247 – Candidato à Presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) continuou exercendo a advocacia durante a campanha eleitoral e apresentou uma petição ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) em 14 de outubro, data em que participou de um comício em Porto Alegre (RS) e votou remotamente na proposta que prevê o fim da escala de trabalho 6×1. Segundo reportagem publicada nesta sexta-feira (23) pelo jornal Folha de S.Paulo, o parlamentar representa um empresário que também mantém entre seus advogados Willer Tomaz, amigo do candidato e investigado pela Polícia Federal em um inquérito que apura suspeitas de lavagem de dinheiro. O caso tramita no Superior Tribunal de Justiça, sob relatoria da ministra Daniela Teixeira. A atuação de Flávio Bolsonaro envolve uma disputa societária na Simas Industrial de Alimentos, fabricante de balas e pirulitos. O senador ingressou no processo em 2022 como advogado de Mário Gadelha Simas Filho e passou a assinar as manifestações encaminhadas à Justiça. Willer Tomaz também integrava a defesa do empresário e, conforme os registros processuais, não teve sua representação formalmente revogada.Petição ao STJ no dia da votação da escala 6×1O senador conciliou compromissos eleitorais, atividades legislativas e a atuação profissional como advogado em 14 de outubro, quando participou de um evento de campanha na capital gaúcha. Naquele dia, o senador registrou presença na sessão do Senado por volta das 20h30 e participou remotamente da votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que estabelece o fim da escala 6×1.Às 23h23, o candidato protocolou uma manifestação no processo que tramita no STJ, em nome de seu cliente Mário Gadelha Simas Filho. O documento, encaminhado à ministra Daniela Teixeira, relatora do caso, contesta embargos de declaração apresentados pela parte adversária. O senador solicitou que a magistrada rejeitasse o recurso. A movimentação processual demonstra que Flávio manteve atividades de seu escritório de advocacia durante a disputa presidencial, mesmo diante dos compromissos políticos relacionados ao segundo turno.Escritório recebeu R$ 3,3 milhões A Simas Industrial de Alimentos aparece como o segundo maior cliente do escritório Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia. Entre janeiro de 2023 e dezembro de 2024, a empresa recebeu três notas fiscais da banca jurídica, que somaram R$ 3,3 milhões.O presidenciável da extrema direita criou o escritório em 2021 e figura como único sócio nos registros da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). O cadastro profissional não apresenta funcionários contratados formalmente pela banca. O endereço registrado corresponde à residência do senador em Brasília. A legislação brasileira permite que parlamentares exerçam a advocacia, mas estabelece restrições à representação de interesses em causas que envolvam entes públicos, empresas estatais, sociedades de economia mista, autarquias e concessionárias de serviços públicos. O processo relacionado à Simas envolve uma disputa entre integrantes da sociedade empresarial. Faturamento de R$ 13,7 milhõesO escritório do candidato presidencial registrou receitas de milhões de reais durante o período em que ele exercia o mandato no Senado. A banca emitiu pelo menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais entre janeiro de 2023 e julho de 2026. A administração do escritório está sob responsabilidade de Letícia Caetano dos Reis, irmã do contador Alexandre Caetano dos Reis.A Polícia Federal aponta que Alexandre mantém participação societária com o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, em uma empresa offshore sediada nas Ilhas Virgens Britânicas.As conexões empresariais mencionadas nas investigações colocaram pessoas ligadas à administração do escritório de Flávio entre os nomes examinados em apurações que envolvem o setor financeiro e atividades empresariais. Os dados de faturamento representam os valores registrados em documentos fiscais da banca e não demonstram, isoladamente, irregularidade na prestação dos serviços advocatícios.Flávio Bolsonaro e Willer TomazA proximidade entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz ultrapassa a atuação dos dois profissionais na defesa de um mesmo cliente. Os investigadores da Polícia Federal examinam relações financeiras e empresariais entre o senador e o advogado em um inquérito que apura possíveis práticas de lavagem de dinheiro.A investigação identificou registros segundo os quais Flávio Bolsonaro possuía acesso como usuário master a uma conta bancária da Alcazar, uma das holdings de Willer. Esse tipo de autorização permite realizar operações e administrar funcionalidades da conta, conforme os poderes atribuídos pela instituição financeira.Os documentos analisados pela PF também registram que, em maio de 2025, houve uma solicitação para retirar o nome de Flávio da conta. Segundo a investigação, o pedido constitui um “elemento que indica que o senador permanecia vinculado à conta bancária, ao menos sob a perspectiva operacional, até aquela data”. O senador contestou essa interpretação em manifestação anterior, na qual declarou que “nunca manteve conta tendo como usuário master o sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas”.Viagens das famílias A Polícia Federal também identificou registros da convivência pessoal entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz. Os dois participavam de encontros sociais e viagens acompanhados de familiares. Investigadores localizaram no celular do advogado fotografias do senador e documentos relacionados a ele.Parte das viagens envolveu passagens aéreas adquiridas pela Cathedral Holding, empresa que controla integralmente a Rede Loto, proprietária da casa de apostas BestBet. A participação da holding no custeio de deslocamentos realizados pelas famílias passou a integrar os questionamentos sobre a relação entre o senador e o advogado.Ao responder às informações sobre os voos, a campanha presidencial afirmou que Flávio mantém exclusivamente uma relação de amizade com Willer. “Associar essa afinidade pessoal a suposições de irregularidades é mera ilação, sem qualquer fundamento nos fatos”, declarou a assessoria do senador.A defesa sustenta que a convivência entre as famílias não representa evidência de participação do candidato em atividades empresariais irregulares.Willer nega irregularidades e vínculo bancário com o senadorA assessoria de Willer Tomaz também contestou as suspeitas apresentadas na investigação policial e afirmou que os negócios do advogado cumprem as exigências legais. “Todas as empresas e participações do advogado são lícitas, identificadas em registros públicos e informadas em sua declaração de imposto de renda”, declarou a defesa em nota sobre o inquérito.Os representantes de Willer também rejeitaram a existência de estruturas financeiras ocultas e negaram que Flávio Bolsonaro tenha exercido qualquer controle sobre contas bancárias das empresas.“Não há sócios ocultos, contas não declaradas nem patrimônio escondido. A Rede Loto, integralmente detida pela Cathedral, nunca lançou operação de apostas. O senador Flávio Bolsonaro jamais teve acesso ou poderes sobre conta de qualquer empresa do advogado. relação entre os dois é de amizade entre famílias, e amizade não é crime”, afirmou a nota.A manifestação contrasta com os registros examinados pela Polícia Federal, que apontam a existência de uma autorização de acesso bancário associada ao nome do senador. Os investigadores buscam esclarecer a natureza dessas relações e verificar se houve movimentações financeiras que justifiquem o aprofundamento das apurações.