Existem duas maneiras muito diferentes de conhecer um Mustang.Uma delas é em uma pista, com espaço, segurança e alguém que realmente saiba o que está fazendo ao volante. Já tive essa oportunidade com o Mustang GT Performance, em uma experiência organizada pela Ford. Motoristas comuns, como eu, jamais conseguiriam extrair daquele carro o que ele conseguia.Eu não sou piloto.Também não sou um jornalista automotivo com décadas testando esportivos. Sou um jornalista de um portal de tecnologia. E um bom motorista. Por isso, ao passar alguns dias com o novo Mustang Dark Horse, uma pergunta me interessava tanto quanto saber do que ele seria capaz em uma pista: como é dirigir um Mustang de 507 cv no trânsito de São Paulo?E talvez a maior surpresa do Dark Horse esteja justamente aí.Para variar, fiquei muito tempo parado no trânsito paulistano. – Imagem: Bruno CapozziUm Mustang ainda mais MustangO Dark Horse ocupa hoje uma posição bastante particular na família Mustang. Ele parte da sétima geração do esportivo, mas recebe um conjunto de modificações voltadas a aumentar sua capacidade dinâmica.No Brasil, seu motor é o conhecido Coyote V8 aspirado de 5 litros, agora com 507 cv a 7.250 rpm e 567 Nm de torque a 4.900 rpm. A transmissão é exclusivamente automática de dez marchas, com possibilidade de trocas pelas aletas no volante, e a tração continua traseira.Não é pouca coisa.Também não se trata simplesmente de colocar alguns cavalos extras em um Mustang GT e mudar os emblemas. O Dark Horse traz diferencial traseiro Torsen com sistema próprio de arrefecimento, suspensão adaptativa MagneRide com calibração específica, grandes freios Brembo e pneus mais largos atrás do que na dianteira.São 255/40 R19 na frente e 275/40 R19 atrás.Externamente, ele também deixa claro que não é o Mustang mais discreto da família. Há faróis escurecidos, rodas de 19 polegadas igualmente escuras, spoiler traseiro, quatro ponteiras de escape e os emblemas próprios da versão.O tradicional cavalo continua lá. Mas o Dark Horse ganha também uma identidade particular, com o emblema do famoso cavalinho olhando diretamente para quem vê o carro.Detalhe do cavalinho nos encarando. – Imagem: FordA besta e a gaiolaToda vez que alguém coloca 507 cv em um carro de tração traseira, existe uma responsabilidade junto com a diversão.O Dark Horse pesa 1.832 kg, tem 4,82 metros de comprimento e mais de 2 metros de largura considerando os retrovisores abertos. Não é um brinquedo pequeno. E a potência disponível sob o pé direito exige respeito.Existe uma dedução natural: o Mustang é um carro que, permanentemente, quer escapar das mãos de quem está dirigindo. Quase que um desafio constante. Não é – se você tiver juízo.Usado no modo Normal, com controles eletrônicos ligados e sem provocações desnecessárias ao acelerador, o cavalo fica mais manso. Imponente, claro. Mas mais manso. Passei uma semana com ele e, em momento algum, o senti escapar do meu controle. E, de novo: sou motorista, não piloto. E essa talvez seja uma das maiores demonstrações de tecnologia presentes no carro.Há controle eletrônico de estabilidade e tração, alerta de colisão frontal, frenagem autônoma de emergência, assistente de permanência em faixa, monitoramento de ponto cego e piloto automático adaptativo com Stop & Go.Só faltou uma câmera frontal para ajudar nas balizas apertadas que fazia nas ladeiras do meu bairro para estacionar a máquina. O bico do cavalo é considerável.E há também uma camada eletrônica dedicada especificamente à dinâmica.São cinco modos básicos de condução — Normal, Esportivo, Escorregadio, Pista e Pista Drag — além de configurações personalizadas. A direção pode ser ajustada separadamente entre Normal, Esportivo e Conforto. A suspensão tem quatro configurações. Até o escapamento oferece quatro personalidades diferentes: Normal, Esportivo, Pista e Silencioso.A Ford permite, portanto, alterar significativamente o comportamento do carro.Durante meu período com o carro, mesmo em ruas estreitas, trânsito pesado e situações nas quais um Mustang está muito distante de seu habitat natural, não tive a sensação de estar lutando constantemente contra ele.O carro continuava na mão. O V8 continua sendo protagonistaNenhuma tela de 13 polegadas consegue disputar atenção com o que acontece quando o V8 acorda.O 5.0 aspirado talvez seja a parte mais anacrônica — e justamente por isso mais especial — do Dark Horse.Enquanto boa parte da indústria busca motores menores, turbocompressores, sistemas híbridos e eletrificação, aqui existem oito cilindros, cinco litros e rotação.Não é somente uma questão de números.A entrega de potência de um grande motor aspirado tem personalidade própria. E o escapamento ativo reforça essa experiência. Dá para tornar o Mustang relativamente discreto quando é necessário e, em outra situação, permitir que ele entregue o ronco que provavelmente é parte da razão pela qual alguém compra um carro desses.