A crise climática tem gênero porque o cuidado também tem

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Quando uma enchente fecha a escola, alguém precisa ficar com as crianças. Quando falta água, alguém reorganiza a casa inteira. Quando uma onda de calor derruba a saúde de uma pessoa idosa, alguém controla a medicação, prepara a comida, procura atendimento. Quando uma família perde a casa, alguém corre atrás de documentos, roupas, comida e de alguma sensação de normalidade.Esse trabalho raramente entra nas planilhas de perdas climáticas. Deveria.No Brasil, as mulheres dedicaram em média 21,3 horas por semana a cuidados de pessoas e afazeres domésticos em 2022. Entre os homens, a média foi de 11,7 horas, segundo o IBGE. Mulheres pretas ou pardas dedicaram 1,6 hora semanal a mais do que as brancas.A diferença ajuda a entender por que falar de gênero na crise climática não é afirmar que as mulheres têm alguma vulnerabilidade natural. Um evento extremo encontra pessoas posicionadas de modo muito diferente diante do risco. O IPCC chega a essa conclusão: no capítulo dedicado à América Central e do Sul, o painel afirma, com alta confiança, que os impactos climáticos se distribuem de forma desigual entre homens e mulheres e que as mulheres mais pobres têm menor capacidade de adaptação, o que aprofunda desigualdades de gênero já existentes.O problema, portanto, não está no gênero em si. Está na estrutura social que transforma gênero, raça, renda, deficiência e território em capacidades desiguais de escapar, reagir e reconstruir.Foto: Reprodução | Instagram @living.the.tiny.dream Leia também: 1.Sob El Niño, primavera deve ter calor, seca e tempestades severas 2.Em meio à onda de calor, Paris proíbe consumo de álcool Quando a água sobe, o cuidado também sobeAs enchentes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul expuseram essa dimensão. Além da perda de moradias e infraestrutura, houve violência contra mulheres nos abrigos e sobrecarga no cuidado familiar depois do desastre. Em abril de 2026, durante o IV Congresso Internacional do Ministério Público, em Brasília, a subprocuradora-geral da República Luiza Frischeisen, coordenadora da Câmara de Meio Ambiente e Patrimônio Cultural do MPF, afirmou que nos abrigos “ocorreram situações de violência sexual” e que o Ministério Público teve de atuar também na segurança dessas pessoas.É um efeito climático que quase não aparece nos balanços. A ponte destruída está na fotografia aérea. A rodovia interrompida entra na conta econômica. A escola fechada também pode ser contabilizada. Já as horas que alguém passa cuidando de crianças porque a escola deixou de funcionar dificilmente chegam ao relatório de danos.O mesmo vale quando saúde, transporte, abastecimento de água ou assistência social falham. Parte do serviço que a infraestrutura pública prestava migra para dentro das casas. E, ali, não encontra uma divisão neutra do trabalho.Ilustração do livro de educação ambiental que explica sobre os solos. Foto: Divulgação | FealqA análise do Geledés sobre mulheres negras, o Plano de Ação de Gênero e a Política Nacional de Cuidados parte de uma pergunta que serve a qualquer plano de adaptação: quem cuida quando a casa alaga? Dela decorre uma consequência prática, que proponho como princípio: infraestrutura de cuidados também é infraestrutura de resiliência climática. Leia também: 1.Imagens mostram como nível do mar pode afetar cidades brasileiras 2.Aliança propõe Soluções Baseadas na Natureza para cidades brasileiras Isso muda o que significa preparar uma cidade. Adaptação não é só canalizar córregos, conter encostas, ampliar a drenagem e instalar sistemas de alerta, medidas indispensáveis. Inclui creches, unidades de saúde, transporte acessível, assistência social, abrigos seguros, proteção contra a violência e redes comunitárias capazes de funcionar durante a emergência. Talvez este seja um dos pontos cegos mais persistentes do debate climático: tratamos a infraestrutura social como algo separado da física, quando, num desastre, uma depende da outra.Nem todas as mulheres correm o mesmo riscoFoto: iStock“Mulheres” não é uma categoria homogênea. Uma mulher branca de renda alta, com carro, seguro residencial e a possibilidade de deixar temporariamente uma área de risco, vive um evento extremo em condições muito diferentes das de uma mulher negra da periferia que depende do transporte público e sustenta filhos ou outros familiares. Uma rota de evacuação que serve a quem caminha pode simplesmente não servir a uma pessoa com deficiência.Em coluna publicada no Brasil de Fato em agosto de 2026, integrantes do Movimento Feminista Inclusivass relatam, a partir do projeto Por Todas Nós, que mulheres com deficiência atingidas pelas enchentes gaúchas precisaram escolher entre salvar a própria vida e tentar resgatar cadeiras de rodas, próteses e aparelhos auditivos. Dois anos depois, segundo as autoras, muitas dessas tecnologias