Faltam treze dias para as eleições intercalares nos Estados Unidos e, nas sondagens mais recentes, dois democratas estão à frente, por margens curtas, em duas das corridas que mais pesam na luta pelo Senado: Abdul El-Sayed, no Michigan, e James Talarico, no Texas, um estado que não elege um democrata para um cargo estadual desde 1994.O contexto favorece, em teoria, quem está fora do poder. Os republicanos têm maiorias estreitas nas duas câmaras, o partido do presidente costuma perder terreno nestas eleições e a aprovação de Trump desceu a mínimos históricos. Para tomar o Senado, os democratas precisam de ganhar, em termos líquidos, quatro lugares, e no final de abril lideravam as sondagens nacionais para a Câmara dos Representantes por cerca de seis pontos. A corrida continua aberta, num mapa em que a impopularidade do presidente e a subida dos preços tornam competitivos estados que Trump venceu com folga em 2024.É neste tabuleiro, estreito e escarpado, que se movem os nomes deste texto. Zohran Mamdani não está em nenhum boletim de voto a 3 de novembro, mas é a sua vitória em Nova Iorque que serve de molde, e de aviso, a quem vem a seguir.O molde de QueensMamdani tinha 33 anos e era praticamente desconhecido quando se lançou na corrida à presidência da Câmara de Nova Iorque. Nas primárias democratas de 24 de junho de 2025 bateu o antigo governador Andrew Cuomo; confirmada a contagem do voto preferencial, a diferença foi de 12 pontos percentuais. Em novembro, a eleição geral deu-lhe 50% dos votos, contra 41,4% de Cuomo e 7,7% do republicano Curtis Sliwa, com mais de dois milhões de votantes, a maior afluência numa eleição municipal desde 1969. Tornou-se o primeiro presidente de Câmara muçulmano da cidade e o mais jovem em mais de um século, depois de Trump ter ameaçado intervir na cidade e prender e deportar o candidato caso ganhasse.Foi uma campanha de arrebatamento, de ruas cheias e promessas escritas a giz grosso: congelar as rendas, tornar os autocarros rápidos e gratuitos, criar creche universal. Meses depois da posse, o saldo é desigual, mas convém contá-lo com a régua direita.A diretiva mais cumprida foi a das rendas. A 25 de junho, a Junta de Orientação de Rendas aprovou por 7 votos contra 1 aumentos de zero por cento, em contratos de um e de dois anos, para cerca de um milhão de apartamentos de renda estabilizada, a partir de outubro. É a primeira vez que o congelamento abrange contratos de dois anos. Mamdani nomeou a maioria dos nove membros da junta, e a decisão não passou sem contestação: uma representante dos senhorios demitiu-se, dizendo que o resultado estava decidido à partida, e está prevista uma batalha judicial. O lobby imobiliário classificou a votação como uma decisão que ignorou os dados do próprio conselho.Na creche, o avanço é mais palpável. O programa 2-K, para crianças de dois anos, arrancou este outono com pouco mais de duas mil vagas, a que se candidataram mais de 5.700 famílias. A 19 de outubro, a autarquia e a governadora Kathy Hochul anunciaram mais 10.000 lugares a partir do outono de 2027. A Câmara de Nova Iorque disponibiliza os dados. Quem paga, em boa parte, é o Estado: Hochul comprometeu 73 milhões de dólares para as primeiras vagas e 425 milhões no ano seguinte. Os críticos apontam o custo: o Manhattan Institute, um think tank conservador, calculava aos cem dias cerca de 36.500 dólares por criança e por ano no projeto-piloto, uns 13.000 acima do que os pais pagam no mercado privado.Os autocarros gratuitos ficaram pelo caminho, pelo menos este ano: o próprio Mamdani admitiu que não acontecerão em 2026. E quanto a Trump, o homem que o tratava por «comunista» recebeu-o na Sala Oval a 21 de novembro de 2025, num encontro que se centrou mais nos objetivos comuns do que nas diferenças. Em fevereiro houve novo encontro, sem anúncio prévio, sobre habitação, que Mamdani descreveu