É um daqueles raros casos em que som não é apenas consequência da mecânica. Faz parte da experiência.Em alguns faróis da zona norte de São Paulo, uma cena se repetia: o motorista ao lado sinalizava para eu abaixar o vidro e na sequência pedia “o ronco”. E quando aparece espaço para acelerar, fica muito evidente que existe uma reserva de desempenho que simplesmente não pode ser explorada integralmente em uma rua comum.Dez marchas para domar um V8No Brasil, o Dark Horse é oferecido com transmissão automática de dez velocidades.Para os puristas, a ausência do câmbio manual disponível em outros mercados provavelmente será uma decepção. Existe uma conexão mecânica especial em controlar pessoalmente um V8 desse tipo.Por outro lado, quando a pergunta passa a ser “como conviver com um Mustang em São Paulo?”, a automática começa a fazer bastante sentido.No trânsito, ela elimina um trabalho que rapidamente se tornaria cansativo. Quando o espaço aparece, as aletas atrás do volante permitem ao motorista participar mais das trocas.E existem personalidades diferentes dentro do próprio câmbio.Em condução tranquila, dez relações ajudam o motor a trabalhar sem transformar cada deslocamento em um evento. Em modos mais agressivos, a programação pode manter marchas e rotações de maneira completamente diferente.Há uma ressalva interessante encontrada num teste internacional. A Car and Driver criticou o comportamento da transmissão automática em uso extremo de pista: durante sessões do Lightning Lap, a revista relatou aumento de temperatura do fluido e momentos de indecisão nas trocas:“O maior ponto fraco do Dark Horse é sua transmissão automática de 10 velocidades. Não são necessárias muitas voltas para que o indicador de temperatura do fluido avise sobre o aumento. E com o calor, vêm a indecisão nas trocas de marcha e reduções inoportunas. É bem provável que a transmissão manual de seis velocidades pudesse reduzir um pouco o tempo. Mesmo assim, a volta de 2:51.2 do Dark Horse é suficiente para destronar o Mach 1”.É um cenário bastante distante do congestionamento da Marginal Pinheiros, mas serve para mostrar que a versão manual ainda tem argumentos fortes quando o objetivo é explorar repetidamente o limite do carro em circuito.Na cidade, a lógica se inverte.Surpreendentemente tolerante com São PauloTalvez a suspensão tenha sido uma das minhas maiores surpresas.Eu esperava sofrer mais.O Dark Horse usa suspensão adaptativa MagneRide, capaz de alterar continuamente o comportamento dos amortecedores. Ela não consegue apagar buracos do asfalto, evidentemente, e esse continua sendo um carro esportivo de rodas de 19 polegadas.Mas o resultado em ruas normais foi melhor do que eu imaginava.Há firmeza, mas não tive a sensação de ser jogado a cada pequena imperfeição. Isso não quer dizer que São Paulo deixe de ser São Paulo.Valetas profundas e quebra-molas exigem atenção. O carro é baixo e não existe tecnologia capaz de mudar geometria básica: chegar rápido demais ou em um ângulo ruim pode significar ouvir aquela raspada dolorosa embaixo.Mas em pequenas irregularidades, remendos e asfalto imperfeito, minha expectativa era de algo muito mais sensível.Não foi.Mustang paradinho na garagem do OD. – Imagem: Bruno CapozziO Mustang também detecta buracosHá, inclusive, uma tecnologia particularmente apropriada para uma cidade brasileira: Pothole Mitigation.O sistema identifica impactos que podem indicar a passagem por um buraco e ajusta a resposta dos amortecedores para tentar reduzir o movimento da roda e o impacto transmitido ao veículo.