assistivas ainda não foram substituídas.Não se trata, portanto, de uma disputa para saber quem sofre mais. A questão é outra: quais desigualdades já estavam instaladas quando a chuva chegou?Eventos climáticos tiraram cerca de 745 mil crianças da escola no Brasil, em 2025. Foto: UNICEF Leia também: 1.De ervas medicinais a reflorestamento, mulheres lideram soluções climáticas 2.Mulheres relatam maior insegurança financeira no Brasil O conceito de justiça climática parte desse deslocamento. Em vez de tratar o aquecimento global apenas como problema físico, feito de gases de efeito estufa, temperatura média e milímetros de chuva, ele pergunta como riscos, responsabilidades e capacidade de proteção estão distribuídos. Em artigo de maio de 2026, Ciléia Pontes, do Inesc, argumenta que as estruturas econômicas que produziram a crise ambiental foram erguidas sobre desigualdades de raça, gênero e classe. Por isso, raça e gênero não são temas laterais da política climática. Fazem parte de sua arquitetura.Durante muito tempo, parte da literatura e da comunicação climática retratou as mulheres quase só como “grupo vulnerável”. O próprio IPCC, no resumo técnico do relatório do Grupo de Trabalho II, inclui as mulheres entre os agentes de mudança social, também com alta confiança.Em muitos territórios do Sul Global, são elas que lideram movimentos comunitários, redes de solidariedade, a produção local de alimentos e a defesa do território. Frequentemente conhecem os riscos do lugar em que vivem num nível de detalhe que mapas técnicos não alcançam.As quilombolas de André Lopes Fia e Zélia Pupo. Foto: Bianca Tozato | ISAReconhecer esse saber, porém, não pode significar transformar a resiliência feminina em mais uma obrigação. Há uma diferença entre reconhecer conhecimento e naturalizar sobrecarga. Mulheres não deveriam precisar ser infinitamente resilientes porque as instituições públicas falharam.A discussão começa a entrar na governança climática. Na COP30, realizada em Belém em novembro de 2025, os países adotaram o Plano de Ação de Gênero de Belém, que vale de 2026 a 2034, com revisão intermediária prevista para 2029. O plano se organiza em cinco áreas prioritárias, entre elas a participação e a liderança das mulheres, a implementação com perspectiva de gênero e o monitoramento. É o documento que orienta o trabalho da Convenção do Clima para incorporar gênero às políticas climáticas.O desafio agora é menos de discurso e mais de orçamento: transformar compromissos internacionais em planejamento urbano, defesa civil, saúde, moradia, transporte e adaptação.O Brasil tem uma peça que pode servir a essa engrenagem. A Política Nacional de Cuidados, instituída pela Lei nº 15.069, de 23 de dezembro de 2024, reconhece o cuidado como direito e prevê a corresponsabilidade entre Estado, famílias, comunidade e setor privado. Entre seus objetivos está combater as desigualdades de gênero, raça, etnia, renda, deficiência e território no acesso ao cuidado. Falta saber se, e como, ela chegará aos planos municipais e estaduais de adaptação. Política de cuidados também pode ser política climática. Leia também: 1.‘Vote pelo Clima’ une eleitores ao combate à emergência climática 2.Greenpeace capacita jovens das periferias em justiça climática Adaptar cidades é sustentar a vidaSegundo o relatório Gender Snapshot 2024, da ONU Mulheres, as mudanças climáticas podem empurrar até 158 milhões de mulheres e meninas para a pobreza até 2050, 16 milhões a mais do que o total de homens e meninos. É uma estimativa para 2050, não uma medição, e números dessa escala podem soar distantes. O cotidiano ajuda a traduzi-los.Globalmente, a maioria das medidas de adaptação são inadequadas em sua profundidade, escopo e velocidade. Foto: Gustavo Nacht | UnsplashA pobreza climática pode começar quando uma mulher deixa de trabalhar porque a creche fechou depois de uma enchente. Quando perde renda para acompanhar um familiar doente durante uma onda de calor. Quando precisa andar mais para conseguir água. Quando a casa destruída não é reconstruída porque ela não tem crédito ou documentação. Quando existe um abrigo, mas ele não é seguro.Nesses momentos, gênero e clima deixam de ser duas agendas postas lado a lado. Já estavam juntas.A pergunta da adaptação climática, então, não é só quantos quilômetros de drenagem uma cidade construiu ou quantas sirenes instalou. É também se, na próxima emergência, haverá escola, transporte, saúde, abrigo, proteção e redes de cuidado funcionando, e sobre quais ombros recairá o trabalho quando tudo isso falhar.Uma cidade preparada para o clima não é apenas a que consegue conter a água. É a que consegue sustentar a vida quando a água chega.Colunistas CicloVivo: Neste espaço, especialistas de diversas áreas compartilham opiniões e pontos de vista, que não necessariamente refletem o posicionamento do CicloVivo.The post A crise climática tem gênero porque o cuidado também tem appeared first on CicloVivo.