Belo Horizonte – Cercada por pedras e faixas de areia clara, uma cachoeira de 31 metros no Ribeirão do Onça já funcionou como uma espécie de “praia” para moradores da Região Norte de Belo Horizonte. Famílias nadavam, brincavam e passavam o dia às margens da água. Décadas de despejo de esgoto, lixo e ocupação urbana sem infraestrutura, porém, transformaram o local: hoje, a poluição e o mau cheiro afastam a população.Recuperar a cachoeira e permitir que os moradores voltem a “nadar, pescar e brincar” é uma luta iniciada há décadas. Neste sábado (12/9), o Festival da Onça reunirá moradores, artistas e movimentos sociais no mirante construído diante da queda d’água para mostrar o potencial do local e cobrar ações de despoluição.O Ribeirão do Onça integra uma bacia de cerca de 212 km², que abrange áreas de Contagem e BH. Com aproximadamente 38 km desde as cabeceiras até a foz, o curso atravessa as regiões Norte e Nordeste da capital e deságua no Rio das Velhas. Leia também Minas GeraisSem carro: influencer ensina a chegar de ônibus a cachoeiras de MG Minas GeraisMaior de MG, Cachoeira do Tabuleiro é reaberta ao público após 5 anos Minas GeraisVazamentos em série expõem perda de pessoal na Copasa, diz sindicato “É a maior cachoeira, com 31 metros de altura, em uma área urbana de uma capital. […] A gente pode pensar que ela tem vocação para ser um importante cartão-postal de BH. Assim como temos a Serra do Curral, a Lagoa da Pampulha e os edifícios da Praça da Liberdade, a Cachoeira do Onça pode ser nosso cartão-postal natural, por ser um elemento único na paisagem da cidade”, disse o professor Roberto Andrés, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), coordenador do projeto de extensão da Escola de Arquitetura que criou o festival.O Onça de 50 anos atrás“Existiam as matas, era muito mais preservado, pouquíssimos moradores no entorno, muitas nascentes, muitas nascentes mesmo”, recorda Sonia de Santos França, que acompanhou essa transformação de perto. Professora da Escola Municipal Secretário Humberto Almeida, no bairro Ribeiro de Abreu, e moradora do Baixo Onça há 50 anos, ela chegou à região em 1976, quando tinha 10 anos.Na época, havia fazendas na região, com criação de gado e produção de leite. Sônia lembra que atravessava a cachoeira por uma trilha para comprar leite ou visitar amigos e familiares. “Na cachoeira, a gente atravessava porque tinha uma fazenda. Tinha uma trilhazinha ali próximo para ir para o outro lado, comprar leite ou ir à casa dos amigos, dos familiares. Passava o dia e voltava”, contou.O perigo não era a poluição. “A mãe da gente ficava fiscalizando para não descer muito sozinho próximo ao rio por causa do perigo mesmo, de mato, de bicho, essas coisas todas”, disse. Fotografias das décadas de 50 e 60 mostram moradores se banhando no rio.7 imagensFechar modal.1 de 7Registros mostram moradores aproveitando o Ribeirão do Onça nas décadas de 1950 e 1960.Acervo Conselho Comunitário Unidos pelo Ribeiro de Abreu (Comupra)/ Divulgação2 de 7Registros mostram moradores aproveitando o Ribeirão do Onça nas décadas de 1950 e 1960.Acervo Conselho Comunitário Unidos pelo Ribeiro de Abreu (Comupra)/ Divulgação3 de 7Registros mostram moradores aproveitando o Ribeirão do Onça nas décadas de 1950 e 1960.Acervo Conselho Comunitário Unidos pelo Ribeiro de Abreu (Comupra)/ Divulgação4 de 7Registros mostram moradores aproveitando o Ribeirão do Onça nas décadas de 1950 e 1960.Acervo Conselho Comunitário Unidos pelo Ribeiro de Abreu (Comupra)/ Divulgação5 de 7Registros mostram moradores aproveitando o Ribeirão do Onça nas décadas de 1950 e 1960.Acervo Conselho Comunitário Unidos pelo Ribeiro de Abreu (Comupra)/ Divulgação6 de 7Registros mostram moradores aproveitando o Ribeirão do Onça nas décadas de 1950 e 1960.Acervo Conselho Comunitário Unidos pelo Ribeiro de Abreu (Comupra)/ Divulgação7 de 7Registros mostram moradores aproveitando o Ribeirão do Onça nas décadas de 1950 e 1960.Acervo Conselho Comunitário Unidos pelo Ribeiro de Abreu (Comupra)/ DivulgaçãoDo crescimento urbano à poluiçãoA relação dos moradores com a água foi mudando com o crescimento urbano sem infraestrutura, a ocupação desordenada e, principalmente, a falta de saneamento e de fiscalização. Com isso, a região se transformou.“O saneamento básico não existia. A gente teve frigoríficos e também uma empresa de curtume na região, que não tiveram nenhum controle fiscal nem ambiental nessa época, infelizmente. E aí jogaram tudo no rio. Era insuportável para a região, principalmente para quem morava mais próximo. Quando a gente passava, sentia o cheiro. Infelizmente, teve esse processo todo, primeiro de empresários e donos de frigoríficos que colocaram esse tipo de atividade lá.”Ela contou ainda que as nascentes foram sendo tampadas e, com o tempo, desapareceram. “Secaram todas porque esse papel de fiscalizar, de controlar a questão ambiental, não teve”.O professor Roberto Andrés, da UFMG, aponta dois fatores principais para a degradação: a falta de coleta e tratamento adequado do esgoto e a ocupação das margens por famílias sem acesso a outras opções de moradia. “Tem muito esgoto de casas que é jogado nos