como produtivo.Um médico contra uma máquinaA 4 de agosto, Abdul El-Sayed, antigo responsável de saúde pública em Detroit, venceu as primárias democratas do Michigan por cerca de 15.000 votos, aproximadamente um ponto percentual, frente à deputada moderada Haley Stevens, num resultado que demorou quase doze horas a confirmar. Fez campanha a pedir menos dinheiro na política, alívio económico e um sistema público de saúde universal, o «Medicare for All». Disse ter enfrentado uma máquina e vencido 70 milhões de dólares de gastos de grupos externos; Stevens reconheceu a derrota e apoiou-o.O argumento de Stevens era a elegibilidade: defendia que teria mais hipóteses de derrotar o republicano Mike Rogers nas eleições gerais. Uma sondagem de finais de julho, encomendada por um sindicato de professores e por uma associação empresarial, parecia dar-lhe razão, atribuindo-lhe dois pontos de vantagem sobre Rogers e colocando El-Sayed sete pontos atrás. Mas Stevens já não é a candidata democrata. É El-Sayed quem enfrenta agora Rogers, e as sondagens mais recentes sugerem uma corrida muito mais renhida do que aquela que os números de julho antecipavam.Três sondagens divulgadas entre 5 e 7 de outubro, junto de prováveis votantes, dão vantagem a El-Sayed: 46% contra 41%, 49% contra 48% e 48% contra 47%. Só a primeira coloca a diferença fora da margem de erro. Uma sondagem da Marist divulgada a 21 de outubro confirma uma corrida competitiva, com apenas dois pontos a separar os candidatos entre prováveis votantes.Rogers, antigo deputado, já fora o candidato republicano em 2024 e perdera para a senadora Elissa Slotkin por menos de 20.000 votos. Tem o apoio de Trump e chamou extremista ao adversário. O Michigan é um estado de margens que se medem em milhares, e as duas campanhas sabem-no.O tom endureceu. Na véspera do primeiro debate, Trump escreveu na Truth Social que El-Sayed «remonta aos tempos da Jihad», chamou-lhe «extremista radical» e «simpatizante de terroristas» e tratou-o por «Mohammed». El-Sayed, nascido nos Estados Unidos e que seria o primeiro muçulmano no Senado, respondeu que Trump usa o seu nome e a sua fé para distrair os eleitores do que as suas políticas fazem à bomba de gasolina, ao supermercado e ao médico. No debate de 8 de outubro, segundo a Al Jazeera, Rogers insistiu em ataques que pareciam centrar-se na identidade muçulmana do rival, enquanto na política externa ficaram frente a frente quem quer manter a ajuda a Israel (Rogers) e quem quer pôr-lhe fim (El-Sayed). A estratégia de El-Sayed, diz a AP, passa por reunir uma coligação democrata que se fraturou nas primárias e por chegar a independentes e a quem votou em Trump.O seminarista e o procuradorJames Talarico tem 36 anos, é seminarista presbiteriano e antigo professor do ensino básico, e só entrou na corrida ao Senado em setembro do ano passado, ainda pouco conhecido no Texas. A 3 de março derrotou a congressista Jasmine Crockett nas primárias democratas, numa disputa que reacendeu o debate sobre elegibilidade e em que gastou em televisão mais de quatro vezes o que gastou a rival até ao final de fevereiro. Ambos garantiam ser a melhor aposta num estado que Trump ganhou por quase 14 pontos em 2024. Talarico ofereceu uma política progressista com raiz na fé cristã e crítica da influência dos bilionários.Do outro lado, o procurador-geral Ken Paxton derrotou o senador John Cornyn, no cargo desde 2002, na segunda volta das primárias republicanas, a 26 de maio, com cerca de 64% dos votos, depois de Trump o apoiar na última semana. Paxton chega a novembro com uma folha de serviços que a campanha democrata explora sem pudor. Foi indiciado em 2015 por fraude de valores mobiliários, num caso que terminou com um acordo com a acusação, com pagamentos de restituição e sem confissão de culpa Em 2023 foi alvo de impeachment na câmara baixa do Texas e acabou absolvido