No dia 31 de agosto, ou seja, uma semana antes do quarto dia de Rock in Rio, um cinema ali próximo à Cidade do Rock exibiu um compacto do show de Elton John no Estádio do Flamengo em 25 de novembro de 1995. Era a primeira vez que o cantor se apresentava profissionalmente no Rio de Janeiro — uma estreia que, apesar da pompa do personagem, não escapou às críticas. Segundo O Globo, sobraram músicas do tematicamente denso “Made in England”, então capítulo mais recente de sua discografia, e Elton “passou a primeira hora e meia tocando baladas desconhecidas”. Fala sério.Ele ficaria 14 anos sem voltar ao país.Reaberta a porteira em 2009, o Brasil voltou a figurar no itinerário das turnês — incluindo duas participações nas edições de 2011 e 2015 do Rock in Rio —, mas, depois de 2017, ano de uma chuva torrencial na data carioca, Elton não voltou mais. Quando sua turnê de despedida dos palcos foi anunciada, em 2018, o itinerário não continha um compromisso sequer no Brasil. Muita “falta de sacanagem”, para usar a terminologia de um meme de outrora.Mas quando o Rock in Rio deste ano lhe pediu para tocar, Elton disse “sim” imediatamente. “Amo meus fãs brasileiros, eles têm um lugar especial em meu coração”, destacou o cantor em nota.Com a lembrança da sessão de cinema ainda fresca, é possível reconhecer sobre o Palco Mundo alguns rostos familiares: o do guitarrista Davey Johnstone, âncora da banda de apoio de Elton, da qual faz parte desde 1971; e os dos percussionistas Ray Cooper e John Mahon. Completam a formação o veteraníssimo Nigel Olsson (bateria), Kim Bullard (teclados) e Matt Bissonette (baixo).Se em 1995 sobraram críticas em relação ao setlist, em 2026 duas horas e quinze são pouco para o cantor, que acumulou hits obrigatórios suficientes para montar uma discografia paralela apenas com aquilo que não poderia ficar de fora. Há os provocativos, os dançantes, os românticos, os contemplativos e os taciturnos; há canções que pedem coro de estádio e outras que parecem ter sido escritas para caber inteiras dentro de um piano.Contrariando a expectativa de uma abertura “pra cima”, Elton começa a noite com a suíte “Funeral for a Friend / Love Lies Bleeding”, uma das demonstrações mais eloquentes de que seu repertório jamais coube inteiramente na categoria de balada. A faixa, que abre o clássico “Goodbye Yellow Brick Road” (1973), começa como uma espécie de réquiem instrumental, conduzido pelo piano e por atmosferas quase fúnebres, até desembocar no hard rock. É uma declaração de princípios.Ao vivo, até mesmo “I Guess That’s Why They Call It the Blues” ganha contornos mais roqueiros, com licks de guitarra ornamentando os versos e Davey Johnstone lembrando que, por trás do piano de cauda e das baladas que ajudaram a construir o mito, há uma banda de rock em pleno funcionamento. A pessoalíssima “The One” fala daquele encontro raro em que as peças finalmente se encaixam, da pessoa que seria “aquela” destinada a estar ao nosso lado. Para quem esperou quase uma década por esse reencontro com o ídolo, a metáfora serve em dobro.Uma cena da cinebiografia “Rocketman” (2019) no telão embala “Honky Cat” — e, já que falamos no homem-foguete, não é difícil adivinhar qual música vem logo depois. Bastam os primeiros acordes para que a Cidade do Rock assuma o papel de coro em “Rocket Man (I Think It’s Going to Be a Long, Long Time)”. Elton, por sua vez, sorri enquanto a plateia toma para si uma parte considerável do espetáculo.O roteiro abre espaço também para momentos de pura improvisação. “Levon” descamba para uma jam, com o riff de “Day Tripper”, dos Beatles, inserido no arranjo como uma piscadela para a genealogia roqueira que Elton jamais fez questão de esconder. “Sorry Seems to Be the Hardest Word” e “Someone Saved My Life Tonight” aparecem em sequência, recuperando o clima de “Captain Fantastic and the Brown Dirt Cowboy” e conduzindo o público de volta ao Elton mais confessional.Quando chegam as palmas de “Sad Songs (Say So Much)”, fica difícil não perceber a dimensão quase litúrgica que certas canções assumiram. Não são mais apenas músicas de Elton John: pertencem também aos incontáveis momentos em que uma canção parece saber exatamente o que dizer quando faltam palavras. É quando a fronteira entre artista e público se dissolve e o repertório deixa de ser propriedade de quem o escreveu para se tornar parte da biografia de quem o ouviu.Ao agradecer ao público, Elton resume a relação com o Brasil de maneira singela: “Um dos melhores países para mim. Obrigado por terem sido parte tão importante da minha história.”Nós que agradecemos, Elton.Setlist Elton JohnFuneral for a Friend/Love Lies BleedingBennie and the JetsI Guess That’s Why They Call It the BluesPhiladelphia FreedomThe OneTiny DancerSacrificeHonky CatRocket Man (I Think It’s Going to Be a Long, Long Time)Levon (extendida com direito ao riff de “Day Tripper”, dos Beatles)Sorry Seems to Be the Hardest WordSomeone Saved My Life TonightHave Mercy on the CriminalCandle in the WindGoodbye Yellow Brick RoadSad Songs (Say So Much)Don’t Let the Sun Go Down on MeCrocodile RockSaturday Night’s Alright for FightingI’m Still StandingBis:Cold HeartSkyline PigeonYour SongQuer receber novidades sobre música direto em seu WhatsApp? Clique aqui!Clique para seguir IgorMiranda.com.br no: Instagram | X/Twitter | Facebook | YouTube | Bluesky | Threads | TikTok.O post Elton John volta ao Rock in Rio para mais um capítulo de uma história de amor com o Brasil apareceu primeiro em Igor Miranda.