É um ótimo exemplo de como o Dark Horse mistura uma mecânica tradicional — motor V8 aspirado e tração traseira — com uma camada de processamento eletrônico que trabalha constantemente sem chamar atenção do motorista.Grande continua sendo grandeA eletrônica consegue esconder parte da brutalidade do Mustang.Não consegue esconder suas dimensões.O carro tem 4,82m de comprimento, 2,71m de entre-eixos e 2,08m de largura com os espelhos abertos.Em avenidas largas, nada disso incomoda muito.Em uma rua estreita de bairro, começa a importar.Eu estava em uma região de São Paulo com muitas ladeiras e precisei algumas vezes fazer manobras e balizas em situações pouco amigáveis. É aí que o Mustang lembra ao motorista que continua sendo um cupê grande.O esterçamento não é o de um hatch compacto e uma manobra que seria trivial no meu saudoso Nissan March pode exigir uma correção adicional.A câmera de ré e os sensores traseiros ajudam, mas há uma ausência curiosa em um carro dessa faixa de preço e tamanho: a ficha brasileira lista câmera traseira e sensores traseiros, sem indicar câmera 360 graus ou sensores dianteiros.Não impede o uso cotidiano, mas faria diferença justamente nas situações em que a carroceria do Mustang mais se faz notar.Quatro lugares no papelA ficha diz que o Dark Horse leva quatro passageiros.Tecnicamente, é verdade.Na prática, o banco traseiro é muito mais limitado.Com o banco dianteiro regulado na minha posição (tenho 1,85m), eu simplesmente não conseguia me acomodar adequadamente atrás. Quando dei carona, mesmo os mais baixinhos não tiveram sobra.Isso não chega a ser um defeito inesperado.Quem entra em uma concessionária procurando espaço traseiro provavelmente não deveria estar olhando para um Mustang tradicional. O Mustang Mach-E está aí pra isso!Aliás, fiz um review do Mustang elétrico também:Seguindo…O Dark Horse pode ser usado para ir ao trabalho, ir comprar pão, enfrentar trânsito ou viajar. Mas não se torna por isso um sedã familiar.Os bancos dianteiros contam uma história bem diferente.São parcialmente revestidos em couro e suede, têm ajustes elétricos, aquecimento e ventilação. Minha experiência foi de bastante conforto na frente, mesmo em deslocamentos urbanos.O volante também é revestido em couro e suede e tem aquecimento.E, por fim: são 7 airbags (2 dianteiros, 2 laterais dianteiros, 2 cortinas e 1 para joelho do passageiro)O Mustang virou um carro de telasSe por fora o Mustang tenta preservar seis décadas de identidade, por dentro a ruptura é muito maior.O painel digital tem 12,4 polegadas, enquanto a central multimídia possui 13,2 polegadas. As duas telas formam praticamente uma grande área digital diante do motorista.Há Android Auto e Apple CarPlay sem fio, GPS embarcado e sistema de áudio Bang & Olufsen com 11 alto-falantes e subwoofer.É talvez a mudança que melhor resume a atual geração.O Mustang ainda tem um V8 aspirado dianteiro enviando potência para as rodas traseiras — uma arquitetura quase clássica. Mas a interface entre o carro e o motorista está cada vez mais parecida com a de outros veículos modernos.Isso vai dividir opiniões.Quem espera um interior cheio de mostradores físicos provavelmente sentirá falta de parte do caráter analógico dos Mustangs anteriores. Quem vem de carros modernos encontrará uma quantidade muito maior de informação e personalização.Existe até um freio para driftA alavanca no console que parece um freio de mão tradicional é, na verdade, o Drift Brake, um freio de estacionamento eletrônico de alta performance criado também para facilitar manobras de drift em ambiente apropriado. Repetindo: EM AMBIENTE APROPRIADO. Obrigado.Há ainda o Line Lock, que permite travar os freios dianteiros enquanto as rodas traseiras giram, recurso usado para aquecer os pneus antes de arrancadas.O Track Apps registra métricas de desempenho, tempos e frenagens.São funções que provavelmente passarão a maior parte da vida desligadas para muitos proprietários.E tudo bem.Elas mostram a amplitude da proposta.O mesmo Mustang que tem piloto automático adaptativo com Stop & Go para enfrentar congestionamentos oferece ferramentas para que alguém leve o carro a um circuito no fim de semana.Poucos carros conseguem colocar esses dois mundos tão próximos.Interior do Ford Mustang Dark Horse. Detalhe para o freio de drift, que parece um freio de mão. – Imagem: Ford/divulgaçãoE sim, ele bebeUma informação um tanto óbvia: o Mustang Dark Horse é beberrão.Também seria estranho esperar outra coisa de um V8 5.0 aspirado de 507 cv movimentando mais de 1,8 tonelada.A ficha fornecida pela Ford não informa médias oficiais de consumo. Eu fiquei na casa dos 4.6 km/l – rodando em horários ingratos em SP. O Mustang não é exatamente o melhor amigo do trânsito paulistano. – Imagem: