Estrangeiro não saiu do Brasil por eleição, mas para rebalancear carteira, diz gestora da Fator

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A forte saída de capital estrangeiro em agosto pode estar mais relacionada a um rebalanceamento das carteiras globais do que a uma mudança na percepção sobre os ativos brasileiros, na visão de Isabel Lemos, gestora de renda variável da Fator.Em agosto, o fluxo de saída atingiu o maior nível desde março de 2020, com a retirada líquida total de R$ 22,2 bilhões. Destes, R$ 18,1 bilhões foram apenas do mercado à vista. Ainda assim, o fluxo total continua positivo em cerca de R$ 11 bilhões.“Tem algumas pessoas que falam que o investidor gringo saiu por conta das eleições, citando até um relatório de uma casa estrangeira. Mas, na minha visão, acho difícil acreditar que o investidor de longo prazo, que vinha colocando dinheiro desde o ano passado, está demasiadamente preocupado com eleição”, afirmou Lemos, em entrevista ao Money Times.Vale lembra que, em 11 de agosto, o JP Morgan rebaixou a recomendação das ações brasileiras de compra para neutra. Por trás da mudança, o banco destacou a proximidade das eleições, deterioração do crédito e juros elevados por mais tempo. “Não é que não faz preço. Eleição, por si só, traz mais volatilidade para a bolsa brasileira, mas o estrangeiro de médio e longo prazo está comprando mais que isso”, acrescenta Lemos, destacando que não teve grandes mudanças estruturais no país desde o início do ano. Para ela, cenário fiscal, política monetária, diferencial de juros e composição das carteiras globais entram também na conta dos investidores. Fiscal é o gatilhoEmbora a corrida eleitoral não seja o principal fator de preço no mercado doméstico, Lemos avalia a melhora da percepção sobre o cenário fiscal brasileiro como um dos gatilhos para uma recuperação mais consistente da Bolsa. “Se tiver notícias nesse front do fiscal, seja do governo atual seja de propostas de outros candidatos, pode ser que o mercado comece a precificar uma melhora de cenário”, afirmou. “Claro que um novo governo sempre traz uma expectativa de novidade. Às vezes, essas novidades podem ser ruins, mas a tendência é que o mercado compre a ideia de que possa haver mudanças em relação ao que vem acontecendo e, principalmente, uma possível melhora no fiscal”, acrescentou Lemos. Embora não tenha uma projeção formal para o Ibovespa, Isabel Lemos destaca que o mercado pode antecipar rapidamente uma melhora de cenário. “Se tiver uma sinalização de alguma coisa boa, como algum ajuste fiscal, o mercado antecipa bastante o movimento”, disse.Segundo ela, olhando para dados históricos, seria possível pensar em retornos de 20% a 25% da Bolsa em relação aos níveis atuais, ainda que esses números não sejam considerados pelo Fator como uma previsão. “A gente não precisa que os juros caiam para alguém entrar [na Bolsa]. Mas a gente precisa que tenha uma melhora na perspectiva macroeconômica brasileira, principalmente do cenário fiscal”, reiterou. Brasil como diversificaçãoPara Isabel Lemos, o Brasil continua tendo características que podem atrair o capital estrangeiro. Um dos motivos é a percepção de que a bolsa brasileira é uma alternativa para a diversificação na carteira dos gringos.“O Brasil serve como diversificação à alta concentração do setor de tecnologia que existe nos mercados norte-americanos, já que o nosso índice é muito focado em bancos e em commodities”, afirmou. Segundo a gestora, essa característica pode favorecer o país especialmente em momentos em que investidores globais ficam menos confortáveis com a concentração em tecnologia.Além disso, Lemos destaca os valuations das companhias locais como outro atrativo. Na sua avaliação, as empresas brasileiras, de maneira geral, continuam negociadas a múltiplos abaixo de suas médias históricas. A carteira da FatorNa visão da Fator, os setores mais defensivos continuam oferecendo oportunidades em meio ao ambiente de juros elevados. A gestora mantém preferência por empresas de utilities, como energia elétrica, saneamento e gás, que combinam fluxo de caixa mais previsível com taxas internas de retorno reais consideradas atrativas.Os bancos também aparecem, mas de forma mais seletiva, com preferência por instituições que apresentam bons resultados e retorno sobre o patrimônio (ROE) elevado. Por outro lado, a Fator mantém uma postura mais cautelosa com o setor de consumo. Segundo Isabel Lemos, a gestora está praticamente sem exposição ao segmento diante dos efeitos dos juros altos, do endividamento de empresas e famílias, além da competição e dos resultados ainda pressionados.“Hoje estamos praticamente sem exposição a consumo. É um setor que sofre muito com juros altos, endividamento das empresas e das famílias e competição. Mas, se houver uma melhora do cenário macroeconômico, pode ser justamente um dos setores que mais vai andar”, afirmou Lemos.No caso de construção civil, a gestora tem preferência por algumas empresas específicas, principalmente as ligadas ao programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV).Em commodities, a visão é mais positiva em relação à geração de caixa das companhias, especialmente enquanto os preços do petróleo permanecem elevados. Lemos chama a atenção para a alta volatilidade do setor nos últimos meses em meio aos conflitos no Oriente Médio, além de um potencial impacto com a normalização do Estreito de Ormuz e consequente queda do petróleo.Em agosto, o fundo Div Ações teve retorno negativo de 1,92% em agosto, contra queda de 1,66% do índice Dividendos da B3 (IDIV). No acumulado do ano, o fundo acumula uma alta de 7,65%, ante 8,37% do IDIV.