Quase metade dos alunos portugueses usa IA semanalmente, mas só 57% aprende a avaliá-la

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Quase metade dos alunos portugueses de 15 anos — 48,3% — utiliza ferramentas de inteligência artificial pelo menos uma vez por semana para apoiar a aprendizagem, ligeiramente acima da média de 46% registada na OCDE. Contudo, apenas 57,4% dizem ter aprendido na escola a avaliar a qualidade da informação gerada por IA, abaixo dos 62,6% observados no conjunto dos países da organização.Os dados constam do PISA 2025 – Future-Ready Students, divulgado ontem pela OCDE, que avaliou mais de 760 mil alunos em 91 países e economias. Em Portugal, participaram 6945 estudantes de 225 escolas, representando aproximadamente 97 400 jovens de 15 anos.O relatório mostra uma geração que chegou rapidamente à inteligência artificial, mas que ainda não recebeu, ao mesmo ritmo, as ferramentas necessárias para compreender os seus limites. Uma diferença particularmente relevante quando o pensamento crítico já é considerado uma das competências mais importantes no mercado de trabalho. IA chegou às escolas antes da literacia críticaEm Portugal, 35% dos alunos usam IA para fazer pesquisa preliminar, 32% para resumir textos e 34% para preparar trabalhos escolares. Apenas 8% afirmam nunca ou quase nunca recorrer à tecnologia em tarefas relacionadas com a escola, face a 14% na média da OCDE.No entanto, o relatório afasta conclusões simplistas sobre o impacto da tecnologia no desempenho. Nos países da OCDE, os alunos que recorrem regularmente à IA para tarefas como resumir textos, pesquisar ou preparar trabalhos obtêm, em média, cerca de 20 pontos menos em Ciências do que aqueles que não a utilizam dessa forma — uma diferença comparável a aproximadamente um ano de escolaridade.A associação não prova que a IA seja responsável pelos resultados. Pode refletir diferenças no perfil dos alunos, nas dificuldades sentidas ou na forma como a tecnologia é utilizada. O mesmo estudo indica que os utilizadores regulares que recebem formação em literacia de IA tendem a alcançar resultados ligeiramente superiores.O desafio passa, assim, menos por limitar o acesso e mais por desenvolver competências para utilizar a IA com critério: verificar fontes, identificar erros, reconhecer enviesamentos e compreender quando uma resposta aparentemente convincente está incompleta ou errada.Leia também: Geração Z e Millennials serão dois terços da força de trabalho: cinco estratégias para as empresas Portugal acompanha a média, mas perde terreno na leituraOs alunos portugueses obtiveram 482 pontos em Ciências, exatamente a média da OCDE, 462 em Leitura, ligeiramente acima dos 461 pontos da organização, e 460 em Matemática, abaixo dos 463 pontos internacionais. Na resolução computacional de problemas, Portugal alcançou 501 pontos, face a uma média de 500.A fotografia atual esconde, contudo, uma evolução negativa. Entre 2022 e 2025, Portugal perdeu 15 pontos em Leitura e 12 pontos em Matemática. Em Ciências, a descida de três pontos não foi estatisticamente significativa. Os resultados aproximaram-se dos níveis registados em 2006, anulando parte dos progressos alcançados nas décadas anteriores.Atualmente, 18,6% dos alunos portugueses apresentam baixo desempenho simultaneamente nas três áreas avaliadas, enquanto apenas 9% atingem níveis elevados em pelo menos uma delas. Desde 2015, a percentagem de alunos com dificuldades aumentou 11 pontos percentuais em Matemática e Leitura e sete pontos em Ciências.O problema ultrapassa Portugal. Na OCDE, a leitura apressada — responder sem analisar devidamente o texto — quase duplicou entre 2018 e 2025, chegando aos 9%. Mais de metade dos jovens pode também estar vulnerável à desinformação: apenas 46% afirmam verificar a credibilidade das fontes e, simultaneamente, privilegiar evidência científica.A capacidade para interpretar informação, questionar respostas e distinguir evidência de opinião confirma que as competências para o futuro não dependem exclusivamente do domínio de ferramentas digitais. Falta de professores continua a afetar as escolasO PISA identifica igualmente fragilidades nos recursos humanos. Em Portugal, 44% dos alunos frequentam escolas cujos diretores consideram que a falta de professores prejudica, pelo menos em alguma medida, o ensino, acima da média de 39% da OCDE. O valor representa, ainda assim, uma melhoria face aos 62% registados em 2022.A carência de profissionais de apoio é mais acentuada: 64% dos alunos portugueses estão em escolas afetadas pela falta de pessoal auxiliar, contra 39% na OCDE. Outros 29% estudam em estabelecimentos condicionados pela escassez de materiais educativos e 37% pela insuficiência ou inadequação das infraestruturas.Apesar destas limitações, Portugal apresenta indicadores positivos na relação com os professores. Cerca de 80% dos alunos consideram que os docentes demonstram interesse pela aprendizagem de cada estudante, acima dos 69% registados na OCDE, e 83% afirmam receber ajuda adicional quando necessário. Mentalidade de crescimento pode valer 33 pontosA forma como os alunos encaram a aprendizagem também parece fazer diferença. Cerca de 67% dos estudantes portugueses revelam uma mentalidade de crescimento, isto é, acreditam que as capacidades podem ser desenvolvidas através de esforço, estratégias e aprendizagem.Em Portugal, esta mentalidade está associada a uma vantagem de 33 pontos em Ciências, mesmo depois de considerado o estatuto socioeconómico dos alunos, acima da diferença média de 28 pontos na OCDE.O dado reforça a importância da aprendizagem contínua, da autonomia e da capacidade de adaptação — dimensões que serão determinantes na transição entre o ensino e a vida profissional. Sustentabilidade já pesa nas expectativas profissionaisOs estudantes portugueses destacam-se ainda na relação entre aprendizagem, ambiente e futuro profissional. Cerca de 76% afirmam querer proteger o ambiente através do trabalho que vierem a desempenhar, muito acima da média de 62% da OCDE.Além disso, 91% acreditam que podem contribuir positivamente para o ambiente, 90% consideram que a ação coletiva consegue responder aos problemas ambientais e 84% dizem saber colaborar com outras pessoas para gerar impacto. Estes resultados mostram que a futura força de trabalho portuguesa não chega apenas com maior familiaridade tecnológica. Chega também com expectativas elevadas sobre sustentabilidade, impacto e propósito.O PISA 2025 deixa, por isso, um aviso às escolas, empresas e lideranças: dar acesso à tecnologia não é o mesmo que preparar para o futuro. A vantagem estará na capacidade de combinar IA com leitura profunda, pensamento crítico, autonomia, responsabilidade e aprendizagem contínua. A IA já entrou na sala de aula; falta garantir que o conhecimento entra com ela.O conteúdo Quase metade dos alunos portugueses usa IA semanalmente, mas só 57% aprende a avaliá-la aparece primeiro em Revista Líder.