Morre Claudio Carsughi, ex-editor de Quatro Rodas, aos 93 anos

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O jornalista e engenheiro Claudio Carsughi faleceu nesta quinta-feira (10), aos 93 anos. Nascido na Itália e radicado no Brasil desde 1946, ele construiu uma das trajetórias mais coerentes e respeitadas da imprensa automotiva e esportiva. A partida encerra um longo capítulo do jornalismo técnico, período em que a precisão da engenharia encontrava espaço no rádio, na televisão e em veículos impressos.A família, originária de Arezzo e com passagem por Firenze, chegou ao porto do Rio de Janeiro após a Segunda Guerra Mundial e logo se instalou em São Paulo. A intenção inicial era permanecer apenas um ano, mas a adaptação transformou o Brasil em residência definitiva.Ele cursou Engenharia Civil na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e exerceu a profissão por pouco tempo. O jornalismo esportivo, que começou a praticar aos 13 anos escrevendo para o jornal italiano Corriere dello Sport, acabou se tornando a principal ocupação.–Cláudio Larangeira/Quatro Rodas Continua após a publicidadeA engenharia a serviço do produtoApós uma passagem pela revista Placar entre 1970 e 1975, Claudio Carsughi assumiu a área técnica e de avaliação de automóveis de QUATRO RODAS em julho de 1975, onde atuou também como editor a partir de dezembro de 1977, cargo que manteve até deixar a publicação em setembro de 1990. Sua formação politécnica garantiu uma abordagem muito mais analítica aos testes de pista. Ele não avaliava o carro apenas pelas impressões visuais, mas explicava as soluções de suspensão, o rendimento dos motores e o comportamento dinâmico.Primeiro teste do Volkswagen GolAcervo/Quatro Rodas Continua após a publicidadeCada número publicado no teste de um veículo dependia de medições rigorosas e de uma lógica comparativa sólida. Fez diversas reportagens históricas para a revista, começando por um comparativo entre Ford Belina, VW Brasília, VW Variant e Chevrolet Caravan. Testou o Fiat 147, primeiro dirigindo por 1.000 km, logo em seguida, com uma avaliação completa exclusiva.A reportagem mais emblemática, sem dúvidas, foi primeiro teste do país do então inédito Volkswagen Gol, capa da edição de maio de 1980 e realizado em uma operação secreta para manter o sigilo do carro até o lançamento. Para avaliar o sucessor do Fusca, Carsughi dirigiu o carro durante a madrugada em um roteiro rodoviário, para depois finalizar o teste na pista depois do amanhecer. Continua após a publicidadeO caso foi tão importante que, em 2022, a Volkswagen convidou o jornalista para dirigir o Gol Last Edition, edição de despedida do hatchback.Outro teste marcante foi do primeiro carro elétrico feito no Brasil, o Gurgel Itaipu. Algumas avaliações foram bem emblemáticas, como o comparativo das primeiras picapes compactas do país, e o teste exclusivo de uma perua do VW Passat feita por uma concessionária da marca.Não escreveu apenas testes. A QUATRO RODAS nº 199, de fevereiro de 1977, trouxe na capa a reportagem “Como viver com a gasolina a CR$ 7,00”, co-assinada por Édson Higo do Prado. Na época, o Brasil vivia, há algum tempo, os efeitos da crise do petróleo, iniciada em 1973, quando conflitos no Oriente Médio resultaram no primeiro choque do petróleo, que elevou o preço do barril de pouco mais de US$ 2 para até US$ 12. Continua após a publicidadeApesar de testemunhar a evolução da segurança e da eletrônica embarcada, sempre manteve uma postura crítica diante da automação. Fiel às próprias convicções, preferia os modelos com câmbio manual, pois argumentava que o controle da condução deveria estar nas mãos do motorista, sem a interferência de computadores na troca de marchas. Assine as newsletters QUATRO RODAS e fique bem informado sobre o universo automotivo com o que você mais gosta e precisa saber. Inscreva-se aqui para receber a nossa newsletter Aceito receber ofertas produtos e serviços do Grupo Abril. Cadastro efetuado com sucesso! Você receberá nossa newsletter todas as quintas-feiras pela manhã. O rigor técnico além das ruasA capacidade de interpretação mecânica não se resumiu aos testes rodoviários. Na Fórmula 1, ele observava o desgaste dos compostos, o balanço do chassi e a estratégia das equipes, em vez de focar apenas no resultado final da prova. A análise técnica justificava o desempenho na pista de forma objetiva. Continua após a publicidadeEssa credibilidade pavimentou momentos difíceis na comunicação. Durante o acidente de Ayrton Senna, em 1994, o jornalista sintonizou a rádio italiana em ondas curtas de casa. Ao ouvir o boletim médico confirmando a morte encefálica, acionou imediatamente a Jovem Pan e noticiou o fato ao vivo.–Acervo Pessoal/ReproduçãoAs idas a Maranello ilustram o distanciamento crítico que o jornalista mantinha em relação ao produto. Em 1992, Carsughi testou a Ferrari Testarossa na pista de Fiorano e repetiu a experiência em 2011, ao volante de uma California. A paixão pelo automobilismo italiano nunca ofuscou sua independência para apontar falhas ou limitações nos projetos.Transição para o ambiente digitalA carreira também foi marcada pela facilidade em transitar por diferentes plataformas. Após deixar a área técnica das revistas e passar pela criação da Auto&Técnica nos anos 1990, Carsughi assumiu o posto de comentarista na ESPN Brasil e, posteriormente, no SporTV.O avanço da internet exigiu adaptação. Em 2012, fundou o Site do Carsughi, expandindo sua produção de conteúdo para o portal UOL três anos depois, além de retornar ao rádio pela Rádio Nacional.A trajetória rendeu premiações da Editora Abril e o Troféu Roquete Pinto. Em 2015, originou o prêmio automotivo L’Auto Preferita e, mais recentemente, uma homenagem na Assembleia Legislativa de São Paulo. Conhecido pelo humor ácido e pelo texto assertivo, o “Mestre Carsughi” deixa um legado pautado pela independência de pensamento. Publicidade