O mundo está mais rico, mas o dinheiro está mais concentrado

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É este o retrato traçado por dois estudos da Boston Consulting Group (BCG) — o Global Wealth Report 2026 e o Global Principal Investors Report 2026. Em conjunto, os relatórios identificam uma reconfiguração dos fluxos globais de capital e uma crescente concentração da riqueza em geografias e instituições capazes de mobilizar grandes volumes de investimento.A riqueza financeira mundial cresceu 10,7% em 2025, para 333 biliões de dólares (cerca de 285 milhões de milhões de euros), naquele que foi o crescimento anual mais rápido desde 2021. Quando considerados também os ativos reais, a riqueza líquida global aproximou-se dos 550 biliões de dólares (471 milhões de milhões de euros).O dinheiro também circulou mais entre fronteiras. A riqueza transfronteiriça aumentou 8,4% e os dez principais centros internacionais de registo e gestão de património concentraram quase 90% dos novos fluxos de capital offshore.Hong Kong ultrapassa a SuíçaA principal mudança na geografia da riqueza aconteceu na Ásia. Hong Kong ultrapassou, pela primeira vez, a Suíça como maior centro mundial de riqueza transfronteiriça.A ascensão está ligada sobretudo à entrada de capital proveniente da China continental, ao desempenho dos mercados acionistas e ao dinamismo das ofertas públicas iniciais, os chamados IPO.Hong Kong e Singapura consolidam assim a posição de portas de entrada para o capital asiático, particularmente para fluxos provenientes da China, da Índia e do Sudeste Asiático. Do outro lado, Suíça, Estados Unidos e Reino Unido continuam a desempenhar um papel central na gestão de fortunas provenientes da Europa, Médio Oriente e América Latina.A transformação não se limita aos grandes centros financeiros. Os mercados emergentes deverão acrescentar quase sete biliões de dólares (6 milhões de milhões de euros) em riqueza financeira até 2030. Índia, Brasil e México estarão entre os principais motores desse crescimento, acompanhados pela criação de mais de um milhão de novos milionários ao longo da década.O poder crescente dos grandes investidoresAo mesmo tempo que a riqueza se dispersa por novas geografias, o poder financeiro concentra-se em instituições cada vez maiores.Fundos soberanos e fundos públicos de pensões praticamente duplicaram os ativos sob gestão numa década: passaram de 21 biliões de dólares em 2015 para 43 biliões em 2025. A BCG estima que possam atingir 59 biliões até 2030.A dimensão destes investidores dá-lhes uma capacidade crescente para influenciar a direção dos mercados. A sua atuação pode afetar a distribuição geográfica do capital, os spreads de crédito, os preços dos ativos e o acesso a oportunidades nos mercados privados.É uma mudança importante. Estes investidores já não funcionam apenas como grandes carteiras de ativos. Pela escala que atingiram, tornaram-se agentes capazes de participar na definição da própria arquitetura dos mercados.Essa transformação é particularmente visível nos mercados privados. A exposição a capital privado e infraestruturas está a aumentar, enquanto ganham espaço estratégias de investimento direto, coinvestimento e criação de plataformas próprias.Mas o contexto tornou-se também mais exigente. Os períodos de permanência dos ativos estão a aumentar, o volume de ativos ainda não realizados atingiu níveis elevados e as distribuições continuam sob pressão. Perante este cenário, os grandes investidores estão a concentrar capital num número mais reduzido de gestores, privilegiando relações de maior convicção e critérios de seleção mais rigorosos.A inteligência artificial entra no centro da equaçãoA inteligência artificial surge como outro dos grandes pontos de convergência entre os dois estudos.No setor da gestão de património, a BCG estima que modelos operacionais desenhados de raiz para integrar IA possam libertar entre 25% e 30% de capacidade e aumentar entre 15% e 20% a receita gerada por cada assessor financeiro.O impacto poderá sentir-se em áreas como o planeamento financeiro, documentação de conformidade, gestão de carteiras e identificação antecipada de clientes em risco de abandonar a instituição.Para os grandes investidores institucionais, a IA tem uma dupla função. É, simultaneamente, uma oportunidade de investimento e uma ferramenta para transformar os próprios processos internos.O interesse estende-se por toda a cadeia tecnológica, das aplicações e modelos às infraestruturas, computação e energia. Internamente, a tecnologia começa também a ser utilizada na análise de investimentos, seleção de gestores e criação de valor nas empresas participadas.Uma competição por capital mais seletivaOs dois relatórios apontam, por isso, para uma transformação que vai além de um simples ciclo positivo dos mercados.O capital global está mais concentrado, mais seletivo e mais estratégico. Os grandes centros financeiros competem pela capacidade de atrair e reter riqueza, enquanto os investidores institucionais procuram geografias, setores e ativos capazes de oferecer retorno, escala e previsibilidade.Para países e empresas já não basta conseguir financiamento e passa a ser necessário demonstrar relevância estratégica.Na Europa, esta mudança pode abrir uma oportunidade para economias capazes de combinar estabilidade regulatória, ativos diferenciados e capacidade de execução. Portugal poderá beneficiar dessa procura, mas a competição será feita num mercado global em que o capital procura cada vez menos apenas estabilidade e cada vez mais escala, produtividade e projetos capazes de integrar novas cadeias de valor.A grande transformação, portanto, não está apenas na quantidade de riqueza existente, mas em quem a controla, onde está localizada e para onde decide ir.A riqueza mundial está a crescer, mas, sobretudo, está a mudar de mãos, de geografias e de lógica. Os investidores com maior escala estão a ganhar uma influência crescente sobre os mercados que irão definir a próxima década.O conteúdo O mundo está mais rico, mas o dinheiro está mais concentrado aparece primeiro em Revista Líder.