Como startup de US$ 10 bi com Tom Brady e George R. R. Martin pode trazer à vida uma ave extinta há mais de 360 anos

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Algumas das inovações mais populares da ciência no século 21 estão sendo empregadas para solucionar o principal problema que acomete a fauna mundial: a extinção. Mas uma startup de biotecnologia quer ir além de prevenir novas espécies de serem extintas: o objetivo é trazer de volta à vida animais que já sumiram do mapa.A Colossal Laboratories e Biosciences já conquistou espaço no noticiário científico ao prometer reproduzir, com edição genética e animais contemporâneos, novos espécimes do mamute-lanoso pré-histórico, do tigre-da-tasmânia, do lobo-terrível e do dodô africano.Inspirada na franquia “Jurassic Park”, onde dinossauros são trazidos de volta à vida com bioengenharia, a Colossal tem valor estimado de US$ 10 bilhões após múltiplas rodadas de investimento e traz em seu conselho, além de cientistas, celebridades como Chris Hemsworth, George R. R. Martin, Joe Manganiello, Steve Aoki e Tom Brady.Leia Mais: Estudo consegue reativar rins de porcos após um ano de congelamento a −150 °C NASA confirma funcionamento de escudo térmico da cápsula da Artemis II que levou astronautas para Lua Cientistas recrutam voluntários para caçar e identificar novos buracos negros na Via Láctea O que foi o dodô e por que foi extinto?Animal natural de uma ilha na costa leste da África, o dodô foi uma espécie de pombo gigante terrestre que viveu sem predadores naturais até a chegada de exploradores holandeses em 1598.O pássaro virou alvo fácil dos humanos já que, ao longo de sua evolução, não desenvolveu o medo natural a espécies predadas. Sua carne não era considerada saborosa pelos colonizadores, mas ainda era visada para consumo.A extinção veio quando os marinheiros começaram a trazer em seus navios animais como ratos, porcos, cães e macacos, que atacavam ninhos e devoravam os filhotes e ovos dos dodôs, além de competir pelos recursos da ilha.A espécie, que só botava cerca de um ovo por ano, não conseguiu manter um ritmo de reprodução suficiente para sobreviver às novas ameaças. A data exata da extinção é controversa, com relato de avistamento em 2003; no entanto, menos de um século depois da chegada dos humanos à ilha Maurício, sua população já era praticamente nula.Com criatividade, cuidado e pesquisa, o uso ético de tecnologias genéticas modernas pode ajudar a estabilizar os ecossistemas enquanto retira os animais e plantas do nosso planeta da lista de extinção.Alta Charo, professora emérita de bioética da Warren P. Knowles e consultora científica da ColossalQual é o objetivo de trazer o dodô “de volta”?A equipe responsável pela reconstrução do genoma do dodô acredita que os mesmos esforços para trazê-lo de volta também podem ajudar a manter vivas as espécies hoje ameaçadas.“A de-extinção é um mecanismo de inovação diretamente aplicável à conservação”, diz Matt James, chefe de assuntos animais na Colossal em detalhamento do projeto no site oficial.Um exemplo de animal que a empresa visa proteger é o pombo-rosado, ave natural da ilha Maurício em processo de extinção por destruição de seu habitat. A equipe afirma que seu trabalho de biotecnologia e sequenciamento genético pode aumentar a diversidade genética da espécie e, por consequência, suas chances de sobreviver na natureza.O projeto também deseja atrair a atenção do público e de investidores através da história do dodô, um dos símbolos mais famosos da extinção e das ameaças humanas à biodiversidade.Como seria feita a “desextinção”?A base do experimento é modificar o genoma do animal vivo mais próximo do dodô até ter uma ave geneticamente idêntica à extinta. O processo descrito pela startup é a seguinte:Reconstruir o mapeamento genético do dodô com inteligência artificial, dados de outras aves e amostras do pássaro real conservadas em museus;Identificar qual pássaro vivo tem o genoma mais parecido com a reconstrução – neste caso, foi escolhido o pombo-de-nicobar;Coletar células germinativas do pombo-de-nicobar responsável por criar óvulos e espermatozoides;Editar o código genético destas células, “trocando” os genes responsáveis por desenvolver os traços do pombo-de-nicobar por genes que emularão as características do dodô;Transferir as células para uma ave hospedeira. Neste caso, o animal escolhido para a “barriga de aluguel” foi a galinha doméstica;A partir da reprodução das galinhas portadoras dos gametas modificados, geraria-se um filhote geneticamente idêntico ao dodô.O processo estaria hoje na fase de coleta de células germinativas do pombo-de-nicobar. A Colossal prevê que as aves, “exintas há 350 anos”, estarão “provavelmente andando entre nós novamente no início da década de 2030”.Projeto anterior causou polêmicaA tentativa de “de-extinguir” o lobo pré-histórico (dire wolf) estaria mais avançada, com animais geneticamente modificados reproduzidos a partir do lobo-cinzento. Os três filhotes resultantes, lobos de pelagem clara, tiveram seus uivos gravados e compartilhados pela Colossal no YouTube com o título: “os primeiros uivos de lobo-terrível em mais de 100 mil anos”.O experimento foi recebido com grande repercussão pelo público geral e pela comunidade científica, que questionou a narrativa divulgada pela startup à imprensa.Um grupo de cientistas da União Internacional para a Conservação da Natureza respondeu à notícia dizendo que “não há evidências de que os animais são fenotipicamente distintos do lobo-cinzento, ou fenotipicamente similares ao lobo pré-histórico”.Em carta aberta, o grupo de 12 especialistas em canídeos ameaçados de extinção pede que a biotecnologia “não seja adotada como panacéia para a crise de biodiversidade atual”.Sugerir que a extinção pode ser revertida com tecnologia pode subestimar a urgência de conservar espécies e ecossistemas existentes. Apoiar-se na ideia de que podemos “restaurar” espécies perdidas por edição genética tira o foco do objetivo mais crítico da conservação: proteger a biodiversidade e os habitats que hoje carregam a vida na terra.Força-tarefa de Revisão Taxonômica do Grupo de Especialistas em Canídeos