Lula chega à campanha apostando em soberania, no bolso do eleitor e na nostalgia

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A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à reeleição chegou à fase oficial com uma estratégia definida: depois de meses tentando transformar os resultados do governo em popularidade, o presidente passou a concentrar o discurso em três frentes: defesa da soberania, medidas com impacto direto no bolso do eleitor e a própria trajetória política.A reportagem da Jovem Pan conversou ao longo dos últimos meses com integrantes do governo, da campanha e aliados próximos ao presidente. A avaliação é que Lula continua em posição favorável nas pesquisas e não precisa, neste momento, aumentar os riscos da disputa. Nos bastidores, a orientação é resumida pela expressão “jogar parado”. Casos como os envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente investigado por tráfico de influência, e Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete do petista, também estão sendo monitorados, mas não trazem preocupação imediata à campanha.Parte do entorno também considera que a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) tem produzido os próprios desgastes. Por isso, aliados defendem que Lula evite exposições consideradas desnecessárias, principalmente em debates e sabatinas, desde que a ausência não provoque um custo político maior.A cautela não significa, porém, ausência de mudanças. Ao longo da pré-campanha, o PT precisou ajustar principalmente a forma de apresentar os resultados do terceiro mandato.Da “economia dura” ao bolsoA primeira aposta foi nos números.Desemprego recorde, inflação dentro da meta, isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil e a negociação que derrubou parte das tarifas impostas pelos Estados Unidos foram utilizados pelo governo para defender uma melhora da economia. O Pé-de-Meia e Gás do Povo também foram escolhidos entre as principais marcas da gestão.Os resultados, no entanto, não produziram o efeito eleitoral esperado. Lula continuou liderando os principais cenários, mas não conseguiu transformar as agendas consideradas positivas pelo governo em crescimento proporcional nas pesquisas. Ao mesmo tempo, a rejeição permaneceu elevada e Flávio se consolidou como principal nome da oposição.Em conversas reservadas, petistas passaram a apontar um problema de comunicação. A avaliação é que bons indicadores macroeconômicos têm alcance limitado quando o eleitor não percebe melhora semelhante no cotidiano.A partir daí, a campanha passou a apostar na chamada “economia palpável”.O novo Desenrola, voltado à renegociação de dívidas, e o fim da chamada “taxa das blusinhas” — criada durante o próprio governo Lula — entraram entre os principais exemplos. A estratégia é priorizar medidas cujo efeito possa ser percebido diretamente no orçamento das famílias.O fim da escala 6×1 ganhou ainda mais peso.A pauta já havia sido escolhida no início do ano como uma das principais bandeiras para tentar diminuir a rejeição, principalmente entre os jovens. O governo enviou ao Congresso um projeto para reduzir a jornada para até 40 horas semanais, com dois dias de descanso e sem redução salarial.A proposta enfrenta resistência do setor produtivo e dúvidas dentro da própria base sobre a possibilidade de aprovação ainda em 2026. Politicamente, porém, aliados consideram que a defesa da mudança já permite a Lula dialogar com um público em que encontrou dificuldades durante a pré-campanha.Os jovens são uma preocupação particular. A geração que agora chega às urnas cresceu com o PT já consolidado como uma das maiores forças políticas do país e com Lula no centro da política nacional. Dentro do partido, há o reconhecimento de que recuperar esse eleitor exige mais do que apresentar índices econômicos.Soberania ganha espaçoOutro eixo que cresceu durante a pré-campanha foi a defesa da soberania nacional.O tema ganhou força a partir dos embates comerciais com os Estados Unidos e passou a aparecer tanto na atuação internacional do governo quanto no discurso eleitoral.No pronunciamento de 1º de Maio, Lula afirmou que “o Brasil não é quintal de ninguém”. Na abertura da campanha, em São Bernardo do Campo, voltou ao assunto ao falar sobre minerais críticos e terras