O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou deflação de 0,32% em agosto, após avançar 0,07% em julho. O resultado veio abaixo da mediana de queda de 0,29% apontada pelo Broadcast e levou a inflação acumulada em 12 meses de 4,44% para 4,22%.Na avaliação dos economistas, o dado apresentou uma composição favorável, com desaceleração dos preços de alimentos, combustíveis e serviços. A leitura reforça as apostas de que o Banco Central poderá cortar a taxa Selic em 0,25 ponto percentual na reunião do Copom da próxima semana.Apesar das boas notícias, os analistas ponderam que parte da queda pode ser revertida já em setembro e que riscos envolvendo câmbio, petróleo, clima e política fiscal ainda recomendam cautela.Energia, combustíveis e alimentos derrubam o IPCAA principal contribuição negativa veio de Habitação, que recuou 1,87% diante da queda de 7,63% da energia elétrica residencial. O movimento refletiu o pagamento do bônus de Itaipu nas contas de luz.Também pesaram sobre o índice os grupos Transportes, com queda de 0,86%, e Alimentação e bebidas, que recuou 0,34%. As passagens aéreas caíram 13,17%, enquanto os combustíveis tiveram redução de 0,91%.Entre os alimentos, as principais quedas vieram da batata-inglesa, de 19,89%; da cenoura, de 11,22%; da cebola, de 11,07%; e do tomate, de 10,94%.Na direção oposta, Despesas pessoais avançou 1,30%, pressionado principalmente pelo aumento de 19,59% do cigarro. Sozinho, o item acrescentou cerca de 0,11 ponto percentual ao IPCA do mês.Serviços também perdem forçaPara Leonardo Costa, economista do ASA, a composição do IPCA foi benigna, com novos sinais de moderação da inflação de serviços e continuidade da normalização dos preços de bens industrializados após o choque recente do petróleo.A média dos núcleos, medidas que procuram retirar itens mais voláteis do índice, avançou 0,23% em agosto e acumulou alta de 4,35% em 12 meses.“O principal destaque qualitativo foi a leitura mais comportada da inflação de serviços, com destaque para o arrefecimento da alimentação fora do domicílio”, afirma Costa.A mesma melhora foi observada por Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos. Segundo ela, a inflação de serviços desacelerou de 5,86% para 5,47% em 12 meses. Já o núcleo que exclui alimentação e combustíveis passou de 4,57% para 4,45%.“Os dados da inflação de agosto trouxeram boas notícias pelo terceiro mês consecutivo, com a diminuição dos efeitos do choque de commodities e das pressões internas de demanda”, diz Kawauti.IPCA abre espaço para novos cortes da SelicPara Roberto Padovani, economista-chefe do banco BV, o IPCA confirma um ambiente de preços menos pressionados, influenciado tanto pelo comportamento de alimentos e energia quanto pela desaceleração da economia brasileira.“A gente vê os reflexos da desaceleração que a gente vê na economia brasileira. Então, o quadro é de inflação menos pressionada”, afirma.Padovani acrescenta que o resultado reforça a trajetória de convergência da inflação após o choque do petróleo registrado em março. Para o economista, trata-se de “um bom sinal também para o Banco Central, no sentido de poder continuar cortando os juros”.O ASA também avalia que, somado aos sinais de perda de força da atividade econômica, o IPCA de agosto reforça a expectativa de redução de 0,25 ponto percentual da Selic na próxima reunião do Copom.A Lifetime projeta que o ciclo de flexibilização poderá continuar nos encontros seguintes, embora em ritmo lento. “O BC deve manter a postura conservadora”, afirma Kawauti, citando as expectativas de inflação desancoradas e as pressões fiscais como obstáculos para cortes mais fortes.Parte da queda pode ser devolvida em setembroEmbora o resultado tenha sido favorável, o ASA alerta que parte da surpresa baixista pode ser revertida nos próximos meses. Isso porque a redução da energia elétrica provocada pelo bônus de Itaipu tende a gerar uma recomposição no IPCA de setembro.Mesmo assim, a instituição reduziu sua projeção para a inflação de 2026 de 5% para 4,8%, considerando também a manutenção dos subsídios aos combustíveis.Padovani destaca que ainda existem dúvidas sobre a velocidade de convergência do IPCA à meta de 3%. Entre os riscos estão o câmbio, o petróleo, as condições climáticas e os possíveis impactos da reforma tributária e de mudanças na escala de trabalho.“É uma convergência que vai se consolidando, mas há ainda muitas dúvidas em relação ao ritmo e à velocidade em que chega na meta de 3%”, conclui o economista do BV.