Mistério de Vênus: por que o “irmão” da Terra destruiu a própria Lua no início do Sistema Solar

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Um estudo liderado pelo astrofísico Stephen R. Kane, da Universidade da Califórnia em Riverside, e publicado no The Astrophysical Journal, analisou a evolução de maré de um hipotético satélite em Vênus. Enquanto a Terra abriga a Lua a mais de 380 mil quilômetros de distância, Vênus gira de forma retrógrada a cada 243 dias terrestres e não possui nenhum satélite natural.A pesquisa demonstrou que o desaparecimento de uma lua venusiana é uma consequência direta das forças de maré e do freamento da rotação do planeta, dispensando a necessidade de um segundo impacto gigante para arrancar o corpo celeste do espaço.A estabilidade de um satélite depende da relação entre a rotação do planeta e o movimento orbital da lua. Quando o período de rotação do planeta se torna mais lento que o tempo de revolução do satélite, o chamado raio síncrono expande-se e ultrapassa a órbita da lua.Nesses casos, a atração gravitacional deixa de empurrar o satélite para fora e passa a puxá-lo em direção ao planeta. A lua entra em uma espiral de desaceleração até ultrapassar o Limite de Roche — situado a 2,85 raios venusianos —, onde a própria gravidade de Vênus despedaça a estrutura do satélite. Leia Mais Colisão gigantesca virou sistema de Netuno "do avesso", revela James Webb A superfície da Lua sofreu um violento encontro com um cometa ou um asteroide e possui uma enorme cicatriz de batalha para provar isso Via Láctea engoliu uma outra galáxia menor há cerca de 11,8 bilhões de anos A diferença em relação ao sistema Terra-LuaNo caso do sistema Terra-Lua, a rotação veloz do nosso planeta transfere momento angular para o satélite, fazendo com que ele se afaste gradualmente a uma taxa de 3,8 centímetros por ano.Em Vênus, a força exercida pela lua sobre o planeta supera a maré solar por um fator de 3 milhões de vezes, convertendo o satélite no principal responsável pela redução da velocidade de rotação venusiana.Satélites com massa equivalente ou superior a duas vezes a massa da Lua desintegram-se em prazos entre 33 milhões e 1,7 bilhão de anos. Pela física do modelo, se Vênus emergiu do seu impacto de formação com um período de rotação superior a 16,1 horas, qualquer satélite formado ao seu redor iniciou a trajetória caindo em direção ao planeta, colidindo em menos de 1 milhão de anos.Simulações de impactos moleculares indicam que as colisões que deram origem a Vênus geraram rotações iniciais acima de 12 horas, posicionando o planeta exatamente na zona de destruição tidal.Pistas na atmosfera e a Missão DAVINCIA colisão e a reacreção do satélite despedaçado ocorreram nos primeiros centenas de milhões de anos de Vênus, enquanto a superfície do planeta ainda se encontrava em estado fundido ou em intensa atividade vulcânica. Por essa razão, não restaram crateras visíveis dessa colisão primordial na superfície atual.No entanto, restos desse corpo celeste podem ter deixado marcas químicas definitivas na camada gasosa do planeta. A missão DAVINCI, da NASA, enviará uma sonda para realizar medições in situ da atmosfera de Vênus durante sua descida.A análise detalhada da abundância de gases nobres e razões isotópicas permitirá verificar a presença de silicatos e voláteis entregues pela destruição de um antigo satélite natural.*Publicado por Beto Souza da CNN Brasil