A IA não vai substituir o trabalhador. Vai substituir a gestão

Wait 5 sec.

Durante décadas construímos organizações assentes numa ideia relativamente simples: alguém tem de saber o que os outros estão a fazer.Criámos chefias, departamentos, supervisores, coordenadores, gestores, diretores. Construímos pirâmides inteiras para observar, distribuir, controlar, comparar, avaliar e reportar.Chamámos-lhe gestão. Agora estamos a construir máquinas que fazem isso em segundos.E não precisam de escritório, não precisam de reuniões, não precisam de pedir os dados ao departamento ao lado. Precisam dos dados. É aqui que começa a verdadeira revolução. Passámos anos a perguntar se a inteligência artificial vai substituir o trabalhador. E se estivermos a fazer a pergunta errada? E se a IA não vier substituir quem trabalha, mas aquilo a que chamámos gestão?A pergunta é desconfortável porque obriga a separar duas coisas que durante demasiado tempo colocámos dentro da mesma palavra.Gerir não é necessariamente liderar, uma máquina pode medir, pode comparar, pode distribuir, pode prever, pode controlar, pode reportar e pode identificar desvios.E talvez consiga fazer tudo isso melhor do que uma parte significativa da gestão que hoje ocupa gabinetes, reuniões e folhas de Excel. Mas há uma coisa estranha nas organizações humanas. Quanto mais conseguimos medir o trabalho, mais facilmente esquecemos o trabalho que não conseguimos medir.Um algoritmo pode saber que determinado trabalhador produziu menos 12% esta semana. Pode saber a hora exacta em que a produtividade caiu, pode cruzar essa informação com o histórico, com a equipa, com o horário e com centenas de outras variáveis. Mas pode não saber que o homem dormiu mal durante três noites. Que começou a sentir dores. Que está exausto. Que tem medo. Que está a compensar uma falha do processo. Que recebeu uma tarefa para a qual ninguém o preparou. Ou que simplesmente chegou ao limite. A máquina vê o desvio. Alguém terá de procurar a causa. E talvez este seja o grande risco da gestão algorítmica. Não a possibilidade de a máquina errar. Mas a possibilidade de acertar na resposta errada.O trabalhador passa menos tempo diante do computador. O sistema assinala uma anomalia. A produtividade desce. O gráfico fica vermelho. E a pessoa passa a ser o problema.Ninguém pergunta o que aconteceu entre uma coisa e outra. Porque o número é limpo. A realidade não.A gestão moderna apaixonou-se pelos números porque os números oferecem uma coisa que a realidade raramente oferece: a sensação de controlo. Um número não discute. Uma percentagem não adoece. Um indicador não tem medo. Uma curva não pede para falar com o chefe. E, no entanto, é precisamente aquilo que não aparece no gráfico que tantas vezes determina aquilo que acontece depois. O silêncio. O cansaço. A hesitação. A dor. A vergonha. Aquela pausa ligeiramente mais longa antes de entrar numa máquina. Aquele trabalhador que deixa de fazer uma pergunta porque já sabe que a resposta será “temos de cumprir”. Aquele procedimento que ninguém cumpre exactamente como está escrito porque, no mundo real, simplesmente não funciona.É aqui que a segurança e saúde no trabalho encontram a inteligência artificial. Porque o trabalho real nunca foi exactamente igual ao trabalho prescrito. Há sempre alguém a compensar. Alguém a improvisar. Alguém a antecipar.« Alguém a fazer aquilo que não está no procedimento mas que impede que a operação pare. Durante anos chamámos a isso experiência. Depois começámos a chamar-lhe adaptação. Às vezes chamamos-lhe erro humano. Talvez seja apenas a parte do trabalho que ainda não aprendemos a medir. E agora queremos ensinar as máquinas a gerir tudo isto.É inevitável. E pode ser extraordinariamente útil. Mas há uma fronteira que não podemos entregar a um algoritmo: a responsabilidade.Se um sistema disser que determinada equipa deve trabalhar mais depressa, quem decide se é seguro? Se identificar um trabalhador como pouco produtivo, quem pergunta porquê?Se recomendar que uma operação continue, quem a interrompe quando o terreno, a máquina ou o corpo humano dizem o contrário?Se o algoritmo estiver errado, quem responde? É aqui que a palavra gestão começa a perder o seu significado antigo. Porque talvez a gestão do futuro não precise de tantas pessoas a controlar pessoas. Precise de pessoas capazes de contrariar sistemas.Esta pode ser a grande mudança. A inteligência artificial poderá retirar à gestão uma parte crescente daquilo que durante décadas justificou a sua existência, (Medir, Controlar, Distribuir, Comparar, Reportar.)E quando isso acontecer, talvez descubramos uma coisa incómoda: Uma parte da gestão não era liderança. Era burocracia com poder.O verdadeiro líder começa precisamente onde termina o indicador. Quando é preciso dizer que o número está errado. Quando é preciso parar uma operação apesar do prazo. Quando é preciso escolher a segurança contra a produtividade. Quando é preciso olhar para um trabalhador e perceber que a queda de desempenho não é um problema de desempenho.É um sinal. A IA pode dizer-nos que alguma coisa mudou. Cabe-nos descobrir o que mudou. Pode identificar o sintoma. Não devemos entregar-lhe a interpretação da pessoa. Pode produzir a decisão mais eficiente. Mas eficiência não é sinónimo de humanidade. Talvez seja por isso que não me assuste particularmente imaginar máquinas a fazer uma parte crescente do trabalho que hoje fazemos.Assusta-me mais imaginar humanos reduzidos à função de executar aquilo que as máquinas decidiram. Porque, nesse mundo, já não teremos gestão. Teremos apenas obediência automatizada. E uma organização assim pode ser extremamente eficiente. Também pode ser extremamente perigosa.Talvez a verdadeira pergunta sobre a inteligência artificial não seja quantos empregos irá destruir. Talvez seja outra.Quantas funções de gestão descobriremos que existiam apenas porque ainda não tínhamos máquinas capazes de as desempenhar?A resposta pode ser maior do que gostamos de admitir. E talvez seja essa a ironia desta revolução. Passámos décadas com medo de que as máquinas viessem roubar o trabalho aos seres humanos. Talvez elas venham fazer outra coisa. Venham retirar-nos o trabalho de controlar o trabalho dos outros. E, quando isso acontecer, ficará finalmente a pergunta que adiámos durante demasiado tempo: Se já não precisamos de pessoas para controlar pessoas, para que precisamos da gestão?Talvez a resposta esteja naquilo que nenhuma máquina deve substituir. A coragem de parar. A capacidade de escutar. A responsabilidade de decidir. A inteligência para duvidar. E a obrigação de olhar para quem está do outro lado da folha de cálculo e perceber que ali não existe um recurso humano, uma percentagem ou uma linha num gráfico.Existe uma pessoa. Talvez a inteligência artificial não venha acabar com a liderança. Talvez venha apenas obrigar-nos, finalmente, a descobrir a diferença entre gerir pessoas e ser responsável por elas.O conteúdo A IA não vai substituir o trabalhador. Vai substituir a gestão aparece primeiro em Revista Líder.