Como o Brasil se prepara contra o golpe “paciente” que aguarda tecnologia do futuro 

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O avanço da computação quântica trouxe novos desafios para a segurança digital no mundo todo. Atualmente, criminosos virtuais já conseguem capturar e armazenar dados sigilosos que estão protegidos por sistemas tradicionais. Eles guardam essas informações para decifrá-las no futuro, quando tecnologias mais avançadas surgirem.Essa tática de invasão é chamada por especialistas de “harvest now, decrypt later”, ou “colha agora, decifre depois”. Na prática, o ataque não precisa gerar estragos imediatos para representar um grande perigo. Informações roubadas hoje continuarão salvas em servidores de hackers até que computadores superpotentes consigam quebrar os códigos de proteção atuais.O problema principal afeta os dados que mantêm seu valor estratégico por muitos anos. Informações financeiras, pesquisas científicas, projetos industriais, segredos governamentais e dados pessoais sensíveis continuam importantes com o passar do tempo. Se capturados agora, esses conteúdos poderão ser lidos por criminosos daqui a uma década.Com a computação quântica avançando, dados protegidos hoje podem ser capturados e armazenados por criminosos para uma decifração futura – Crédito: Quardia/iStockO risco de ver fortalezas digitais ruíremA grande preocupação das autoridades envolve o poder computacional das máquinas quânticas. Diferente dos computadores comuns, esses equipamentos usam princípios da física quântica para processar volumes gigantescos de cálculos em poucos segundos. Essa capacidade conseguirá ultrapassar facilmente as barreiras de segurança conhecidas hoje.O especialista em Tecnologia e Inovação Arthur Igreja, em entrevista ao Olhar Digital, destacou que a criptografia não é apenas uma ferramenta técnica, mas a fundação de toda a navegação e comércio eletrônico modernos. Segundo ele, perder essa proteção colocaria em risco a funcionalidade da internet como a conhecemos. “É preciso lembrar que a criptografia é um dos grandes blocos fundamentais da nossa vida, é uma daquelas coisas que são discretas e absolutamente essenciais para que as coisas funcionem do jeito que elas funcionam. Então, a criptografia é a base fundacional da segurança na internet”.Igreja compara o momento atual a um ambiente físico fortificado que, em um futuro próximo, poderá ter suas portas escancaradas por invasores sem grandes dificuldades. “É como se você tivesse um espaço físico em que hoje ele está tremendamente protegido, mas no futuro você tem lá uma tecnologia que permite que você com alguma facilidade pudesse entrar nesse ambiente”, analisa o especialista.Para ilustrar o risco real, ele compara a um cofre de alta segurança. Se uma tecnologia do futuro permitir abrir a tranca sem esforço, todo o investimento feito na proteção presente será anulado. “Imagina só, é como se você tivesse um cofre com algo de valor inestimável dentro em que ele foi construído, fortificado, mas que no futuro surge uma tecnologia que você facilmente consegue entrar nele, ou seja, ele praticamente perde a sua função”.O impacto dessa vulnerabilidade atinge desde simples conversas privadas até grandes sistemas digitais de custódia financeira. Igreja alerta que redes descentralizadas e moedas digitais também estão na linha de tiro dessa nova revolução tecnológica. “Isso seria absolutamente caótico, seria um cenário em que essas estruturas poderiam ser rompidas”.Por essa razão, os bastidores do setor de tecnologia já aceleram suas estratégias de defesa. Conforme destaca Igreja, computadores híbridos e avanços constantes em hardware aceleram a chegada dessa ameaça. “O mundo da tecnologia já sabe que nós estamos numa corrida contra o tempo. É uma daquelas situações em que tudo que nós conhecemos até hoje pode chegar um momento em que, de uma hora para outra, justamente essa fortaleza inabalável se torna uma fragilidade exposta”. Dados interceptados hoje podem permanecer armazenados por anos, à espera de máquinas