afluentes, nos córregos ou até diretamente no Onça. Isso é um prejuízo muito grande à saúde da população, além do mau cheiro”, afirma.Os impactos, porém, vão além da qualidade da água. A degradação também reduziu as possibilidades de lazer e afetou as áreas verdes do entorno. “Perder essa riqueza é perder sustentabilidade, lazer e um ar melhor. Essas matas também influenciam diretamente no microclima”, diz. Barracos às margens do Ribeirão do Onça mostram ocupação da área ao longo dos anos.Mudanças às margens do ribeirãoA luta pela preservação da região começou a se organizar melhor no fim da década de 1980, quando movimentos sociais ganharam força no país. Nas décadas seguintes, essa mobilização deu origem a grupos e iniciativas voltados diretamente para a recuperação do ribeirão.Entre eles está o Conselho Comunitário Unidos pelo Ribeiro de Abreu (Comupra), criado em 2001, que adotou o lema “Nadar, Pescar e Brincar”. Depois, surgiram outras frentes, como o “Deixe o Onça Beber Água Limpa”, criado em 2007.4 imagensFechar modal.1 de 4Festival do Onça 2024Bruno Figueiredo - Festival da Onca/ Divulgação2 de 4Festival do Onça 2024Bruno Figueiredo - Festival da Onca/ Divulgação3 de 4Festival do Onça 2024Bruno Figueiredo - Festival da Onca/ Divulgação4 de 4Poluição no Ribeirão do Onça, em BHBruno Figueiredo - Festival da Onca/ DivulgaçãoA mobilização contribuiu para preservar áreas verdes, recuperar nascentes e retirar quase mil famílias de locais sujeitos a enchentes. “Além de dar dignidade a elas, esse espaço pode ser transformado para permitir que o rio volte a correr em seu leito”, contou.Em 2014, começou a ganhar forma o Parque Ciliar Comunitário do Onça, projeto para transformar áreas sujeitas a enchentes em espaços verdes e de lazer às margens do ribeirão. A mobilização ganhou novo impulso em 2016, quando o bloco Tico Tico Serra Copo, um dos pioneiros da retomada do Carnaval de rua de BH, levou seu cortejo para lá. No ano seguinte, professores e estudantes da UFMG, com Roberto Andrés à frente, também passaram a realizar mutirões e intervenções em diferentes pontos.Bloco de Carnaval Tico-Tico Serra CopoA grande mudança, segundo Sonia, começa quando os próprios moradores passam a enxergar aquilo para além dos problemas. “Só saíam notícias ruins do bairro. Então, quem gostaria de morar num lugar ou ficar num lugar onde você não tem nada?”, questiona. Em 2024, parte das áreas recebeu melhorias da prefeitura, como pistas de caminhada, equipamentos de ginástica, parquinhos e novas árvores, mas o projeto não foi concluído.Poluição continuaApesar dos avanços na recuperação das margens, a qualidade da água continua sendo um dos principais desafios. O Comupra e o movimento Deixem o Onça Beber Água Limpa estabeleceram como meta que, até 2025, o ribeirão tivesse condições para “nadar, pescar e brincar”. O objetivo, porém, não foi alcançado.Roberto Andrés critica o ritmo das ações da Copasa para impedir que o esgoto chegue ao Onça e aos córregos que deságuam nele. O professor também questiona a distribuição de lucros aos acionistas enquanto, segundo ele, ainda há esgoto sem tratamento chegando à bacia. “Como você distribui lucro para o acionista sem fazer o seu dever de casa, que é interceptar o esgoto, captar e levar para a estação de tratamento?”, questiona.Para Andrés, com obras e investimentos, seria possível mudar esse cenário em poucos anos. “Fazendo os investimentos necessários, em três ou quatro anos é possível tirar todo o esgoto da bacia do Onça. É isso que precisa ser feito pela companhia de saneamento”, afirma.Festival da Onça 2025, em BHA cultura como ferramenta de mudançaO Festival da Onça surgiu em 2023, a partir da parceria entre esses movimentos que já atuavam pela recuperação do ribeirão e a UFMG. O evento passou a ocupar o Mirante da Cachoeira, inaugurado em 2024, criado em frente à queda d’água, reunindo cultura, lazer e ações de preservação da região.Neste ano, o festival chega à 3ª edição com uma programação que reúne arte, teatro e música. Entre os destaques estão a rapper e compositora belo-horizontina Sarah Sampp e o funkeiro MC Papo, conhecido nacionalmente pelo hit “Piriguete”, além de uma roda de samba.Para Débora Tavares, coordenadora de mutirões do Festival, a cultura funciona como uma forma de chamar atenção para a região e acelerar ações do poder público. “À medida que a gente coloca um holofote nessa demanda local e constrói um equipamento que precisa de manutenção, de acompanhamento de limpeza urbana e de infraestrutura, e pressiona para que essas ações sejam executadas, faz com que, de fato, as coisas aconteçam de uma maneira mais ágil e eficiente”, afirma.Neste ano, a programação prioriza artistas das regiões Norte e Nordeste de BH. “Buscamos reconhecer essas potências que estão ali e perfis que dialogassem com o que os moradores já estão acostumados, mas que também pudessem atrair o público da Grande BH, de quem não conhece o espaço”, explica Débora. Confira programação completa abaixo Ver esse post no Instagram Um post compartilhado por Festival da Onça (@festivaldaonca)A reportagem entrou em contato com a Prefeitura e com a Copasa e aguarda um posicionamento.