A expectativa para um El Niño extremo – o chamado “Super El Niño” – acende um sinal de alerta vermelho. De acordo com o climatologista Carlos Nobre, doutor em Meteorologia pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e referência internacional em aquecimento global, o cenário atual exige atenção máxima. “As chances de este ser um dos eventos mais intensos já registrados são extremamente elevadas. Por isso, precisamos estar muito preparados”, adverte.Uma análise recente com base em oito grandes eventos passados revelou uma dinâmica preocupante na Amazônia: o aquecimento das águas oceânicas trava o regime de chuvas, resseca a floresta e prepara o terreno para um aumento assustador dos incêndios florestais.Fogo e desigualdade mantêm Amazônia sob ameaça – Crédito: J Brarymi / iStockOs impactos mais graves desse fenômeno climático, no entanto, não acontecem imediatamente durante o seu ápice, mas sim no ano seguinte. Especialistas alertam que o El Niño atual deve ganhar força nos próximos meses, atingindo o pico entre outubro e dezembro. Com isso, os efeitos mais devastadores do fogo sobre a Amazônia tendem a se manifestar com intensidade máxima em meados do próximo ano.O que um El Niño mais forte pode representar para a AmazôniaO estudo foi conduzido pelo Programa de Monitoramento da Amazônia Andina, vinculado à organização Amazon Conservation. Ao cruzar dados de mais de duas décadas de observação, a equipe de cientistas identificou um padrão histórico claro: as temporadas de queimadas mais violentas no bioma ocorrem sempre no ano posterior aos episódios em que a temperatura do Pacífico subiu de forma mais acentuada.Os números das últimas décadas deixam essa relação direta bastante evidente nos registros históricos. Em 2015, um evento de El Niño considerado muito forte elevou a temperatura do mar em mais de dois graus acima da média. Como resultado imediato dessa seca prolongada, o ano de 2016 registrou a perda de quase dois milhões de hectares de florestas intocadas na região.A situação se repetiu de forma ainda mais dramática em episódios mais recentes. Um forte aquecimento registrado em 2023 preparou o cenário para que o ano seguinte vivenciasse a pior temporada de incêndios já documentada na história amazônica. Em 2024, as chamas destruíram cerca de três milhões de hectares de mata nativa, demonstrando a potência devastadora desse ciclo climático.O foco da pesquisa concentrou-se na perda de florestas primárias, que representam as áreas mais antigas e preservadas do bioma. Esses ecossistemas intocados abrigam a maior biodiversidade do planeta e armazenam volumes gigantescos de carbono. Por essa razão, a destruição dessas matas compromete diretamente o equilíbrio ambiental e o combate ao aquecimento global em escala planetária.Diferentemente de outros ecossistemas pelo mundo, a floresta amazônica não queima de maneira espontânea ou por causas puramente naturais, como descargas elétricas. Em condições normais, a copa densa das árvores retém a umidade necessária para proteger o solo. Na prática, quase a totalidade dos incêndios registrados na região tem origem direta nas queimadas promovidas pela ação humana.Infográfico ilustra resposta catastrófica da região amazônica ao fenômeno El Niño – Crédito: Imagem gerada por IAO fogo costuma ser iniciado em áreas recém-desmatadas para a expansão da agropecuária ou próximo a estradas abertas na mata. Quando o El Niño eleva as temperaturas e deixa a atmosfera extremamente seca, as chamas geradas pelo homem saem do controle com facilidade. O fogo cruza as fronteiras das fazendas e avança rapidamente sobre a floresta nativa fragilizada.O mecanismo por trás dessa seca envolve mudanças profundas na circulação do ar global. Quando o Pacífico tropical aquece, forma-se uma massa de ar descendente sobre a Amazônia que impede a subida da umidade vinda do Atlântico e bloqueia as nuvens. Sem a formação de chuvas, o ambiente esquenta de forma extrema e rompe a estabilidade do clima local.Nobre ressalta que, embora o fenômeno