“Não tem dinheiro para todo mundo”: onde estão as oportunidades na crise de crédito

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A taxa de juros está acima de dois dígitos desde março de 2022, mantendo o custo de capital em um nível elevado e pressionando a saúde financeira de muitas empresas. Esse é um dos fatores por trás do número crescente de pedidos de recuperação judicial no país.Para entender o atual momento do crédito corporativo brasileiro e as possíveis oportunidades e riscos, o Outliers InfoMoney #194 recebe Alexandre Cruz, CEO e fundador da JiveMauá — gestora de investimentos alternativos com mais de 20 anos de mercado e R$ 27,4 bilhões de ativos sob gestão.“Até o ano passado, as carteiras de crédito dos bancos incumbentes e o mercado de capitais estavam suprindo o papel de dar liquidez às empresas”, afirma Cruz. “Agora, não mais. Não tem dinheiro para todo mundo.”Cruz explicou aos apresentadores do programa, Clara Sodré e Fabiano Cintra, o papel dos fundos de Special Situations — os special sits — e outras oportunidades no mercado de crédito privado.Do choque de liquidez à pane secaA combinação de subsídios generosos pós-pandemia com juros altíssimos por um período prolongado adiou os efeitos mais duros da crise de crédito — mas não os eliminou.“A gente teve um PIB que segurou, por um período de tempo, os efeitos dos juros nos pedidos de recuperação judicial ou extrajudicial, nas falências, nas dificuldades de pagar dívida”, diz Cruz.“Mas, desde o fim do ano passado, principalmente neste primeiro semestre do ano, nenhum tipo de medida conseguiu segurar as dificuldades das empresas para cumprir suas obrigações.”O diagnóstico de Cruz é sustentado por números.Bancos e mercado de capitais perdem fôlegoNo ano passado, os bancos incumbentes aumentaram suas carteiras de crédito tradicional em cerca de 9,2% — uma redução em termos reais, considerando a Selic em 14% mais spread.Neste primeiro semestre, o crescimento caiu para 8,1% a 8,2%. Ao mesmo tempo, as emissões do mercado de capitais — em veículos como CRIs, CRAs, notas comerciais e debêntures incentivadas —, que no ano passado compensavam a retração bancária, recuaram entre 12% e 14%.“Estamos numa situação em que nem os bancos incumbentes nem o mercado de capitais estão dando dívida suficiente para quem merece”, afirma.Veja mais: O preço do dinheiro subiu e “concorrência brutal” vai penalizar o Brasil, diz gestoraE também: Onda de recuperações judiciais faz fundos mirarem ganho de até 30% ao anoComo navegar na falta de liquidezA falta de liquidez muda o mercado de crédito privado.“Ponto de preocupação: o cliente precisa tomar muito cuidado com onde ele está em dívida, porque mesmo boas empresas podem acabar pedindo recuperação”, afirma Cruz. “Ponto de oportunidade: você pode entrar em bons negócios cuja dificuldade advém de o dia estar seco.”Nos fundos imobiliários, a estratégia da JiveMauá é buscar quem financia ativos estratégicos para essas companhias — sobretudo na área de logística.“Quando há um pedido de recuperação judicial de um inquilino, eu aumento a minha posição e vejo que a oscilação de preço, na verdade, é uma oportunidade para você ter um preço de entrada mais baixo e ter um dividend yield maior”, diz Cruz.O alerta dos bancos incumbentesNa linha de crédito privado da gestora, a família BossaNova, a estratégia é estruturar as próprias operações — em vez de comprar créditos originados por terceiros.A lógica é simples: quando um banco incumbente, com décadas de relacionamento e capilaridade, deixa de emprestar para uma grande empresa, isso é sinal de alerta.“Se existe algo que está sendo vendido no mercado pelos bancos de investimento, pelos bancos que já têm aquela informação, não é que tudo é ruim”, afirma. “Mas a gente tem muita desconfiança de que, se estivesse ainda muito bom, os próprios bancos incumbentes estariam emprestando e suprindo aquela demanda financeira.”O CEO da JiveMauá lista alguns dos casos recentes mais relevantes de eventos de crédito: GPA, Raízen, Oncoclínicas, Casas Bahia e Ambipar, somados a episódios anteriores como Americanas, Marisa, Unigel e AgroGalaxy.“Cada caso tem uma peculiaridade. Alguns são situações próximas de fraude ou fraude, outros se deveram à gestão, outros decorrem simplesmente da mudança da macroeconomia”, afirma.Ao estruturar as próprias operações, em vez de coinvestir em fundos de terceiros, a empresa busca descorrelação.“Se você tem um evento de crédito de empresas relevantes e os seus três, quatro fundos de crédito caem juntos, você não está diversificando”, afirma.O que passa na “prova” da JiveMauáA JiveMauá busca empresas cuja geração de caixa seja suficiente para pagar o serviço da dívida e ainda alguma amortização. Atendida essa condição, o resto é questão de prazo.