Como os engenheiros de Roma “rasgaram” as montanhas dos Alpes para criar a primeira grande rede de transportes do planeta

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O Império Romano construiu e integrou uma rede viária terrestre de 299.171 quilômetros cobrindo mais de 5,27 milhões de quilômetros quadrados na Europa, Norte da África e Oriente Médio.Para garantir a circulação de carroças e veículos de tração animal, os engenheiros romanos mantiveram 90,57% das estradas com inclinações abaixo do limite de 16% de elevação – equivalente a 9,09 graus.Na travessia dos Alpes, a inclinação média das vias foi mantida em 2,68 graus, valor inferior ao registrado em outras cadeias montanhosas da Antiguidade.A constatação integra um estudo quantitativo de alta resolução espacial publicado na revista científica Nature Communications por pesquisadores da Universidade de Aarhus e instituições parceiras.Infraestrutura e cortes na rocha nos AlpesA manutenção de aclives suaves na região alpina exigiu intervenções físicas diretas na geografia. Enquanto nas formações dos Montes Cantábricos a inclinação média das vias atingia 4,98 graus (com máximas médias de 11,26 graus) e nos Pireneus alcançava 3,14 graus, os caminhos alpinos apresentaram limites mais baixos de subida.Para viabilizar a passagem pelo relevo íngreme, os agrimensores (gromatici) utilizaram os vales longitudinais e passos naturais da região. Nos trechos onde a topografia era desfavorável, a infraestrutura incluiu a abertura de cortes em rocha viva, construção de muros de contenção, terraplenagem e a perfuração de túneis, como os registrados no setor do Vale de Aosta. Leia Mais Com R$ 5 bi em investimentos, PR lidera ranking de rodovias em concreto Debêntures incentivadas em transportes somam R$ 145 bi desde 2020 Pescador mergulha e encontra surpreende naufrágio com ânforas de 2 mil anos Sinuosidade e comparação com rodovias modernasApesar da reputação histórica de retidão, as vias romanas ajustavam-se ao terreno para evitar declives acentuados. A medição de sinuosidade — razão entre a distância real percorrida e a linha reta em trechos de 1 quilômetro — apresentou média global de 1,048 para as estradas do império.Em comparação, as rodovias modernas na mesma extensão territorial possuem média de 1,024, sendo mais retas por disporem de tecnologia para modificação do solo em larga escala.As rotas romanas mantiveram alinhamentos retilíneos predominantemente em áreas de planície, como no noroeste da Europa e no Vale do Po, enquanto as zonas montanhosas exigiram traçados sinuosos e curvas em ziguezague (switchbacks).Conexão com a malha viária contemporâneaA análise espacial indica uma correlação moderada de 0,46 entre a localização das estradas romanas e a densidade das rodovias atuais. Modelos de regressão espacial apontam que 61% da variação do traçado moderno em determinadas regiões continentais ainda se relaciona com a estrutura viária romana.Essa permanência é observada em centros urbanos da Europa Ocidental que se desenvolveram a partir de antigos assentamentos e entrepostos comerciais do império.