Mensagens de WhatsApp atribuídas ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e ao ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) mostram que os dois conversaram sobre a prisão do também ex-governador Sérgio Cabral. Os diálogos foram coletados pela Polícia Federal (PF) e obtidos pelo jornal Folha de S.Paulo.A conversa ocorreu na noite de 11 de novembro de 2022. Às 19h37, Castro enviou uma mensagem a Mendonça: “Amigo, preciso falar com urgência”. Em seguida, escreveu “caso Cabral” e encaminhou dois arquivos relacionados a pedidos de habeas corpus e alvará de soltura que seriam analisados pelo STF.Às 20h25, Mendonça respondeu com informações sobre o processo que havia determinado a prisão preventiva de Cabral. A decisão havia sido tomada pela 13ª Vara Federal de Curitiba, no âmbito da Operação Lava Jato.Depois da mensagem, o ministro afirmou: “ligo em alguns minutos”. Castro respondeu “ok”. Sete minutos depois, Mendonça encaminhou ao ex-governador um link para a página do STF com informações sobre o habeas corpus apresentado pela defesa de Cabral.Naquele momento, o caso era analisado pela Segunda Turma do STF, da qual Mendonça fazia parte.Mendonça votou pela soltura de CabralA conversa ocorreu enquanto o processo de Cabral estava em análise no STF. Em 24 de outubro de 2022, Mendonça havia pedido vista dos autos, depois de o relator do caso, ministro Edson Fachin, votar contra o recurso apresentado pela defesa do ex-governador.Dezessete dias após a conversa com Castro, em 28 de novembro, Mendonça devolveu o processo para julgamento. Em 9 de dezembro, votou pela revogação da prisão preventiva de Cabral.Na ocasião, o ministro apontou excesso de prazo na prisão e afirmou que a situação representava um “cumprimento antecipado de pena”.Cabral estava preso preventivamente havia cerca de seis anos. Em 16 de dezembro de 2022, a Segunda Turma do STF decidiu, por 3 votos a 2, revogar a prisão. O ex-governador passou a cumprir prisão domiciliar, com uso de tornozeleira eletrônica.Castro nega ter feito pedido a MendonçaAs mensagens não deixam claro qual era exatamente o interesse de Cláudio Castro na soltura de Cabral. Os dois ex-governadores não tinham uma relação política direta conhecida.Em nota, Castro afirmou que a relação com Mendonça sempre foi institucional e relacionada a assuntos de interesse público do Rio de Janeiro.O ex-governador também negou ter feito qualquer pedido relacionado a processos judiciais ao ministro ou a outros integrantes do STF.Segundo Castro, expressões como “amigo”, “parceiro” e “irmão” são formas de tratamento comuns no meio político e não significam necessariamente a existência de uma relação de amizade ou intimidade.Ele afirmou ainda que discutia a possibilidade de soltura de Cabral devido à relevância do caso para o estado, assim como fazia em outras situações consideradas sensíveis.Gabinete de Mendonça nega amizade com CastroDe acordo com a Folha de S.Paulo, o gabinete de André Mendonça disse que o ministro não mantém relação de amizade com Cláudio Castro. Segundo a assessoria, os dois se conheceram institucionalmente quando Mendonça ocupava o cargo de ministro da Justiça.A defesa do ministro também ressaltou que não há registro de tratativa sobre o mérito do processo mencionado nas mensagens.Em nota, o gabinete ponderou que magistrados são procurados por advogados, partes e terceiros por diferentes meios e que esses contatos não alteram a análise dos processos, feita com base no conteúdo dos autos.A assessoria ressaltou ainda que o voto de Mendonça no caso de Cabral é público, fundamentado e segue entendimento aplicado pelo ministro em casos semelhantes.Mensagens foram encontradas em operação da PFMendonça não é investigado na operação que levou à coleta das mensagens. Os diálogos foram obtidos pela PF durante a Operação Sem Refino, que teve Cláudio Castro como alvo.A operação foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, que determinou a retirada do sigilo da investigação. As conversas entre Castro e Mendonça, porém, continuam sob reserva.A investigação apura suspeitas relacionadas à atuação da Secretaria de Meio Ambiente do Rio de Janeiro na concessão de licenças para atividades da refinaria Refit.A atuação de Mendonça em processos envolvendo Castro também foi questionada pela PF em relatório interno utilizado por Moraes. A corporação apontou diferenças no tempo levado pelo ministro para analisar pedidos relacionados ao ex-governador e ao senador Jaques Wagner (PT-BA).Segundo a PF, um pedido de busca relacionado a Wagner foi analisado em nove dias, enquanto outro envolvendo Castro levou 75 dias.Castro foi alvo de uma operação relacionada a aplicações de mais de R$ 3 bilhões do Rioprevidência, fundo de pensão dos servidores do Rio, no Banco Master.