O câncer ainda é uma doença predominantemente associada ao envelhecimento e continua sendo mais frequente em pessoas mais velhas. No entanto, nas últimas décadas, temos observado um aumento no número de diagnósticos em adultos com menos de 50 anos.Pessoas com menos de 50 anos foram a única faixa etária a apresentar aumento sustentado da incidência de câncer entre 1995 e 2021, e alguns dos aumentos maBrazil Healthis expressivos têm sido observados abaixo dos 40 anos. Este crescimento ocorre em diferentes países e envolve diversos tipos de câncer, como os de cólon e reto, mamBrazil Healtha, endométrio, rim, pâncreas, estômago e tireoide. Leia Mais Seis tipos de cânceres abdominais somam 74 mil mortes por ano no Brasil Estudo aponta mutação genética em 10% dos pacientes com câncer no Brasil Chico Pinheiro revela câncer colorretal: quais os riscos e tratamento Por que isso está acontecendo?Não existe uma causa única comprovada e, provavelmente, estamos diante da combinação de diferentes fatores e exposições que começam desde fases mais precoces da vida.Entre as principais hipóteses estão o aumento da obesidade e das alterações metabólicas, o sedentarismo, mudanças na alimentação, o consumo de álcool e maior exposição a determinados poluentes e substâncias ambientais.Câncer em jovens aumenta e intriga a medicina; veja o que dizem especialistas | CNN Sinais VitaisOutro campo em investigação é o microbioma intestinal (conjunto de microrganismos que habitam nosso intestino). Estudos identificaram diferenças na composição e no metabolismo das bactérias intestinais de pacientes com câncer colorretal diagnosticado antes dos 50 anos. Alimentação, obesidade e uso de antibióticos podem modificar o microbioma. Ainda não se sabe, porém, se essas alterações contribuem diretamente para o desenvolvimento da doença ou se são, em parte, consequência dela.Estamos apenas diagnosticando mais?Essa é uma explicação possível para parte do aumento, mas não para todo o fenômeno. O maior acesso a exames e métodos diagnósticos mais sensíveis pode aumentar a detecção de alguns tumores, como ocorre particularmente no câncer de tireoide.Entretanto, também observamos pacientes jovens diagnosticados já com doença avançada, e não apenas tumores encontrados incidentalmente em exames de rotina. Além disso, há aumento da incidência de tumores para os quais não existe rastreamento populacional nessa faixa etária, como o câncer de pâncreas. Isso reforça a hipótese de uma mudança epidemiológica, e não apenas de sobrediagnóstico ou antecipação do momento em que o câncer seria descoberto.E a genética?Quando um câncer ocorre em uma pessoa jovem, uma das preocupações é a possibilidade de predisposição hereditária. Síndromes como Lynch, polipose adenomatosa familiar, Li-Fraumeni e alterações hereditárias em BRCA1 e BRCA2 podem favorecer o aparecimento precoce de determinados tumores.Contudo, essas alterações são responsáveis por apenas uma parcela dos casos e não justificam, sozinhas, todo o aumento de casos nessa faixa etária. A identificação dessas alterações genéticas hereditárias continua sendo importante porque permite o aconselhamento genético e a implementação de estratégias específicas de rastreamento para o paciente e seus familiares.O que esse fenômeno epidemiológico muda na prática?Um dos principais desafios está justamente no rastreamento. Adultos jovens estão fora das faixas etárias classicamente abrangidas pela maioria das recomendações de exames de rastreamento. No câncer colorretal, por exemplo, o rastreamento de indivíduos de risco habitual começa aos 45 anos. Antecipar exames para toda a população não parece uma solução sustentável, pois significaria incluir milhões de pessoas adicionais, com custos, riscos de procedimentos e investigações potencialmente desnecessárias para a maior parte desse grupo populacional.O caminho provavelmente será identificar melhor quais indivíduos apresentam maior risco e que poderiam se beneficiar de estratégias de rastreamento mais precoces. Ao mesmo tempo, sintomas persistentes em pessoas jovens não devem ser ignorados e devem motivar atendimento médico.Há ainda uma consequência particular do câncer nessa população: um diagnóstico aos 30 ou 40 anos pode repercutir durante décadas. Cirurgias, quimioterapia, imunoterapia e outros tratamentos podem afetar funcionalidade, fertilidade, sexualidade, planejamento familiar, vida profissional e saúde emocional. O impacto é médico, psicológico e social.Assim, compreender por que algumas gerações estão desenvolvendo determinados tipos de câncer mais cedo permanece como uma questão importante da oncologia. Ainda não temos uma resposta definitiva, mas entender melhor as causas desse fenômeno poderão permitir estratégias de prevenção e detecção precoce mais eficazes.*Texto escrito por Dr. Gustavo Benfatti Olivato (CRM-SP 199828 / RQE 123808), Oncologista Clínico