capazes de decifrar os sistemas atuais de proteção  – Crédito: one photo / ShutterstockDiante desse cenário, especialistas defendem o uso urgente da criptografia pós-quântica. Esse novo modelo cria algoritmos matemáticos hipercomplexos, capazes de resistir a ataques de computadores tradicionais e também das futuras supermáquinas quânticas.A migração precisa acontecer antes que a ameaça quântica se torne um fato consumado. A ideia central da prevenção é evitar uma corrida desesperada para substituir sistemas de segurança depois que os invasores já tiverem a tecnologia em mãos.Leia mais:O golpe que mais cresce no Brasil está no seu celular; entendaConheça a ‘cidade falsa’ criada pelo FBI usada contra ciberataquesOracle alerta clientes após ataque cibernético expor dados de mais de 100 empresasBrasil começa a se preparar para os riscos da era quântica No Brasil, o governo federal já deu os primeiros passos para modernizar sua infraestrutura digital e proteger suas comunicações estratégicas. Prevista no edital do leilão do 5G, a Rede Privativa de Comunicação da Administração Pública Federal está sendo implantada pela Entidade Administradora da Faixa (EAF).A EAF é a entidade responsável por apoiar projetos de infraestrutura de telecomunicações e inclusão digital no país. O trabalho é realizado em parceria com o Ministério das Comunicações e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), utilizando uma malha própria de fibra óptica de alta performance.Gina Marques, presidente da EAF, usa uma comparação simples para explicar a lógica por trás da estratégia. “É como se o ladrão entrasse, roubasse os dados e guardasse esses dados num cofre. Ele deixa guardado lá até que a tecnologia tenha evoluído e seja possível quebrar a senha da criptografia”, explica a executiva.Ela explica que a preocupação da entidade se justifica pelo tipo de informação que trafega pelas redes do Estado brasileiro. Certos documentos oficiais e dados governamentais sigilosos exigem proteção legal por prazos extremamente longos, ultrapassando décadas. “Imaginem a informação do governo que precisa ficar guardada por até 30 anos. Então, a gente não precisa guardar só o hoje dela, a gente precisa guardar ela para frente. Quando os computadores estiverem à disponibilidade de quebrar essa senha”.Pensando nisso, a arquitetura da Rede Privativa de Comunicação já nasceu adaptada aos novos padrões de segurança internacional. A proteção pós-quântica foi integrada desde as primeiras etapas do projeto governamental. “Como nós guardamos dados sensíveis do governo, a EAF colocou essa possibilidade de criptografia pós-quântica no projeto de rede privativa desde o comecinho. Nosso objetivo é guardar esses dados de uma forma que a gente não descubra lá na frente que eles foram vazados”, afirma Gina.EUA estariam tentando impor dominância sobre a América Latina – Crédito: Saulo Ferreira Angelo/ShutterstockA falta de atualização em tempo hábil coloca em risco redes de energia elétrica, sistemas bancários, serviços de saúde e transportes públicos. Caso ocorra uma invasão bem-sucedida nesses ambientes estratégicos, os prejuízos atingirão diretamente a rotina e a segurança de milhões de cidadãos.Além do setor público, empresas privadas com atuação internacional já lidam com exigências rígidas de cibersegurança. Quem se antecipa às diretrizes da era quântica ganha vantagem competitiva no mercado global e evita prejuízos operacionais sérios no futuro.Mudar a arquitetura de segurança de sistemas digitais não é uma tarefa simples ou rápida. O processo exige planejamento detalhado, inventário minucioso de dados e investimentos constantes em novas tecnologias.Governos e empresas precisam mapear quais informações necessitam de proteção duradoura para aplicar as novas ferramentas de blindagem antes que seja tarde. Proteger as informações atuais significa prever desde já quem tentará acessá-las nas próximas décadas.O post Como o Brasil se prepara contra o golpe “paciente” que aguarda tecnologia do futuro  apareceu primeiro em Olhar Digital.