Bruno CapozziSegurança não anula físicaTalvez exista aqui a ressalva mais importante de todo este review.Dizer que o Mustang Dark Horse é surpreendentemente fácil de dirigir não significa dizer que ele seja impossível de perder.Muito pelo contrário.Ele continua sendo um carro de 507 cv, tração traseira e capacidade de atingir velocidades muito altas em pouquíssimo tempo.Controle de estabilidade, controle de tração, diferencial Torsen, MagneRide e pneus largos conseguem fazer muita coisa.Nenhum deles revoga as leis da física.Por isso, minha experiência positiva com o Mustang na cidade depende de uma condição essencial: respeitar o carro.Deixar as assistências ligadas.Usar o modo apropriado.Entender onde você está.E, principalmente, não confundir potência disponível com potência que precisa ser usada.Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades, né? Desculpe pelo clichê emprestado dos quadrinhos.Então dá para viver com um Mustang em SP?Dá.Mas praticidade é uma palavra relativa.Ele não é prático como um hatch. Não é espaçoso como um SUV. Não é econômico. O banco traseiro é apertado. Entrar em algumas garagens exige atenção. Manobrar em ruas estreitas dá mais trabalho. E quebra-molas talvez virem motivo para você esbravejar contra si mesmo, como eu fiz.Ao mesmo tempo, eu esperava que todas essas concessões fossem muito maiores.O Dark Horse consegue circular pelo trânsito pesado sem parecer um animal permanentemente tentando escapar. Consegue enfrentar asfalto imperfeito sem transformar cada rua em tremedeira. Tem bancos dianteiros confortáveis, bom pacote de assistência à condução e uma transmissão automática que facilita muito a rotina urbana.E quando surgir uma pista existirá outro carro escondido ali.Foi isso que aprendi quando andei anteriormente com um piloto da Ford no GT Performance. Nas mãos de alguém treinado, um Mustang revela capacidades que um motorista comum provavelmente nunca explorará integralmente. E que nem deve.Você pode conferir essa experiência abaixo:O Dark Horse amplia ainda mais essa possibilidade.Freios Brembo, diferencial Torsen, MagneRide, modos de pista, Line Lock, Drift Brake e ferramentas de telemetria estão ali para quem sabe e pode utilizá-los.Mas você não precisa ser piloto para gostar de um Mustang.Eu certamente não sou.Pontos fortesO V8 5.0 aspirado é o centro da experiência e entrega desempenho acompanhado de uma identidade sonora difícil de reproduzir em outra arquitetura. O conjunto – MagneRide, diferencial Torsen e freios Brembo – dá ao Dark Horse credenciais que vão muito além de aceleração em linha reta.A quantidade de configurações permite adaptar bastante o carro entre cidade e condução esportiva. Para um automóvel com essa potência, a usabilidade cotidiana também surpreende.A tecnologia embarcada é ampla, tanto na conectividade quanto nas assistências de segurança e nos recursos especificamente voltados à performance.Ah! O Mustang vem em cores para todos os gostos. O que dirigi era alvinegro como meu Botafogo. Qual sua cor favorita para o Mustang? – Imagem: Ford/divulgaçãoPontos fracosA maioria dos pontos fracos é relativa. Porque são escolhas inerentes ao tipo de veículo de que estamos falando.O banco traseiro tem utilidade limitada para adultos. As dimensões ficam evidentes em ruas estreitas e manobras, e a ausência de câmera 360 graus e sensores dianteiros chama atenção em um carro desse porte – e valor.O consumo é elevado, como seria previsível em um V8 5.0 aspirado, e a baixa altura exige atenção em valetas e quebra-molas.Para quem pretende levar o Dark Horse frequentemente à pista, a decisão da Ford de oferecer apenas o câmbio automático no Brasil também pode ser frustrante.VeredictoO Mustang Dark Horse não é racional — e não foi feito para ser racional.Existe hoje uma enorme quantidade de carros capazes de transportar quatro adultos melhor, consumir menos combustível, ocupar menos espaço e cumprir o cotidiano com mais eficiência.Pouquíssimos, porém, fazem isso carregando um V8 aspirado de cinco litros na frente.A grande qualidade do Dark Horse está em não obrigar o proprietário a escolher permanentemente entre essas duas realidades.Ele pode ser excessivo quando você quer que seja – e em ambientes propícios pra isso.E surpreendentemente normal no seu dia a dia.O post Mustang Dark Horse: como é dirigir um carro de 507 cv no trânsito de São Paulo apareceu primeiro em Olhar Digital.