Inteligência artificial: «Quando dependemos de um único motor de crescimento, é como se estivéssemos apoiados numa só perna». (Kristalina Georgieva, FMI)

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A IA já está a ajudar a economia mundial a resistir às consequências das guerras e ao encarecimento da energia, mas depender cada vez mais desse investimento também cria vulnerabilidades. Esta foi uma das principais mensagens das reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, realizadas entre 12 e 18 de outubro, em Banguecoque, na Tailândia.No balanço apresentado a 17 de outubro, Kristalina Georgieva, diretora-geral do FMI, reconheceu o papel do investimento em IA no crescimento, mas deixou um aviso: «Quando dependemos de um único motor de crescimento, é como se estivéssemos apoiados numa só perna», afirmou, numa tradução do original. A intervenção está disponível no balanço oficial do encontro.O diagnóstico é desenvolvido na Global Policy Agenda, publicada a 13 de outubro sob o título Navigating an Uncertain World. O documento apresenta uma economia que tem superado os choques melhor do que o esperado, mas onde o crescimento permanece modesto e desigual, a inflação continua a exercer pressão e os governos dispõem de menos recursos para responder a novas dificuldades.Leia também: A revolução já começou nos computadores. Agora chega à economia, onde EUA e Europa jogam com cartas diferentes Uma economia entre a guerra e o investimento em IAO FMI identifica duas forças que estão a atuar em sentidos opostos. As guerras no Médio Oriente e na Ucrânia perturbam cadeias de abastecimento, aumentam os preços das matérias-primas e agravam a incerteza. Em contrapartida, o avanço da inteligência artificial está a estimular o investimento e o comércio, com potencial para aumentar a produtividade.A previsão de crescimento mundial para 2026 apresentada no documento é de 3,1%.Esse resultado, porém, esconde diferenças importantes. Os exportadores de energia não diretamente afetados pelos conflitos e as economias integradas nas cadeias tecnológicas têm conseguido uma maior proteção. Os países importadores de energia, com menor margem financeira e pouca participação no investimento tecnológico, enfrentam dificuldades acrescidas.As tensões geopolíticas também estão a reorganizar relações comerciais e decisões de investimento. Para o FMI, estas diferenças podem aprofundar a distância entre países e aumentar as desigualdades dentro de cada economia. O risco de o entusiasmo com a IA não corresponder aos resultadosO Fundo reconhece o potencial da tecnologia, mas alerta para as consequências de uma eventual correção dos mercados associada ao investimento em IA. Uma redução das valorizações pode levar a um recuo do investimento e produzir efeitos mais amplos sobre a economia e o sistema financeiro.A agenda recomenda maior atenção ao endividamento e à exposição financeira ao setor tecnológico. Defende também que os testes de resistência das instituições financeiras contemplem cenários de quedas dos preços dos ativos, energia mais cara e condições de financiamento mais restritivas.Os ciberataques surgem como outra ameaça. O FMI recomenda reforçar a comunicação de incidentes, a supervisão e as defesas operacionais, num contexto em que a digitalização aumenta a importância da continuidade dos serviços financeiros. O documento descreve riscos a prevenir. Não apresenta uma correção dos mercados ou uma crise financeira como acontecimentos inevitáveis. Inflação e taxas de juro continuam a limitar as respostasO aumento dos preços da energia e dos alimentos dificulta o combate à inflação. Ao mesmo tempo, a subida das rendibilidades da dívida soberana em economias avançadas aumenta a pressão sobre as contas públicas e pode encarecer o financiamento de países emergentes e em desenvolvimento.Segundo o documento, a dívida pública mundial continua a subir, aproximando-se de 100% do PIB global. As necessidades de despesa também aumentam, entre envelhecimento da população, defesa, alterações climáticas e investimento tecnológico.Perante estas pressões, o FMI defende planos orçamentais credíveis de médio prazo, melhor administração fiscal e uma revisão das prioridades da despesa. Os ajustamentos devem preservar o investimento essencial e a proteção social.Nas crises de custo de vida, a instituição recomenda apoios temporários e dirigidos às famílias vulneráveis, para proteger quem mais precisa sem consumir desnecessariamente os recursos públicos.Para os bancos centrais, a prioridade continua a ser a estabilidade dos preços. As decisões sobre taxas de juro devem depender da inflação, da exposição aos choques energéticos e das condições de cada economia. O FMI reforça ainda a importância da independência destas instituições e de uma comunicação clara sobre as suas decisões. Emprego: preparar as pessoas para a transiçãoA adoção de novas tecnologias pode aumentar a produtividade, mas também alterar funções, deslocar trabalhadores entre setores e agravar desigualdades. Por isso, a agenda coloca a requalificação dos trabalhadores e o desenvolvimento de competências entre as prioridades. O Fundo defende políticas que facilitem a mobilidade e apoiem as pessoas durante as transições profissionais. A orientação passa por criar condições para que consigam adaptar-se a novas funções e oportunidades.A adoção da inteligência artificial exige também investimento em infraestruturas digitais, energia sustentável e competências. O objetivo, sublinha o documento, é garantir que os ganhos de produtividade se traduzam numa melhoria alargada das condições de vida.No balanço das reuniões, Georgieva salientou a necessidade de cooperação entre governos, empresas de IA e outros intervenientes para gerir os riscos da tecnologia e proteger pessoas e negócios. Europa: integrar mercados e melhorar as condições para investirA agenda identifica uma oportunidade específica para a União Europeia: uma maior integração bancária e a redução das barreiras entre países, acompanhadas por reformas que promovam o dinamismo empresarial e a inovação.Segundo a investigação citada pelo FMI, este conjunto de mudanças poderia aumentar o PIB da União Europeia em até 4% no longo prazo. Trata-se de um ganho potencial associado às reformas, não de uma previsão de crescimento anual.Entre as recomendações mais amplas estão a simplificação de regras e obrigações administrativas, o reforço da concorrência, o acesso ao financiamento e sistemas fiscais que apoiem o investimento e a inovação. Imagem destaque: FMIO conteúdo Inteligência artificial: «Quando dependemos de um único motor de crescimento, é como se estivéssemos apoiados numa só perna». (Kristalina Georgieva, FMI) aparece primeiro em Revista Líder.