Uma fábrica de rapaduras, uma oficina que resolveu o problema dos freios na descida da serra e uma pequena estofaria de sofás e bancos de carro. Estes foram os pontos de partida simples que deram origem às três companhias reunidas nesta quinta-feira (22/10) no painel “Gigantes da Indústria”, no Palco Conhecimento da Mercopar: DaColônia, Randoncorp e Cavaletti. A Mercopar, a maior feira de inovação industrial da América Latina, é uma realização do Sebrae RS e do Sistema FIERGS e segue até sexta-feira (23/10) no Centro de Feiras e Eventos Festa da Uva, em Caxias do Sul (RS).A mediação foi de Juliana Ferreira Borges, que coordena a Carteira de Indústria do Sebrae. Ela lembrou que o foco da instituição são os pequenos negócios, mas que atuar com grandes empresas no desenvolvimento da cadeia de valor é uma das estratégias para torná-los competitivos. Juliana citou ainda a Jornada de Inovação da Indústria, realizada no ano passado pelo Sebrae com o Sistema Indústria, que apontou como grandes desafios a transição ecológica, a resiliência e a transição digital, e as pessoas como diferencial para enfrentá-los.Willian Freitas, diretor da DaColônia e vice-presidente do Sindicato das Indústrias de Alimentação e Bebidas do RS (SIAB-RS), representa a terceira geração da empresa, fundada em 1962 em Santo Antônio da Patrulha a partir da produção de rapadura. Hoje, a indústria tem cerca de 900 colaboradores.Para preparar lideranças e reter talentos, ele destacou a autonomia, o apoio à formação, a escuta dos colaboradores e a valorização de quem já está na casa quando surgem oportunidades de crescimento. “O maior desafio é estar presente, porque, com profissionais que vêm de fora, é preciso estar muito próximo para que a cultura da empresa seja bem absorvida”, afirmou.Willian também falou da cadeia de fornecedores: o melado usado na produção vem, em sua maioria, de pequenos produtores rurais de Santo Antônio da Patrulha, que fornecem à empresa há gerações, e a DaColônia investe em parceria com o Sebrae para apoiar a certificação e a qualidade desses fornecedores. Para o amendoim, a empresa compra principalmente de fornecedores estruturados de São Paulo.Ricardo Escoboza, vice-presidente executivo para a América do Sul e COO da vertical de Autopeças da Randoncorp, apresentou o grupo, que, segundo ele, fatura cerca de R$ 13 bilhões e tem aproximadamente 17 mil funcionários no mundo. Ele lembrou que a empresa nasceu há 77 anos em Caxias do Sul a partir da capacidade de resolver um problema de clientes, ao aplicar o freio pneumático em caminhões que desciam a serra, e que se reinventou desde então: há dez anos, cerca de metade do faturamento vinha de semirreboques, e hoje são 23%, com as autopeças respondendo por 65%.Escoboza também destacou o papel dos fornecedores. As montadoras clientes cobram segurança da informação, qualidade e inteligência artificial para manter a competitividade diante do avanço dos asiáticos, e esse nível de exigência precisa chegar a toda a cadeia. O mesmo vale para a sustentabilidade: segundo Escoboza, mais de 80% das emissões estão no chamado escopo 3, ligado aos fornecedores. “Sozinho a gente não faz tudo. É todo um ecossistema”, resumiu.Mário Luiz Cavaletti, um dos fundadores da Cavaletti, de Erechim, contou que a empresa começou em 1974 como uma pequena estofaria familiar e se tornou uma indústria de cadeiras profissionais com mais de 800 colaboradores, produção média de 3,5 mil a 4 mil cadeiras por dia e cerca de 1,5 mil lojas parceiras no Brasil. Ele citou um modelo, desenhado por um designer europeu, que já vendeu mais de 1,2 milhão de unidades em seis anos.Segundo Mário, a empresa verticalizou a produção, mantém um laboratório de ensaios auditado pelo Inmetro e ergonomista própria, foi pioneira na região em ginástica laboral e energia solar, e preserva relações de longo prazo com fornecedores e funcionários.Para o empresário, sustentabilidade e inovação precisam ser conduzidas pela liderança. “Tem que ser de cima para baixo: tem que vir do líder, do acionista, do proprietário”, disse. Ele avaliou que o grande desafio da indústria moderna é usar mais a capacidade intelectual das pessoas e o mínimo possível da física, e contou que a Cavaletti já praticamente não tem atividades repetitivas.Do melado ao aço, do estofado ao algoritmo, o painel deixou o mesmo recado: todo gigante começa pequenino, e constrói seu lugar de destaque com trabalho com trabalho e planejamento.