raras.O presidente defendeu que o país deixe de atuar apenas como exportador de matéria-prima e passe a extrair, transformar e industrializar esses recursos internamente. Também afirmou que o Brasil não deve fazer uma opção automática por Estados Unidos ou China.Para a campanha, a pauta permite reunir política externa, economia e confronto com a oposição. A proximidade de integrantes da família Bolsonaro com o governo de Donald Trump também será explorada pelo PT durante a disputa. A ideia é colocar os filhos do ex-presidentes como antagonistas e arquitetos do tarifaço.A avaliação é que o tema permite a Lula adotar um discurso nacionalista e, ao mesmo tempo, apresentar os embates externos como uma defesa dos interesses brasileiros.Lula volta à própria históriaO terceiro eixo ficou mais evidente no lançamento oficial da campanha.Depois de três anos marcados por dificuldades em torno do 1º de Maio — com o ato esvaziado de 2024 e as ausências de Lula nos eventos públicos de 2025 e 2026 —, o presidente escolheu justamente o Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, para abrir a disputa pelo quarto mandato.O evento foi construído em torno de sua biografia. Antigos sindicalistas subiram ao palco, vídeos recuperaram as greves do ABC e uma produção simulou um diálogo entre o presidente de 80 anos e o líder sindical de 1979.No discurso, Lula relembrou as greves dos metalúrgicos, a prisão durante a ditadura, a mãe, Dona Lindu, e episódios de sua trajetória antes de chegar à Presidência.A escolha vai além da nostalgia. Depois da dificuldade de transformar números do governo em apoio eleitoral, a campanha voltou a apostar em um ativo que considera mais fácil de comunicar: o próprio Lula.O uso do passado também tem limites. A trajetória sindical ajuda a mobilizar o eleitorado tradicional, mas o presidente precisa conquistar uma geração que não viveu as greves do ABC e que cresceu com Lula já integrado ao centro do poder político brasileiro.Por isso, o discurso em São Bernardo deixou progressivamente as lembranças para entrar nas propostas de um eventual quarto mandato. Lula falou de segurança pública, prometeu enfrentar os líderes e financiadores das facções criminosas, voltou a defender a criação de um Ministério da Segurança Pública e relacionou investimentos em educação à prevenção da criminalidade.A campanha tenta usar a biografia como credencial sem deixar que a candidatura fique restrita ao passado.A estratégia de “jogar parado”Com os principais eixos definidos, aliados ouvidos pela Jovem Pan avaliam que Lula não precisa fazer movimentos bruscos enquanto permanecer à frente nas pesquisas.“Jogar parado”, na definição utilizada por interlocutores, significa preservar a vantagem, escolher melhor os ambientes de exposição e evitar situações em que o presidente possa ter mais a perder do que a ganhar.A leitura também leva em conta Flávio Bolsonaro. No entorno de Lula, existe a avaliação de que o adversário vem acumulando desgastes sem necessidade de uma atuação direta do presidente para provocá-los.Na prática, isso aumenta a resistência à participação em debates e sabatinas. A campanha pretende avaliar os convites individualmente e não considera necessário aceitar todos os confrontos oferecidos durante a eleição.O cenário, no entanto, não é visto como livre de riscos.O caso envolvendo Lulinha, filho do presidente, permanece no radar. Hoje, segundo aliados ouvidos pela reportagem, o tema não é tratado como uma preocupação capaz de mudar a estratégia da campanha, mas há expectativa de que seja explorado pela oposição.A economia também continua sendo um ponto de atenção. A própria mudança para um discurso mais ligado ao poder de compra ocorreu porque os indicadores apresentados pelo governo não foram suficientes para reduzir a rejeição no ritmo esperado.Lula entra, assim, na fase decisiva da eleição sem abandonar os resultados do terceiro mandato, mas mudando a maneira de apresentá-los. A economia passa pelo bolso antes dos indicadores; a política externa é apresentada como defesa da soberania; e a própria trajetória volta a ocupar um espaço central na comunicação.Com vantagem nas pesquisas, a orientação dos aliados é menos acelerar do que evitar erros enquanto essas três frentes sustentam a campanha.