“Precisa ter muita disciplina e precisa saber muito fazer a conta, entender o negócio do cliente, do empresário, muito na última linha do balanço, ou seja, quanto gera de caixa.”“Essa geração de caixa precisa ser suficiente para amortizar um pedaço da dívida e pagar o seu serviço com alguma tranquilidade. Está cada vez mais difícil de achar setores e empresas que conseguem passar nessa prova”, afirma Cruz.Infraestrutura — em áreas como tecnologia, cabeamento, data centers, concessões, energia e mobilidade — é o setor preferido da gestora nesse ambiente, por oferecer mais previsibilidade e ativos reais.Varejo, ao contrário, recebe mais cautela. Já no agro, mesmo após choques como a guerra na Ucrânia e a menor demanda chinesa, Cruz enxerga oportunidade.“Eu brinco que, quando a gente tem redução de crédito dos incumbentes, é igual a emagrecer de canetinha. Vai emagrecer? Vai, mas vai cortar gordura e vai cortar músculo.”“É muito difícil, em uma economia muito grande, com incumbentes muito grandes, você conseguir reduzir a carteira de crédito na medida certa das empresas e dos setores. Acaba sobrando oportunidade”, afirma o CEO da JiveMauá.Special sits ganham espaço na criseA terceira frente de atuação da JiveMauá — special situations, ou special sits — é onde Cruz se mostra mais otimista, ainda que com ressalvas sobre o timing ideal de entrada.Veja mais: Fundos ‘special sit’ podem brilhar em 2025, sinaliza diretor da XP; conheça o ativoE também: Special sits: investimentos especiais para pessoas especiais e outros segredos da BlueOakEle define o conceito de forma simples: “Ativo estressado é aquilo fora das condições normais de temperatura e pressão. A gente olha esse negócio quando ele tem um problema de posse, um problema trabalhista, uma penhora, uma discussão de posse, uma discussão ambiental”, afirma.Como os special sits entram nas empresasA estratégia se desdobra em três frentes complementares.A primeira é emprestar para empresas “com a água aqui no pescoço, mas que ainda respiram”, por meio de estruturas e garantias que viabilizem o alongamento da dívida.A segunda é comprar dívida corporativa já defaultada (NPL) com desconto, buscando recuperação via patrimônio pessoal do empresário avalista.A terceira combina as duas coisas: comprar créditos com desconto, injetar dinheiro novo e ajudar na própria reestruturação da companhia.“Muitas vezes, aqueles que trouxeram a companhia até o problema não são aqueles que vão tirar a companhia do problema”, observa Cruz, citando os casos Americanas e Casas Bahia como exemplos de reestruturação via conversão de dívida em participação acionária.O que realmente quebra uma empresaO ponto central da tese, segundo ele, é entender o que efetivamente quebra uma companhia.“O que quebra uma companhia é pane seca. É a falta de combustível na aeronave, dinheiro, caixa. O que quebra a companhia não é uma dívida impagável. Para a dívida impagável, existem ferramentas jurisdicionais que você consegue combinar para dividir os pesos da situação entre credor, companhia e acionistas.”“O que faz a companhia não conseguir seguir em frente é a falta de caixa para pagar fornecedores e funcionários. Para evitar a pane seca, você precisa de liquidez.”É essa liquidez, em um ambiente em que ela está escassa, que os fundos de special situations têm mandato para fornecer.O valor do diagnósticoCruz enfatiza que o timing de entrada em um ativo estressado exige paciência.“A gente gosta de investir com segurança de que o diagnóstico do problema está claro”, diz. “Isso às vezes demora um, dois, três, quatro, cinco, seis meses para acontecer.”A precificação de um investimento estima o pior cenário de geração de caixa da empresa após um pedido de recuperação judicial — considerando que, nessa situação, toda empresa perde clientes e fornecedores.“Você precisa ter uma gordura de perda para falar: com essa perda, eu ainda tenho um retorno protetivo”, diz Cruz.O executivo cita o caso da Foxx Haztec, reestruturada pela Jive e posteriormente listada como Orizon: a empresa saiu de R$ 80 milhões de geração de caixa para mais de R$ 1 bilhão em um intervalo inferior a cinco anos.“Nem todos os cenários vão ser a Orizon, mas nem todos vão ser piores”, afirma.Veja mais: Possível “tenbagger”? Por que XP vê a Orizon com potencial de retorno de 10 vezesE também: Títulos de longo prazo são armadilha ou o melhor investimento da próxima década?The post “Não tem dinheiro para todo mundo”: onde estão as oportunidades na crise de crédito appeared first on InfoMoney.