Afastamentos e reação da cúpula: as 24 horas que abalaram a PF

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A Polícia Federal (PF) atravessou, nessa terça-feira (8/9), uma sequência de acontecimentos que alterou seu comando, afastou o chefe da área de Inteligência e provocou uma reação coletiva de 11 diretores.Em poucas horas, uma decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), tirou preventivamente Andrei Rodrigues da Direção-Geral, colocou William Marcel Murad no comando interino e terminou com integrantes da cúpula colocando os próprios cargos à disposição. Leia também Mirelle PinheiroDiretores da PF dizem que acusações contra Andrei são “sem fundamento” Mirelle PinheiroDiretores da PF colocam cargos à disposição após afastamento de Andrei Mirelle PinheiroDelegados da PF veem “atropelo” em decisão que afastou Andrei No epicentro da crise estão seis relatórios de inteligência produzidos pela PF entre 3 e 31 de agosto.Ao analisar os documentos, Mendonça afirmou ter sido alvo de “monitoramento sistemático e ilegal” e de “monitoramento e coleta dirigida”.O ministro também usou a expressão “arapongagem institucional” para se referir à produção desse tipo de material.A decisão não representa condenação de Andrei e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada, também afastado preventivamente. A Corregedoria da PF terá de abrir procedimentos para investigar os fatos.CerimôniaAs primeiras horas após a decisão encontraram Andrei dentro da própria estrutura da Polícia Federal.Na manhã dessa terça, ele estava na Academia Nacional de Polícia (ANP), em Brasília, onde participaria da abertura do LXIII Curso de Formação Profissional para agentes da corporação.Andrei, porém, não apareceu no auditório para a cerimônia após a decisão de Mendonça. Como mostrou a coluna, ele esteve com William Marcel Murad, então diretor-executivo e seu substituto na linha de comando da instituição. Foi Murad quem discursou no evento.Diante dos novos agentes, o delegado fez uma defesa enfática da Polícia Federal. Afirmou que a corporação atua de forma “técnica, imparcial e livre de qualquer viés político” e falou em “tentativas para descredibilizar” o trabalho da instituição, com “alegações dissociadas da realidade e outros disparates”.“Não nos deixaremos abalar por ataques, repito, venham de onde vierem”, declarou. Murad não citou Mendonça nominalmente e não atribuiu diretamente ao ministro os “ataques” mencionados.Ao falar sobre o momento enfrentado pela corporação, afirmou ainda que seria necessário ter serenidade para atravessar a “tempestade”.DecisãoEnquanto a reação interna começava, os efeitos da decisão avançavam.O ministro apontou problemas na produção dos relatórios e destacou que um deles, apesar de atribuir “confiança agregada baixa” às hipóteses analisadas, registrava que o conteúdo autorizava “monitoramento e coleta dirigida”.A decisão também determinou que a Corregedoria da PF instaure procedimentos de natureza criminal e administrativo-disciplinar para apurar a produção e a circulação do material.Mendonça impôs ainda uma restrição à produção de determinados documentos de inteligência, suspendendo a elaboração e o compartilhamento, inclusive interno, de relatórios destinados a analisar atos praticados no exercício das funções de magistrados, integrantes da advocacia pública e policiais no desempenho da atividade de polícia judiciária.STFA liminar foi levada à Segunda Turma do Supremo e, ainda na terça, formou-se maioria pela manutenção dos afastamentos.Kassio Nunes Marques e Luiz Fux acompanharam integralmente Mendonça, formando três votos favoráveis à medida.Gilmar Mendes pediu vista, ou seja, mais tempo para analisar o processo. Com isso, a conclusão formal do julgamento foi interrompida. Dias Toffoli declarou-se impedido.O pedido de vista não suspendeu a liminar. Os afastamentos, portanto, continuaram produzindo efeitos.Diretores reagemA resposta mais contundente dentro da PF veio depois. Em nota pública, 11 diretores da corporação manifestaram “total apoio” a Andrei e Almada e classificaram como “injustificados” os ataques sofridos pela instituição.O documento afirma que “narrativas marcadamente influenciadas por interesses político-eleitorais” não seriam capazes de apagar a trajetória dos dirigentes afastados.Os signatários também repudiaram “toda e qualquer tentativa” de atribuir a Andrei, Almada ou à PF uma atuação “não republicana”.Ao final, veio o gesto que aumentou a dimensão da crise interna, todos colocaram seus cargos à disposição do diretor-geral substituto.A medida não significa que os 11 deixaram automaticamente suas funções ou tenham sido exonerados.Os cargos foram colocados à disposição do novo comando, que poderá decidir sobre a permanência dos dirigentes.Entre os signatários estão os responsáveis por áreas estratégicas como combate ao crime organizado e à corrupção, crimes cibernéticos, cooperação internacional, polícia administrativa, perícia, tecnologia da informação, gestão de pessoas, logística e proteção à pessoa.Sob pressãoWilliam Marcel Murad chega, assim, ao comando temporário da Polícia Federal diante de uma situação incomum.Além de substituir Andrei, terá pela frente o afastamento do responsável pela Inteligência, uma investigação da Corregedoria sobre a produção dos relatórios, uma ordem do STF que estabelece limites para determinados documentos de inteligência e 11 integrantes da cúpula com os cargos à disposição.Murad ocupa a Diretoria-Executiva desde janeiro de 2025 e tem mais de duas décadas de carreira na Polícia Federal.