O entregador Wesley dos Reis Cordeiro, de 41 anos, voltava para casa após comemorar o aniversário de 2 anos da neta quando foi morto com um tiro no tórax, disparado pelo soldado da Polícia Militar Héctor Luiz de Macedo, na madrugada de 5 de julho, no Capão Redondo, extremo sul paulistano.Documentos da investigação do Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), obtidos pela coluna, indicam divergências entre a versão apresentada pelos policiais e os relatos de familiares e da testemunha que dirigia a motocicleta na qual Wesley ocupava a garupa.Imagens das câmeras corporais, também obtidas pela coluna (assista abaixo), mostram que o sinal sonoro da viatura só foi acionado depois do disparo, apesar de os policiais sustentarem que os motociclistas fugiram após desobedecerem a uma ordem de parada.Em depoimento, os soldados Héctor e Lucas Benitelli da Costa afirmaram terem suspeitado de duas motocicletas e, por isso, iniciaram a abordagem. Eles alegaram que Wesley escondia as mãos sob um casaco e teria feito um movimento interpretado como tentativa de sacar uma arma.O estoquista de 19 anos que dava carona para Wesley apresentou outra dinâmica. Disse ao DHPP que ouviu o barulho de pneus, alguém gritar “para, para” e, praticamente em seguida, o disparo. Tudo aconteceu tão rápido que ele afirmou ter pensado inicialmente que estava sofrendo um assalto.A companheira de Wesley, faxineira de 38 anos, contou que ele estava cansado após a festa e pretendia voltar para casa de aplicativo. Ele acabou aceitando a carona de familiares. A agora viúva acrescentou que Wesley trabalhava havia cerca de três anos com entregas. Leia também Alfredo HenriquePM alega sexo “consensual” com adolescente que o acusa de estupro Alfredo HenriqueJovem foi ameaçada de levar tiro durante estupro atribuído a soldado da PM Alfredo HenriquePMs de folga são presos por suspeita de estupro e roubo de adolescente Alfredo HenriqueVítima mostra local em que PM teria estuprado amiga; “eu quero ela” Arma não foi encontradaOutra inconsistência envolve os momentos posteriores ao tiro. Os policiais disseram que perseguiram os demais motociclistas e, quando retornaram, “diversas pessoas” já estavam próximas de Wesley. Levantaram, então, a possibilidade de alguém ter retirado uma eventual arma que estivesse com ele.As imagens da câmera corporal obtidas pela coluna, porém, mostram Wesley caído e sozinho no asfalto, já inconsciente. Nenhuma arma atribuída à vítima foi apreendida. O próprio DHPP registrou não ter localizado testemunhas que tivessem presenciado o momento do tiro.A pistola calibre ponto 40 do soldado Héctor foi apreendida para perícia e ele foi formalmente incluído na investigação. Os documentos consultados pela coluna não mencionam o eventual afastamento dos dois PMs.A Secretaria da Segurança Pública (SSP) e a PM foram procuradas para informar a situação funcional dos agentes e comentar as divergências apontadas pela investigação. O espaço segue aberto para manifestações.