuficiente em fertilizantes. “É inimaginável pensar em eliminar as dependências internacionais, mas podemos tentar reduzir a exposição aos riscos”, disse.“Nenhuma potência agrícola é 100% independente e com o Brasil não vai ser diferente. Mas precisamos reduzir a dependência de alguns segmentos”, acrescentou.Governo atualiza regras para fiscalização de fertilizantes