pelo Senado estadual de todos os 16 artigos. Talarico chama-lhe «o político mais corrupto da América»; Paxton diz que o adversário é «o radical mais extremo que os democratas já nomearam». Em agosto, a campanha de Talarico pediu a um tribunal que tornasse públicos depoimentos de Paxton num litígio sobre investimentos.As sondagens descrevem um empate. A da Fox News, feita entre 24 e 28 de setembro, dá 51% a Talarico e 49% a Paxton, dentro da margem de erro de três pontos; 53% dos inquiridos dizem recear que Talarico seja demasiado liberal e 51% que Paxton esteja demasiado próximo de Trump. O custo de vida é o primeiro tema: quem diz estar a ficar para trás prefere Talarico por 32 pontos, quem diz estar a ganhar prefere Paxton por 48. Outra, divulgada a 7 de outubro por um instituto republicano, dá 47% a 44% a favor do democrata. Sondagens posteriores mantêm a disputa renhida: a Universidade de Houston encontrou Talarico à frente por dois pontos, 48% contra 46%, numa pesquisa realizada entre 10 e 14 de outubro; a média de sondagens compilada pela RealClearPolitics também lhe atribuía uma vantagem curta em meados de outubro. Trump esteve em Denton a 1 de outubro, num comício que juntou a celebração da indústria americana à campanha por Paxton.O medo de TrumpO fator Trump atravessa as três histórias, mas pesa de maneira diferente em cada uma. No campo republicano, é a força que decide primárias: o apoio chegado na última semana ajudou Paxton a afastar um senador de quatro mandatos, o mesmo Paxton que, em 2023, teve Trump a pressionar os senadores estaduais para o absolverem. Para quem tem de enfrentar eleitores republicanos, a lição é demasiado legível para precisar de legenda.Em novembro, porém, a proximidade pode custar. Mais de metade dos prováveis votantes texanos da sondagem da Fox diz recear que Paxton esteja demasiado perto do presidente e a NPR nota que há republicanos a perguntar se, e quando, o super PAC MAGA Inc. gastará para apoiar candidatos vulneráveis como ele. No Michigan, Rogers faz equilíbrios: precisa de mobilizar republicanos sem Trump no boletim e de disputar moderados, e rompeu com o presidente em duas questões de peso nas últimas semanas. O Brookings sublinha que os republicanos no Congresso pouco fizeram para se distanciar de Trump, o que torna estas eleições um referendo ao presidente, e que a vantagem democrata nas sondagens costuma crescer à medida que a votação se aproxima.Há também o outro medo, o de quem o enfrenta. Mamdani foi ameaçado antes de ganhar e apertou a mão ao presidente depois. Não é capitulação nem guerra: é a aposta em que se pode negociar com quem se critica, sem trocar de convicções à porta. Os candidatos de 2026 ainda não sabem se terão de a fazer.Os republicanos têm os seus argumentos. A polarização mantém a aprovação de Trump relativamente estável, com pequenas oscilações, o mapa do Senado continua a favorecê-los e uma oscilação nacional como a de 2018 renderia hoje aos democratas 23 lugares na Câmara, não os 41 de então.O que fica por decidirAté 3 de novembro, a questão é saber se a contestação a Trump que atravessa o debate nacional se traduzirá nas urnas. El-Sayed e Talarico venceram primárias exigentes, mas têm agora de chegar a eleitores que raramente escolhem candidatos como eles. No Texas, nenhum democrata vence uma eleição estadual desde 1994; no Michigan, a última corrida ao Senado foi decidida por menos de 20.000 votos. Pelo meio ficam as sondagens, as margens de erro e um Presidente que, mesmo quando não está no boletim, continua a fazer parte da escolha. Nova Iorque mostrou que um nome improvável pode ganhar uma cidade. Falta saber se o Michigan e o Texas, feitos de outras geografias e de outras impaciências, deixam passar o mesmo recado.O conteúdo Mamdani, El-Sayed e Talarico: três nomes, um Trump atravessado na garganta aparece primeiro em Revista Líder.