Entre ter razão e ganhar, prefiro ganhar

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«Eu avisei.»«Eu bem disse.»«Se me tivessem ouvido…» Tinham razão. Parabéns. Mas perdemos todos. No futebol, por exemplo, posso criticar o meu clube e achar que vai perder. Mas, se ganhar, fico feliz. Não fico aborrecido por ter feito uma previsão errada. A realidade foi melhor do que aquilo que eu previa.Nas empresas, nem sempre funciona assim. Há pessoas que se agarram tanto às suas opiniões que deixam de querer resolver o problema. Passam a querer provar que estavam certas. E, a partir desse momento, já não estão a defender a empresa, o cliente ou a equipa. Estão a defender-se a si próprias.Uma decisão deixa de ser apenas uma decisão. Passa a fazer parte da identidade de quem a tomou. Alterá-la parece uma derrota, aceitar a ideia de outra pessoa parece uma perda de autoridade. Reconhecer que as circunstâncias mudaram parece falta de coerência. Por isso, continuam.Continuam com um procedimento ou uma escolha que não funciona apenas porque foram elas que decidiram. Continuam a discutir, não para chegar a uma solução, mas para que o outro lado admita que elas tinham razão.Eu prefiro que um serviço corra bem com a ideia de outra pessoa do que mal com a minha. Prefiro mudar uma decisão a tempo do que mantê-la apenas para parecer coerente. E, se alguém encontrar uma solução melhor do que aquela que eu tinha pensado, tanto melhor, o problema fica resolvido.Isto não significa não ter convicções. Nem significa mudar de opinião sempre que alguém discorda de nós. Há princípios que não estão em negociação, há riscos que não devem ser aceites e há decisões que têm de ser mantidas, mesmo quando são difíceis ou impopulares. Mas uma coisa são princípios. Outra coisa é o ego.Gerir uma empresa obriga-nos a decidir todos os dias com informação incompleta. Não sabemos tudo. Não controlamos tudo. Um cliente pode mudar de ideias, uma pessoa pode não aparecer, um fornecedor pode falhar, uma regra pode ser interpretada de outra forma e uma decisão que parecia evidente na segunda-feira pode já não fazer sentido na quinta.O estranho não é errarmos. Com tantas decisões, seria impossível acertar sempre. O estranho é percebermos que errámos e continuarmos apenas para não o admitir.Também já tomei decisões erradas, algumas porque não tinha toda a informação, outras porque avaliei mal uma pessoa ou uma situação. A questão não é construir a imagem de alguém que nunca erra. Essa pessoa não existe. A questão é o que fazemos quando a realidade começa a contrariar aquilo em que acreditávamos.Podemos ignorar os sinais, procurar justificações e esperar que os acontecimentos acabem por nos dar razão. Ou podemos olhar para o que está efetivamente a acontecer e corrigir enquanto ainda vamos a tempo. Mudar de opinião não apaga a decisão anterior. Mas pode evitar que um erro se transforme num problema muito maior.Quantas vezes não vemos, até em família ou com amigos, pessoas que começam por discordar sobre um assunto e, alguns minutos depois, já ninguém está verdadeiramente a discuti-lo. Estão a competir. Cada argumento serve apenas para responder ao anterior. Mesmo quando aparece uma solução razoável, ninguém a aceita porque isso seria deixar o outro ‘ganhar’.Entretanto, o problema continua em cima da mesa. Talvez devêssemos fazer mais vezes uma pergunta: «o que é que queremos realmente conseguir? Queremos resolver a reclamação ou provar que o cliente não tem razão? Queremos escolher a melhor solução ou fazer prevalecer aquela que apresentámos primeiro? Queremos que o projeto resulte ou queremos poder dizer, no final, ‘eu avisei’?»Para mim, o ‘eu avisei’ é um prémio muito fraco. É uma espécie de consolação para quem perdeu, mas conseguiu prever a derrota. Não tenho grande interesse nisso. Só quero ter razão quando ter razão ajuda a alcançar o resultado. Se estiver errado e as coisas correrem melhor do que eu esperava, ótimo. Se a ideia de outra pessoa funcionar melhor, usamos essa. Se for necessário recuar, corrigir ou recomeçar, fazemos isso.Porque uma empresa não ganha quando o chefe prova que estava certo. Não ganha quando alguém vence uma discussão numa reunião. E não ganha quando encontra o culpado perfeito para explicar aquilo que correu mal. Ganha quando resolve o problema, protege o que importa e consegue seguir em frente. E, no fim do dia, entre ter razão e ganhar, prefiro ganhar.O conteúdo Entre ter razão e ganhar, prefiro ganhar aparece primeiro em Revista Líder.