afete diversas áreas tropicais, subtropicais e de latitudes médias pelo mundo, seus efeitos no território brasileiro são particularmente severos. O climatologista observa que o El Niño costuma provocar chuvas excessivas no Sul, ao passo que favorece secas graves na Amazônia e no Nordeste.Essa falta de umidade contínua compromete o funcionamento dos chamados rios voadores, que transportam água pela atmosfera. Com menos chuva, o solo resseca, as árvores perdem folhas e a transpiração da floresta diminui sensivelmente. Cria-se assim um ciclo contínuo de retroalimentação: a redução da reciclagem de água deixa a matéria orgânica no solo extremamente pronta para queimar.Essa instabilidade também tem se somado a anomalias em outros oceanos. O climatologista detalha que a combinação de um El Niño mais intenso com o aquecimento atípico do Atlântico – como o registrado em 2023 e 2024 – aumenta a evaporação de água, alimentando tempestades em determinadas regiões enquanto exacerba extremos meteorológicos, como os ciclones no Sul.O fenômeno climático funciona como um preparador silencioso de combustível para o fogo. As altas temperaturas fazem com que a mata perca suas defesas naturais com antecedência. Por esse motivo, a seca rigorosa vivenciada em um período específico cria as condições ideais para as queimadas que vão devastar a floresta somente no ano seguinte.Mapa da NOAA mostra anomalias da temperatura da superfície do mar entre maio e junho de 2026. As áreas em vermelho indicam águas mais quentes que a média, sinalizando o desenvolvimento e fortalecimento do El Niño no Pacífico Equatorial. – Crédito: NOAA/PSLLeia mais:El Niño de 2026 pode ser o mais forte já visto no planetaEl Niño: chance de fenômeno forte nos próximos meses salta para 95%El Niño pode levar mais 49 milhões de pessoas à fome, alerta ONUFalta de planejamento do governo amplificou destruição no passadoDe acordo com o InfoAmazonia, a falta de planejamento e a resposta demorada dos governos locais agravaram a destruição em crises anteriores. Em eventos passados, países como a Bolívia enfrentaram grandes dificuldades de coordenação política, enquanto o Brasil demorou meses para decretar estado de emergência. A maioria das ações ocorreu de maneira reativa, quando a crise ambiental já havia alcançado proporções incontroláveis.Diante do risco iminente, os especialistas apontam que a única medida capaz de evitar uma tragédia é combater o desmatamento no presente. Como os incêndios dependem do combustível gerado pelas árvores derrubadas, frear a destruição da mata hoje é essencial. Se não houver vegetação cortada no solo, o fogo não encontrará material suficiente para se espalhar nas secas futuras.Além do combate ao desmatamento, ações imediatas e de longo prazo para a adaptação e a proteção das cidades e das populações vulneráveis são urgentes. Para Oswaldo Lucon, especialista em mudanças climáticas e pesquisador do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (USP), a resposta do poder público precisa ser estrutural. “É fundamental investir em brigadas de incêndio, planos de contingência para segurança hídrica e estruturas de apoio para a população mais vulnerável durante ondas de calor, como espaços climatizados e acesso facilitado à água”, defende.Lucon destaca ainda a necessidade de criar fontes sustentáveis de financiamento para enfrentar o problema. “No médio e longo prazo, é indispensável financiar a adaptação climática. Não existe adaptação sem recursos financeiros. O dinheiro precisa vir de algum lugar. Na minha visão, deveria seguir o princípio do poluidor-pagador, envolvendo aqueles que produzem e consomem combustíveis fósseis”.Se a Amazônia perder sua capacidade de reciclar a água e produzir chuvas, os impactos afetarão o abastecimento de grandes metrópoles e a agricultura da América do Sul. O cenário reforça a urgência de conter a ação humana antes que a reação em cadeia se torne incontrolável.O post Amazônia pode pagar caro pela intensificação do El Niño apareceu primeiro em Olhar Digital.