Refugiados: «Não são só mão de obra», lembra Isabel Roth

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O que levaria consigo se tivesse apenas alguns segundos para abandonar a sua casa? A carteira, os documentos, os medicamentos? E como recomeçaria se chegasse à rua sem dinheiro, sem abrigo e com um telemóvel sem bateria?Foi com este exercício que Isabel Roth abriu a sua intervenção na Leadership Summit Portugal, convidando a audiência a aproximar a realidade das pessoas deslocadas da sua própria vida.«A única coisa que separa a vossa vida da dessas pessoas são as circunstâncias. E, infelizmente, as circunstâncias podem mudar a qualquer momento», afirmou a responsável de Alianças Estratégicas da Portugal com ACNUR, parceiro nacional da Agência das Nações Unidas para os Refugiados. A pergunta seguinte tornou o cenário mais difícil: «E o que fariam se essa situação perdurasse por anos?»Assista ao momento completo aqui.Isabel Roth – Forced Displacement, the Path to Emergency Protection and ResilienceIntegração de refugiados também beneficia a economiaA responsável destacou ainda o contributo das pessoas refugiadas para as comunidades de acolhimento. Entre quem é obrigado a fugir há professores, fisioterapeutas, estudantes, vendedores e administradores, lembrou.Estamos a falar de pessoas que somam. Elas querem somar.Para ilustrar o impacto da integração profissional, Isabel Roth citou o estudo realizado pela Deloitte para o ACNUR sobre os refugiados ucranianos na Polónia. A análise estimou um contributo equivalente a 2,7% do PIB polaco em 2024, enquanto a taxa de emprego dos refugiados ucranianos em idade ativa passou de 61% para 69% num ano.«Os refugiados não são só mão de obra», sublinhou. Além das competências profissionais que transportam consigo, «também são empreendedores» e «também são consumidores», contribuindo para a produtividade, a procura e a atividade económica.Para Isabel Roth, investir na integração é, assim, uma responsabilidade social com benefícios económicos. Mas a dimensão humana permanece no centro: «Estamos a falar sobre o tipo de sociedade que queremos construir.»Quando fugir é apenas o princípioNo final de 2025, havia 117,8 milhões de pessoas deslocadas à força devido a perseguições, conflitos, violência, violações dos direitos humanos e acontecimentos que perturbavam gravemente a ordem pública, segundo os dados do ACNUR divulgados em 2026. Para Isabel Roth, compreender esta realidade exige olhar para o que fica interrompido quando alguém é obrigado a fugir: a escola, o trabalho, as relações e os planos para o futuro.«Muita coisa acontece em cinco anos ou deixa de acontecer», observou, antes de devolver a questão à audiência: «Quantas oportunidades profissionais tiveram nos últimos cinco anos?» A deslocação não se resume, por isso, ao momento da fuga. Pode transformar-se numa espera prolongada, durante a qual famílias inteiras dependem de apoio para satisfazer necessidades básicas e recuperar autonomia.«Há milhões de pessoas que tinham vidas perfeitamente normais e que, de uma hora para outra, passam a depender de ajuda para alimentar os filhos, para conseguir abrigo, para reconstruir as vidas do zero», sublinhou.Leia também: «Não há pessoas especiais». Na Ucrânia, diz Diana Dayub, «somos todos humanos» Responder à emergência exige preparaçãoA capacidade de resposta às crises foi outro dos pontos centrais da intervenção. Isabel Roth defendeu que a resiliência das sociedades depende da preparação anterior à emergência: planeamento, treino, investimento e organizações capazes de mobilizar recursos rapidamente. «Vocês, como lideranças modernas, sabem que o imprevisível é incontornável», afirmou.Foi neste contexto que apresentou o trabalho do ACNUR, desde a mobilização de equipas e bens essenciais até ao registo das pessoas deslocadas, à disponibilização de abrigos e ao apoio monetário às famílias mais vulneráveis.Mas a resposta imediata é apenas uma parte da missão. «O trabalho do ACNUR vai muito além», salientou Isabel Roth, apontando os programas de educação, qualificação profissional, ensino de línguas e assistência jurídica como instrumentos para reconstruir vidas.O objetivo, explicou, é criar condições para que as pessoas possam «viver com autonomia, com dignidade», incluindo enquanto aguardam a possibilidade de regressar a casa voluntariamente e em segurança. O que pode mudar com o apoio de uma empresa?Para mostrar como uma parceria empresarial pode produzir efeitos em várias áreas, Isabel Roth apresentou o exemplo de uma empresa que decide apoiar a construção de um poço em Moçambique. O acesso a água potável pode reduzir as longas deslocações de mulheres e crianças, diminuir a exposição a situações de violência e libertar tempo para estudar, trabalhar ou cuidar da família. «As crianças passam a ter mais tempo para irem para a escola», exemplificou. As mulheres podem dedicar mais tempo à geração de rendimento e aos cuidados dos filhos.Na sua perspetiva, estas iniciativas devem contribuir para uma mudança duradoura. Não se trata apenas de responder à necessidade do momento, mas de permitir que as pessoas «possam continuar a sonhar» e tenham condições para trabalhar pelo futuro que desejam para si e para as suas famílias.Isabel Roth encerrou a intervenção com uma reflexão sobre os critérios que orientam o progresso. O futuro, defendeu, não será determinado apenas pela inteligência que formos capazes de criar. «Vai ser moldado principalmente pelos valores que elegermos para guiarem a nossa vida e a das nossas organizações.» Uma escolha que, concluiu, «continua a ser uma responsabilidade profundamente humana». Aceda à galeria de imagens completa aqui.Todos os conteúdos da cimeira estão disponíveis na Líder TV.O conteúdo Refugiados: «Não são só mão de obra», lembra Isabel Roth aparece primeiro em Revista Líder.