Bernie Ecclestone foi apanhado em Tires. Mas porque continuam os milionários a escolher Portugal?

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Portugal já não oferece o mesmo pacote fiscal que oferecia há alguns anos. O regime dos Residentes Não Habituais acabou para novos beneficiários em 2024 e o investimento imobiliário deixou de dar acesso ao Golden Visa. Mesmo assim, o número de pessoas muito ricas no país continua a crescer.Segundo o Wealth Report 2026, da Knight Frank, Portugal tinha 1.462 pessoas com um património líquido superior a 25 milhões de dólares (cerca de 21 milhões de euros) em 2021. Em 2026, são estimadas 2.187. Em cinco anos, entraram assim nesta categoria mais 725 pessoas.É um crescimento de quase 50%. O dinheiro, afinal, não parece ter recebido o memorando de que Portugal deixou de ser o paraíso fiscal que durante anos apareceu nas brochuras destinadas a estrangeiros.Os milionários não desapareceram quando acabaram os benefícios fiscaisDurante anos, Portugal vendeu uma combinação particularmente difícil de ignorar: sol, segurança, Europa e impostos competitivos. O regime dos Residentes Não Habituais ajudou a alimentar a corrida. O Golden Visa fez o mesmo no imobiliário. Lisboa, Cascais e outras zonas costeiras passaram a receber uma população internacional que não vinha apenas passar férias. Comprava casas, abria empresas, matriculava os filhos em escolas internacionais e começava a tratar Portugal como base.Depois, o cenário mudou. A Autoridade Tributária confirma que o regime dos Residentes Não Habituais foi revogado a partir de 1 de janeiro de 2024 para novos casos. O incentivo fiscal que o substituiu – o IFICI – é mais restrito e está sobretudo orientado para determinadas atividades de investigação, inovação e elevado valor acrescentado. Também o Golden Visa perdeu uma das suas principais portas de entrada: a compra de imóveis deixou de ser elegível.Seria razoável esperar que uma parte significativa do interesse internacional desaparecesse. Não desapareceu.O novo mapa da riquezaO fenómeno português faz parte de uma transformação global. Os muito ricos estão cada vez mais móveis. Já não precisam necessariamente de viver no mesmo país onde construíram a fortuna. Podem ter negócios num país, investimentos noutro, uma residência principal num terceiro e uma casa para passar temporadas num quarto.Para quem tem património suficiente, a geografia tornou-se uma escolha. O Henley Private Wealth Migration Report 2025 estimou uma entrada líquida de 1.400 milionários em Portugal durante 2025. Portugal não lidera esta corrida. Os Emirados Árabes Unidos, por exemplo, atraíram uma previsão de 9.800 milionários no mesmo ano. Os Estados Unidos, 7.500. Itália, 3.600. Suíça, 3.000. Mas Portugal está no mapa. Não vêm apenas pelo dinheiroA questão mais interessante é perceber o que acontece quando o argumento fiscal deixa de ser suficiente. A resposta está em coisas muito menos fáceis de medir. Segurança. Clima. Qualidade de vida. Escolas internacionais. Gastronomia. Praias. Golfe. Privacidade. Ligações aéreas. A possibilidade de viver perto de uma capital europeia sem viver propriamente numa megacidade.É uma espécie de luxo discreto. Portugal não tem a quantidade de lojas de luxo do Dubai, nem os hubs tecnológicos de Manhattan ou a escala de Londres. Ainda assim, pode-se sair de casa em Cascais, atravessar o Guincho, chegar a Lisboa em menos de uma hora e, no mesmo dia, estar num avião para praticamente qualquer grande centro europeu. Para uma família com dinheiro suficiente para transformar a mobilidade num hábito, essa combinação vale muito.A Knight Frank coloca Lisboa entre os destinos europeus considerados por indivíduos de elevado património que ponderam mudar de residência. E os mercados prime de Lisboa, Cascais e Comporta já deixaram de ser exclusivamente portugueses.Na habitação de luxo, os preços ajudam a contar a história. Segundo o Lisbon Residential Market Insight 2026, da Knight Frank, os valores prime rondam os 15 mil euros por metro quadrado na Avenida da Liberdade e em Cascais. Na Comporta, podem ultrapassar os 16 mil euros.A Comporta, em particular, tornou-se uma espécie de laboratório do novo luxo português: natureza, baixa densidade, praia, privacidade e distância suficiente da cidade para parecer um refúgio, mas não suficientemente longe para ser incómoda.É difícil colocar tudo isto numa folha de Excel. O dinheiro também muda as cidadesHá, contudo, um lado menos fotogénico nesta história. A chegada de riqueza internacional é boa notícia para quem vende casas, gere patrimónios, constrói hotéis, presta serviços especializados ou trabalha para consumidores com grande poder de compra. Também pode tornar mais caro viver nos mesmos lugares.Lisboa e algumas zonas do litoral português já sentem essa tensão. Uma família estrangeira que compra uma propriedade de vários milhões de euros não está necessariamente a expulsar outra família do mercado. Mas milhares de decisões desse género, acumuladas ao longo dos anos, ajudam a alterar o preço do território.O luxo não vive num vazio. Precisa de ruas, empregados, restaurantes, escolas, motoristas, arquitetos, jardineiros, médicos, seguranças e uma economia inteira à sua volta.Em 2025, o investimento estrangeiro no imobiliário português atingiu 3,9 mil milhões de euros, o valor mais elevado desde o início da série estatística, em 2008, segundo dados do Banco de Portugal. O montante cresceu cerca de 10% face ao ano anterior, mesmo num ano em que o investimento direto estrangeiro total em Portugal caiu para 8,5 mil milhões de euros.Portugal está, portanto, a receber dinheiro. A questão é quanto desse dinheiro se transforma em investimento produtivo e quanto fica simplesmente estacionado em ativos imobiliários.O que Portugal está realmente a venderPortugal já não é necessariamente o país barato onde um estrangeiro rico pode viver como um rei. O país está, em determinadas zonas, cada vez mais caro. A habitação prime atingiu valores que seriam impensáveis há quinze anos. Lisboa deixou de ser uma descoberta barata para compradores internacionais, mas continua a oferecer uma coisa que o dinheiro não consegue comprar em qualquer lugar: a sensação de que se pode ter muito sem precisar de viver permanentemente num lugar feito para quem tem muito.Bernie Ecclestone é uma personagem particularmente boa para contar esta história porque reúne quase todos os ingredientes do fenómeno: uma fortuna construída à escala global, mobilidade internacional e uma relação antiga com o nosso país.No radar da riqueza internacional a chegada de uma figura de 95 anos num jato privado, com uma espingarda a bordo, acaba por ser imediatamente reconhecida como uma história sobre Portugal e sobre os muito ricos. O país já conhece essa população, as suas casas, os seus hotéis, os seus carros, e por aí fora. Conhece também a contradição. Quer investimento estrangeiro, mas não deseja transformar-se num condomínio para estrangeiros ricos. Ambiciona por capital, mas precisa de habitação acessível. Precisa de talento internacional,  ser competitivo fiscalmente, mas também de gerar receitas para todos. Afinal, onde quer Portugal marcar o seu lugar? Nesse campeonato, os muito ricos já começaram a escolher os seus.O conteúdo Bernie Ecclestone foi apanhado em Tires. Mas porque continuam os milionários a escolher Portugal? aparece primeiro em Revista Líder.